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Tópico: "A Minha Guerra"

  1. #16
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    Inf “Matei para vingar morte de camarada”

    A Minha Guerra: Episódio em Angola


    Coragem. Sempre gostei da guerra. Fiz todas as missões da minha companhia e fui noutras como voluntário. Vi muitos homens morrerem.

    Quando era novo e estava na recruta, em Tancos, o que mais queria era ir para a guerra, gostava daquilo. Fiz os cursos de combate e de pára-quedista, que me deu o lema de vida: 'Que nunca por vencidos se conheçam'. Em 1967 parti para Angola. A minha primeira operação foi em Santa Eulália, oito dias após chegarmos. Fomos para o mato, com pára-quedistas experientes e andámos aos tiros com guerrilheiros. Na altura, era aquilo que queria, mas jamais poderei esquecer os amigos que perdi, como o tenente Assoreira, o sargento Caria Ramos, o furriel Barata, o Barbeiro, o Magalhães, o Casaca e tantos outros. Não esqueço também o dia em que perdemos o sargento Mansos, que morreu com problemas cardíacos ao saltar de pára-quedas.

    Nunca faltei a uma operação da minha companhia e participei noutras como voluntário. Pertencia ao Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21, era da 1ª companhia, da 1ª secção e da 1ª equipa de quatro pára-quedistas. O meu pelotão era o melhor, mas também o mais insubordinado e o que dava mais problemas ao comandante, Catroga Inês. Um dos momentos que me marcou foi quando, numa operação, tivemos um acidente com veículos Unimog e eu fiquei com uma mão partida, que ainda hoje não está recuperada.

    Nesse momento apareceu um rapaz, o Saúl, a dar-me a notícia de que o Charro tinha sido morto. Era um camarada da minha terra, que tinha andado comigo na escola. Desde logo decidi que ia para a missão seguinte vingar a morte do meu amigo. Como estava ferido, fui transportado para Úcua, para a enfermaria onde um médico me disse que eu não podia sair dali. Pedi-lhe um pouco de álcool e depois passei no bar e comprei uma garrafa de ponche. Eu e alguns colegas tomávamos esse remédio. No fim, não havia dores, nem obstáculos que nos resistissem!

    Participei na operação desde início e fui sempre à frente. Ainda caí numa armadilha de apanhar animais selvagens, mas os meus companheiros resgataram-me. Ao meio da tarde, estava com o Almeirim a fazer segurança, enquanto os restantes pára-quedistas comiam – fazíamos planos para o futuro, para quando deixássemos a tropa – e ele dizia: 'Vamos ser duplos de cinema, que é capaz de dar dinheiro!', quando se aproximou um grupo de inimigos. Apontei a arma à cara de um deles e comecei a disparar. Aproximei-me uns 50 metros e vi que estava feito em dois. Estava vingada a morte do meu amigo Charro!

    Passei momentos de perigo, mas nunca tive medo. Numa missão no Leste, onde havia um quartel de comando do MPLA, levei com uma rajada de balas e só tive tempo de me atirar para um buraco cheio de água. Aguentámo-nos assim uma hora e quando nos enchemos de coragem e fomos para o assalto, já não havia ninguém. Recebi ordens para queimar tudo o que tivesse restado. Qual não foi o meu espanto quando vi uma pessoa, um doente ou uma mulher, dentro de uma tenda, que devia funcionar como hospital. O comandante ainda pôs um cartão junto à barraca a dizer que não fora de propósito.

    No regresso, fomos esperar uma coluna militar, mas estávamos tão cansados que adormecemos. Não fomos apanhados e mortos por sorte. Assim que fomos recolhidos e começámos a andar, deu-se um tiroteio infernal, perdemos muitos homens. Dos pára-quedistas combatentes, o meu camarada Mirandela foi sempre o mais arrojado. Certa vez, eu, ele e o Sérgio Vieira fomos a um acampamento abandonado onde havia Galinhas. O Mirandela, com a sua audácia, trouxe um saco cheio delas. Depois, foi convidar os oficiais, dizendo que o almoço do dia seguinte seria Frango à cafreal. Foi-se deitar e pôs as galinhas à cabeceira, num caixote, com a arma, carregador e granadas em cima.

    Ora, eu e outros camaradas começámos a arranjar maneira de tirar dali as aves. Encontrámos um alicate e arrancámos os pregos do caixote. Eram umas 04h00, estávamos na fogueira a assar as galinhas, quando apareceu o tenente Vilas Boas e me perguntou o que fazíamos. Respondi que, como não tínhamos sono, estávamos a assar uns passaritos. 'Mas isso são Frangos. Não me digam que são os do Mirandela?!', perguntou. É claro que negámos sempre. Quando o Mirandela acordou e se viu sem as galinhas, pegou nas armas e nas granadas e queria-nos matar a todos!

    CONDUZIR E MANTER A FORMA

    Carlos Neto só regressou a Portugal em 1975 e depressa rumou a Espanha, onde viveu 17 anos. Chegou a ter um bar junto à Universidade de Madrid e conheceu personalidades como Salvador Dalí. Hoje vive em Covões, Cantanhede, de onde é natural. É motorista de autocarros há 15 anos e nas suas viagens encontrou um camarada de guerra, em Carrazeda de Ansiães. Praticou atletismo, boxe e foi forcado. Ainda hoje procura manter-se em forma, indo ao ginásio com frequência. É casado em segundas núpcias e tem três filhos – dois rapazes e uma rapariga.

    PERFIL

    Nome: Carlos Neto

    Comissão: Angola (1967-1969)

    Força: Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 21

    Actualidade: Hoje, aos 63 anos, em Covões, Cantanhede

    Carlos Neto - Angola (1967-1969)
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  2. #17
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    Inf “Revoltado, cortei uma orelha ao inimigo”

    A Minha Guerra: Episódio em Moçambique


    Mutilação. Com uma bazuca o soldado matou dois dos nossos camaradas. Ainda hoje vivo esse drama, ao recordar os corpos desfigurados.

    O meu pai queria que eu fugisse para França, mas optei por ficar e fazer o serviço militar. Depois de tirar a recruta no Regimento de Infantaria 3, em Beja, e a especialidade em Estremoz, no Regimento de Cavalaria 3, já sabia que o meu destino seria o Ultramar, como atirador – era carne para canhão. A 24 de Abril de 1968 embarquei no navio ‘Vera Cruz’, no Cais da Rocha, com destino a Moçambique. Chegámos a Lourenço Marques no dia 10 de Maio, para o desfile habitual, após escala na Beira, Nacala, Porto Amélia e Mocimboa da Praia. Foi a partir daqui que sentimos que estávamos na guerra a sério.

    Durante quatro dias seguimos em viaturas rumo a Negomano, no distrito de Cabo Delgado, onde chegámos 29 dias após a partida de Lisboa. Tínhamos o rio Rovuma a fazer a fronteira com a Tanzânia. Permanecemos lá 19 meses. O primeiro contacto com o inimigo foi ao fim de uma semana, numa operação, ficando o nosso capitão Abreu ferido por uma mina comandada. Além das minas e emboscadas de que fomos alvo, o que mais me marcou na guerra foi a operação ‘Sete Espadas’, onde estive envolvido a nível de batalhão, com o apoio dos pára-quedistas.

    O objectivo era a destruição da base inimiga de Limpopo. Caminhamos pelo mato durante quatro dias. Na noite de 31 de Julho de 1969, pelas 21h30, estávamos a pernoitar em círculo, já muito perto da base, para avançarmos no dia seguinte de manhã cedo, quando fomos surpreendidos e atacados. Reagimos de imediato e houve fogo por todo o lado, até que ao fim de algum tempo as armas se calaram. Tivemos quatro baixas e quatro feridos graves, um deles – o soldado Bravo, de Alcácer do Sal – foi atingido por uma bala quando estava ao meu lado. Passei a noite mais terrível da minha vida. Os feridos gemiam de dor e ninguém mais fechou os olhos nessa noite. Tivemos que aguardar até ao amanhecer para que os feridos e mortos fossem evacuados de helicóptero.

    Nessa noite ainda fomos atacados outra vez, por volta das 04h00, mas sem gravidade. Causámos várias baixas ao inimigo e apreendemos diversas armas. Pela manhã, durante as operações de reconhecimento, deparámo-nos com os corpos inimigos espalhados pelo mato e sinais de sangue no capim, pertencente a outros que foram arrastados. O inimigo que matou dois dos nossos camaradas com uma bazuca ficou lá estendido. A nossa raiva era tão grande que, depois de lhe retirar a bazuca, a pistola e as cartucheiras, cortei-lhe uma orelha. Ainda hoje vivo esse drama, ao recordar os corpos desfigurados.

    Numa das muitas operações em que estive envolvido, o guia perdeu-se. O cansaço era muito, a água escasseava nos cantis e não fazíamos ideia de quando íamos encontrar um ponto de abastecimento. Mesmo assim, dividi a última pinga com o furriel de secção, Pinto Rodrigues. Felizmente, alcançámos o rio Rovuma, após mais de uma hora a caminhar. Parecíamos loucos a matar a sede.

    Durante a permanência em Negomano também tivemos períodos alegres nos tempos livres. Jogávamos às cartas, fazíamos um jogo de futebol ou uma petiscada, com galinhas do mato e javalis caçados no regresso das patrulhas. A nossa companhia estava isolada e em tempo de chuvas não se podia ir abastecer a Mueda porque as viaturas não passavam os rios. Chegámos a estar seis meses sem comer batatas. Era só espaguete, arroz, feijão-frade com bichos, atum, carne enlatada e rações de combate.

    Nos últimos dias de campanha aconteceu um incidente terrível com o furriel Ladeira. Ao festejar a notícia do embarque, outro furriel deixou cair um ‘very-light’ ao chão e o Ladeira foi atingido. Ficou sem uma vista. Ao fim de 19 meses de mato, a nossa companhia foi rendida e transferida para uma zona mais calma – o Alto Moloqué, distrito de Zambeze – onde aguardámos o regresso à Metrópole. Embarcámos no navio ‘Niassa’ e chegámos a Portugal a 14 de Julho de 1970. Foram 27 meses de Ultramar que me deixaram muitas marcas.

    Quando cheguei, nem queria acreditar que a guerra tinha acabado para mim. Levantava-me de noite com pesadelos, isolava-me em casa e evitava falar do que tinha passado. Ainda hoje tenho pesadelos, em que vejo os mortos e feridos. São imagens que jamais esquecerei. Para minimizar os efeitos do stress pós-traumático de guerra sou obrigado a tomar medicamentos. Mesmo assim, gostava de poder visitar um dia os locais onde combati.

    CHEGOU A PRATICAR KARATÉ

    Mário Alexandre Nunes de Matos, de 63 anos, nasceu em Ermidas, Santiago do Cacém. Aos 15 anos transferiu--se para a Baixa da Banheira e aprendeu a profissão de pintor de automóveis. Casou-se três anos depois do regresso do Ultramar, tem dois filhos – um filho com 35 anos e uma filha com 34 – e um neto. Explora uma oficina de automóveis em Alhos Vedros e um stand de vendas na Baixa da Banheira. Nos tempos livres gosta de praticar atletismo. Chegou a praticar futebol, karaté e atletismo em provas amadoras, mas teve que abrandar o ritmo por motivos de saúde.

    PERFIL

    Nome: Mário Matos

    Comissão: Moçambique (1968/1970)

    Força: Batalhão de Cavalaria 2848

    Actualidade: Hoje, aos 63 anos, na Baixa da Banheira

    Mário Matos - Moçambique (1968/1970)
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  3. #18
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    Inf “Cortaram tornozelos para roubar as botas”

    A Minha Guerra: Episódio em Angola


    Combates. Mataram três homens a tiro numa emboscada e mutilaram os corpos à catanada. Perdemos dois alferes e um cabo nesse ataque.

    Estive no centro da guerra, numa encruzilhada no caminho de toda a gente. Era a zona onde as coisas mais ‘aqueciam’, Nambuangongo, em Angola. Sempre fui militar e, antes de ir para o Ultramar, dei instrução em Estremoz. Quando soube para onde me tinham mandado, um sargento gracejou comigo: 'Vais ver as maminhas da Lollobrigida'. Na altura, não entendi. Embarcámos no navio ‘Uíge’ e chegámos a Luanda no dia 28 de Novembro de 1967. Estivemos lá apenas três dias. Ao chegar a Nambuangongo, percebi, finalmente, a piada: nesse lugar havia dois enormes morros, daí a comparação com os seios da actriz italiana, na altura com 40 anos de idade.

    Estivemos lá 15 meses mas, antes de nós, já muito sangue havia sido derramado. Na aldeia só resistia uma igreja e um depósito de água, o resto tinha sido destruído. O nosso hino dizia 'em Nambuangongo tu não viste nada, não viste nada desse dia longo, a cabeça cortada, a flor bombardeada, tu não viste nada em Nambuangongo.' Ainda assim, aconteceram muitas coisas impossíveis de apagar da nossa memória.

    Lembro-me de um homem, de outra companhia, que foi vítima de uma emboscada e cortaram-lhe os tornozelos para lhe roubarem as botas. Revoltou-me. Era um camarada a quem tínhamos dado boleia pouco antes desse massacre. Recordo-me que estávamos de segurança e decidimos jogar à bola, para passar o tempo. A determinada altura, alguém chegou e disse: 'Temos de sair já, parece que há mortos por aí!' Fomos ao acampamento vizinho e, quando lá chegámos, era um quadro de terror.

    Nesse destacamento, dentro de um igreja pequenina, estavam três corpos, tapados com lençóis. Destapei-os e vi que um era o mesmo homem que tínhamos ajudado horas antes. Lá estavam dois alferes e um cabo. Mortos a tiro e mutilados com catanas. Senti mesmo muita raiva.

    Nos nossos trilhos havia uma mata de café onde, sempre que por lá passávamos, tínhamos confusão. Era porrada pela certa! Para agravar a tensão, dizia-se que andava na zona um desertor, armado com uma espingarda de sniper, a atirar apenas contra os graduados. Chamavam-lhe o ‘Mata Alferes’. Contava-se que, como nunca havia passado de furriel, chateou-se e foi para o lado do inimigo. Nunca me deparei com ele, mas muita gente contava essas histórias. Lembro-me bem do mito. Nunca tivemos grandes confrontos cara-a-cara, mal os víamos, entre a mata. Mas eles viam-nos. Quando não nos enxergavam, sentiam o nosso cheiro. Éramos denunciados pelos perfumes e ‘after shaves’. Depois, nós não sabíamos andar por ali, fazíamos barulho com os pés. Os inimigos andavam no campo como se caminhassem sobre penas. Conheciam o terreno e eram bons guerrilheiros. Com dez ou doze homens, faziam frente ao dobro. Travavam combates que, muitas vezes, os portugueses não conseguiam.

    Uma vez, durante uma operação de reconhecimento, com outra companhia, entrámos numa terra cultivada. Estavam lá trabalhadores e guardas. Sei que alguém atirou contra nós, de surpresa. Uma bala fez ricochete nas pedras e foi rasgar a garganta a um dos homens. Nem teve hipótese de sobreviver. Morreu logo. Quando íamos para as viaturas, fomos emboscados. Um camarada meu disse: 'Isto não pode ser a tiro'.

    A aflição era tanta que atirámos granadas com as duas mãos. Só assim saímos desta situação. Ali, não interessava quem era graduado ou não. Todos tinham voz nas operações. Só queríamos cumprir a missão e chegar vivos ao acampamento. Como se dizia por lá, heróis mortos não valem a pena. Ainda assim, morreram uns quantos homens durante a minha comissão. Estávamos numa zona muito complicada. Houve gente que ficou doente. Era uma coisa normal, no meio de tantos mosquitos e águas sujas. Grande parte das vezes tínhamos de beber de poças. Passámos lá as ‘caganitas do Algarve’. São coisas que nunca se esquecem e nos marcam para sempre.

    Fomos para Angola como amigos, viemos de lá como uma família. Ainda hoje, quando nos encontramos, cantamos o hino da companhia. Abraçamo-nos e choramos. Vivemos as memórias com muita saudade e nostalgia. Só quem lá esteve sabe o que foi o Ultramar: 'E sempre que houve porrada, lá estava a rapaziada, com orgulho e altivez... Quando eu voltar da guerra, levo fama à minha terra, do soldado português'.

    33 ANOS A SERVIR A PÁTRIA

    António Guerreiro está aposentado e vive em Tavira. Ex-polícia militar, orgulha-se de uma carreira de 33 anos ao serviço do País. Chegou a ser promovido a capitão. Foi para Nambuangongo, em Angola, e deixou cá ficar a namorada. Foram 15 meses a alimentar uma paixão, através de cartas, para casar assim que chegou à Metrópole. No seu percurso de militar, esteve presente no 25 de Novembro, de 1975, ao lado do actual major-general Jaime Neves, ex-comandante do Regimento de Comandos da Amadora. Ainda hoje se emociona quando recorda o Ultramar.

    PERFIL

    Nome: António Guerreiro

    Comissão: Angola (1967-1969)

    Força: Batalhão de Cavalaria 1927

    Actualidade: Hoje, aos 70 anos, em Tavira

    António Guerreiro - Angola (1967-1969)
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  4. #19
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    Inf "No mato tinha de matar para não morrer"

    A Minha Guerra: Episódio na Guiné


    Sobrevivência. Numa operação de limpeza matámos e destruímos tudo o que nos apareceu à frente. Foi uma coisa infernal, um tiroteio medonho.

    Comecei o serviço militar no dia 24 de Janeiro de 1966, quando me apresentei na Guarda, no Regimento de Infantaria 12. Ali fiz a recruta. Em Abril fui para Abrantes tirar o curso de atirador. Parti para a Guiné no dia 30 de Julho, a bordo do paquete ‘Uíge’. Cheguei a Bissau e embarquei em batelões da Companhia Ultramarina como se de mercadoria se tratasse. Passadas uma boas horas saí em Catió. Nunca tinha visto tantos negros à minha volta mas, se eram os nossos inimigos, naquela altura pareciam bons amigos.

    Quando cheguei ao quartel encontrei a Companhia de Cavalaria 763 a terminar a sua missão. Deram-nos um colchão pneumático e uma capa de oleado camuflada e fomos à procura de um sítio para dormir. Encontrámos um armazém devoluto e não pensámos duas vezes: enchemos os colchões de ar e deitámo-nos. O pior foram as melgas e os mosquitos que passaram toda a noite a picar-nos.

    A companhia dividiu-se em três pelotões e fomos para a ilha de Como. Ficámos no aquartelamento do Cachil. Fiz várias operações logo no início da missão. Numa delas, de noite, atravessámos um rio numa canoa guiada por um negro e fomos fazer uma emboscada na mata de Granjola. O meu comandante tinha-nos avisado de que iríamos encontrar inimigos. E assim foi. Às primeiras palavras vindas da floresta nós não demos hipóteses para mais nada e começámos a disparar.

    Foi uma coisa infernal, um tiroteio medonho. Matei muitos inimigos. Ali era assim: no mato tinha de matar para não morrer. O nosso guia foi atingido e teve de ser evacuado de emergência para o hospital. Nós regressamos a Catió, com o baptismo de fogo no currículo de combatente. Dois dias depois fomos destacados para o mato de Cufar. O meu pelotão foi apanhado pelo fogo inimigo e escondemo-nos na água de um rio. Eu só tinha a cabeça fora de água para poder respirar. As balas assobiavam por cima de mim. Vi a água a fazer salpicos e as granadas a rebentarem por perto. Pensei que ia morrer. No entanto, pedimos apoio aéreo e avançámos com toda a força que tínhamos: fizemos dezenas de mortos.

    Em Catió fiz várias operações, muitas patrulhas. Mas se lá foi mau, na ilha de Como foi bem pior. As casernas eram os abrigos, com carreiros de formigas pelos chão e enxames de melgas pelo ar. Perdi seis quilos em quatro meses. Diziam que havia 300 minas e armadilhas. Por vezes, durante a noite, lá rebentava uma, o que nos colocava em sobressalto e alerta máximos. No quartel existiam duas filas de arame farpado. Numa estavam os candeeiros a petróleo. Cada posto tinha dois sentinelas. Enquanto um ia dar umas bombadas ao candeeiro, o outro ficava com a espingarda G3 para qualquer eventualidade. Era uma zona muito perigosa, ao ponto do nosso correio ter sido lançado pelo ar.

    A alimentação era especial: ao almoço arroz com atum, ao jantar espaguete com chouriço. No dia seguinte era ao contrário. Não percebo como é que foi possível tratar assim os homens que defendiam os interesses da Nação. A higiene, por exemplo, era feita nos charcos, depois de uma granada rebentar, para as cobras e outros répteis se afastarem. O caso que mais me chocou aconteceu em Março de 1967. Numa operação de limpeza com quatro companhias de infantaria, uma de comandos e outra de fuzileiros, matámos e destruímos tudo o que nos aparecia pela frente. Os inimigos pareciam macacos em cima das árvores. Não lhes demos hipótese. No entanto, uma morteirada inimiga atirou com o furriel Ribeiro para uma cadeira de rodas.

    Depois de uma luta renhida acabámos por encontrar e destruir o armazém onde eles guardavam o armamento. Em Janeiro de 1968 deixámos Empada e fomos para Bissau, a missão aproximava-se do fim. Fizemos escala na ilha de Bolama, onde ficámos uns dias, porque o presidente Américo Tomás foi lá fazer uma visita e era preciso fazer-lhe segurança. Na véspera da visita entrámos nas lanchas militares e fomos para a Mata, a sul da ilha. Apercebemo-nos que os inimigos iam atacar. Fomos atacados, mas o Seia, armado com uma bazuca, chegou para eles. Limpámos a zona e Américo Tomás pôde fazer a visita sem problemas.

    Poucas semanas depois chegou o navio ‘Niassa’ para nos trazer de regresso. No dia 15 de Maio deixei a Guiné com destino a Lisboa, onde desembarquei um mês depois. Apesar de já ter passado muito tempo ainda hoje me recordo da guerra como tivesse sido ontem.

    ENTRE AS CARTAS E A HORTA

    Depois da guerra, Jorge dos Santos Patrício entrou como contínuo na Caixa Nacional de Pensões. De vigilante passou a motorista e assim se manteve até 2002, altura em que se reformou e regressou à Beira Alta. Reside em Viseu, mas passa muito do seu tempo livre a jogar às cartas com os amigos em Pendilhe, em Vila Nova de Paiva. Casado e pai de duas filhas – uma professora na Holanda e outra funcionária no Tribunal de Castro Daire –, Jorge Patrício também trata da horta. "A melhor coisa que hoje temos é poder cultivar aquilo que se come em casa", diz.

    PERFIL

    Nome: Jorge Patrício

    Comissão: Guiné (1966-1968)

    Força: Companhia de Caçadores 1587

    Actualidade: Hoje, aos 63 anos, em Viseu

    Jorge dos Santos Patrício - Guiné (1966-1968)
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  5. #20
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    Inf “Passei a comissão na guerra da cerveja”

    A Minha Guerra: Recordações de Angola


    A companhia de Manuel de Oliveira pouco antes de partir para um reabastecimento num percurso perigoso

    Tranquilidade. Estive quase todo o tempo atrás do arame, em segurança, ao contrário de muitos camaradas que lutaram e alguns morreram lá.

    Parti para Angola a bordo do navio ‘Niassa’. Durante a viagem, enjoei muito, não conseguia comer, nem sequer aproximar-me da cozinha. Fui-me abaixo de tal modo que quase não saí da cama. Estivemos uns tempos em Grafanil, em Luanda, e depois partimos para o Norte. Ao contrário de muitos dos meus camaradas, não passei momentos de terror. Nunca disparei um tiro contra ninguém nem saí para o mato. Para dizer a verdade, gostei de estar em Angola e gostava muito de lá voltar. As memórias que guardo são, na maioria, boas. As más recordações, se as tive, já esqueci.

    Pertencia à Companhia 2693 do Batalhão de Caçadores 2910 e estive no Toto e em Bembe. Pouco depois de chegar, comecei a sofrer muito com varizes nas pernas. Estive para ser operado e cheguei a ficar um mês internado em Luanda. Quando regressei ao quartel, o médico disse que não podia andar no mato e tinha de ter muito cuidado.

    A partir de então fiquei adido à secretaria e tornei-me ajudante do cabo-escriturário Pratas. Passámos bons momentos juntos. Os meus camaradas que saíam para o mato em operações passaram fome, sede, frio e viram muita gente morrer, mas eu nunca passei por isso. Estive dois anos à espera de vir embora, sempre dentro do arame, em grandes jantaradas e brincadeiras. Fazia as sentinelas, quando era necessário, e ia com outros militares fazer os reabastecimentos.

    Certo dia, os meus companheiros saíram numa operação e quando regressaram traziam quatro pacaças (bois selvagens) – uma foi para a sanzala, outra entregue à administração e as restantes ficaram para a companhia. Andámos quase um mês a comer daquela carne! Também recordo com saudade os nossos convívios à sexta-feira, em que comíamos sempre uma caixinha de camarão e bebíamos uma grade de cerveja (cada um!). Andávamos sempre em grandes patuscadas. Na nossa companhia havia um sargento alentejano que era bom cozinheiro. Certo dia resolveu fazer uma açorda à moda da terra dele e fez-nos correr aquilo tudo à procura dos ingredientes necessários.

    A minha luta era a da cerveja, sobretudo a da Nocal, a minha preferida! Nunca disparei um tiro contra ninguém. A minha arma andava sempre comigo e pronta a disparar, mas a única vez que a usei foi quando um sargento me obrigou. Chamou-me e perguntou: 'Ó Oliveira, não tem arma?' Eu respondi-lhe que tinha e ele perguntou por que não a utilizava. Eu ripostei: 'Para quê? Se não preciso…' Foi aí que ele me explicou que as munições estavam a perder a validade e fez-me disparar todas as balas na parada. Apesar de ter tido uma estadia muito calma, ainda lá apanhei alguns sustos, e não esqueço o dia em que uma companhia mista foi atacada quando estava já a chegar ao quartel. Lembro-me de ver entrar no quartel homens com as costas todas traçadas de balas e muito maltratados. Foi uma aflição!

    Sempre que tínhamos que fazer reabastecimentos, percorríamos um caminho arriscado e sujeitávamo-nos a um ataque do inimigo. Certa vez, numa dessas viagens, o rapaz que ia à frente com a metralhadora viu qualquer coisa mexer no capim e, temendo que fosse um ataque, desatou aos tiros. Nós, que íamos nas viaturas logo atrás, saltámos em andamento para nos defendermos. Quando constatámos que eram apenas javalis respirámos de alívio.

    Valente susto apanhei também em Mabubas, já na fase final da comissão, quando um camarada se lembrou de lançar uma granada. Eu estava de guarda à barragem e apanhei um dos maiores sustos da minha vida. Pensei que era um ataque. Ficou tudo num alvoroço e eu pensei que aquilo ia terminar mal. Felizmente, não passou de um falso alarme. Marcou-me também o dia em que perdemos um ajudante de cozinha, o Vicente, que morreu electrocutado ao aproximar-se do arame farpado, que estava electrificado para proteger as instalações.

    Durante os anos que estive em Angola passei muitos mais bons momentos do que maus. Convivi bastante com os indígenas, sobretudo quando estive no Toto, e fiz grandes amigos por lá. Por vezes também ia a Novo Redondo, onde tinha uma irmã que casou com um funcionário do Governo Civil. Desde que vim da guerra sempre sonhei muito. Sonho que estou em Angola a conviver e na brincadeira com os meus companheiros. Daquela terra trouxe boas recordações e bons amigos, que ainda hoje mantenho, pois todos os anos participo nos encontros de ex-combatentes.

    VIVE O SONHO DE REGRESSAR

    Regressado em 1972, Manuel de Oliveira tornou-se tipógrafo na Tipografia Anadia, fundada pelo pai e hoje gerida por um irmão. Casou com Cármen Rosa, com quem teve dois filhos, de 24 e 32 anos. Vive em Anadia e divide o seu tempo entre a tipografia, os amigos e a família. Continua a apreciar 'grandes patuscadas e boa cerveja'. Não dispensa os convívios no café com os amigos e perde-se em horas de conversa. Gosta de recordar os tempos do Ultramar com camaradas que revê todos os anos. O seu maior sonho é um dia regressar a Angola, onde garante ter sido feliz.

    PERFIL

    Nome: Manuel de Oliveira

    Comissão: Angola (1970/72)

    Força: Batalhão de Caçadores 2910

    Actualidade: Hoje, aos 61 anos, em Anadia

    Manuel de Oliveira - Angola (1970/72)
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  6. #21
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    Inf "Uma mina matou o meu melhor camarada"

    A Minha Guerra: Emboscada na Guiné


    Numa missa ao ar livre em frente ao rio Cacheu

    Dor. Ela pediu-me mas nunca contei à namorada do Chico a forma horrível como ele morreu, no dia seguinte a termo-nos visto pela última vez.

    A maior mágoa que trouxe da guerra no Ultramar foi a morte do meu melhor amigo, o Chico – de nome completo Francisco Pepino Tomás do Coito. Conhecemo-nos na recruta e, sendo ribatejanos, eu de Amiais de Baixo e ele de Alcanhões, criámos uma grande amizade, como se fôssemos irmãos. Quando embarcámos para a Guiné éramos radiotelegrafistas e pertencíamos ao mesmo batalhão mas fomos colocados em companhias diferentes, a 30 quilómetros de distância. Eu fiquei em Farim, no Norte, e ele em Quntina, na fronteira com o Senegal, onde estavam todos os atiradores. Como pertencíamos às Comunicações, falávamos muito durante a noite, quando estávamos no mesmo turno, ao longo dos oito meses de comissão.

    A última vez que o vi foi na véspera da sua morte, quando veio ao meu quartel. O Chico escreveu quatro aerogramas para a família e a namorada, e pediu-me que os metesse no correio, uma vez que o avião chegava no dia seguinte. Dormiu na minha cama enquanto estive de serviço e partiu muito cedo, sem se despedir, pedindo apenas ao estafeta que me desse um abraço por ele.

    De manhã, soube pelo rádio que morrera numa emboscada a caminho de Quntina. Pisaram uma mina antipessoal e o Chico morreu numa explosão horrível que lhe deixou o corpo todo desfeito. A sua morte deixou-me devastado e foi muito sentida por todos os que o conheciam. Mesmo assim, deixei os seus aerogramas no correio.

    Passadas três semanas, recebi uma carta da namorada do Chico, a Madalena, da Tapada de Almeirim, que nunca conheci mas julgo ser (ou ter sido) juíza no Tribunal de Almada. Pedia-me por favor que lhe contasse a morte do namorado: como foi, se foi rápida ou lenta, se sofreu, se levou um tiro ou se foi atingido de outra maneira. Nunca lhe respondi, porque achei que dizer a verdade seria demasiado cruel. Aliás, nem à minha mãe contei, nas cartas que mandei para casa, que o Chico tinha morrido.

    De resto, a guerra foi uma experiência horrível, e eu até costumo dizer que a Guiné é onde o sol é mais quente e o luar é mais turvo. A minha primeira sensação do que era uma guerra, e que me marcou profundamente, vivi-a a 22 de Abril de 1968, quando os turras atacaram o quartel com morteiros. Estava com o estafeta no posto de rádio – sempre o primeiro alvo a abater - e ouvimos um barulho horrível a grande distância. Ele disse-me: 'Amiais, isto é um ataque.' Mas acabámos por ficar, com ele a dizer-me que eu não tivesse medo.

    Os rebeldes atacavam o quartel quase sempre ao dia 22 de cada mês. Num desses dias, ao ouvir os primeiros barulhos, corri para a enfermaria e escondi-me junto a uma parede. Ao olhar para cima, qual não foi o meu espanto quando vi o nome do meu pai gravado numa telha: 'Manuel Lourenço Frade'. Não faço a mínima ideia de como é que as telhas feitas na cerâmica dele, em Amiais de Baixo, foram parar à Guiné. E se calhar até tinham passado pelas minhas mãos quando lá trabalhava. Tive o pressentimento de que não ia morrer ali, como se o meu pai me estivesse a proteger.

    Fui umas 20 vezes para o mato, o pior que nos podia acontecer. Numa ocasião, em Outubro de 1968, era o único branco no meio de 60 ou 70 ‘roncos’, guerrilheiros negros que estavam na sua terra mas ao serviço de Portugal. Como eles não tinham transmissões, tive de caminhar com um rádio de 16 quilos às costas durante dois dias e duas noites. Urinei para uma queimada para me poder mascarrar de preto e não ser um alvo fácil no meio deles. A missão era chefiada pelo comandante Chern, que me colocou um binóculo Bricama na cara para que eu visse um quartel de terroristas que tinha a fama de ser quase tão forte como o nosso. Eu disse-lhe para ter cuidado para ver para onde me levava, porque eu tinha mulher e dois filhos para criar na Metrópole. Era mentira, porque eu era solteiro e bom rapaz, mas funcionou e voltámos para trás. A guerra e a matança eram a coisa mais normal do Mundo para eles. Mas para mim não.

    O dia mais feliz da minha vida foi quando regressei à Metrópole. Vivi situações muito complicadas mas sei que muitos portugueses sofreram bem mais do que eu, que só não fui mais sacrificado por ser radiotelegrafista. Nos momentos de acalmia, fugia à realidade escrevendo cartas à minha mãe. Aliás, quero deixar aqui um grande bem-hajam a todas as mães que tiveram filhos no Ultramar, mesmo às que já partiram, como a minha.

    ENTRE NAMORADAS E NETOS

    Depois de regressar em 1969 da Guiné, onde esteve na Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Caçadores 1932, Dinis Frade trabalhou como motorista de pesados durante 29 anos. Neste momento está em situação de pré-reforma, depois de ter ficado viúvo há seis meses. Tem dois filhos e uma filha, todos casados. O ex-combatente não perde um encontro do seu batalhão, porque ficou 'marcado pela união e amizade que se criou'. 'Na tropa falávamos de namoradas. Agora falamos dos netos', diz Dinis Frade, comparando as voltas que a vida dá.

    PERFIL

    Nome: Dinis Frade

    Comissão: Guiné (1967/69)

    Força: Batalhão de Caçadores 1932

    Actualidade: Hoje, aos 61 anos, em Amiais de Baixo

    Dinis Frade - Guiné (1967-1969)
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  7. #22
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    Inf "Os pés não foram decepados pelo inimigo"

    A Minha Guerra: Emboscada da CCVA 1773


    Carro de combate M5A1, em Nambuangongo, no Norte de Angola. Este blindado tinha nome: chamava-se ‘Nina’. Guarnição: Almeida (chefe do carro); Ribeiro (apontador); Dias (condutor); Aires e Pouca Roupa (mecânicos)

    Enquanto puder, defenderei com tudo o que estiver ao meu alcance o que os meus homens fizeram e como se comportaram em combate.

    Cumpri quatro comissões no Ultramar: em Goa, como alferes e tenente, comandante de um pelotão de reconhecimento; em Moçambique, já capitão, no comando da Companhia de Cavalaria 568; em Angola, ainda capitão, comandante da Companhia de Cavalaria 1773; e, por último, já major, como oficial de operações do Batalhão de Cavalaria 3836. Torna-se difícl falar de tudo o que passei durante as minhas comissões. Falarei da ‘minha guerra’, a que vivi com os meus homens. Não falo do que fizeram ou deixaram de fazer as outras unidades.

    Esta oportunidade de escrever sobre o que se passou devo aos militares sob o meu comando. Não admito que outros falem por nós. Enquanto puder, defenderei com tudo o que tiver ao meu alcance o que os meus homens fizeram e como se comportaram. Já que alguém resolveu escrever sobre a companhia que comandei (ver depoimento de António Guerreiro, na edição de 27 de Setembro de 2009, "Cortaram tornozelos para roubar as botas"), ainda por cima com mentiras e asneiras, resolvi sair a terreiro – não para salvar a minha honra mas para repor a verdade em defesa dos meus homens.

    Escreveu António Guerreiro: "Lembro-me de um homem, de outra companhia, que foi vítima de uma emboscada e cortaram-lhe os tornozelos para lhe roubarem as botas. (...) Recordo-me de que estávamos de segurança e decidíramos jogar à bola para passar o tempo. A determinada altura, alguém chegou e disse: ‘Temos de sair já, parece que há mortos por aí’. Fomos ao acampamento vizinho e, quando lá chegámos, era um quadro de terror. Nesse destacamento, dentro de uma igreja pequenina, lá estavam três corpos tapados com lençóis. Destapei-os. (...) Lá estavam dois alferes e um cabo. Mortos a tiros e mutilados com catanas."

    A companhia que eu comandava, a 1773, estava na Fazenda Beira Baixa, enquanto a de António Guerreiro, então furriel, a 1774, estava em Nambuangongo. É certo que dois grupos de combate da minha companhia sofreram uma emboscada, entre a Beira Baixa e Balacende, por um grupo inimigo constituído por uns 50 homens. Também é verdade que os guerrilheiros levaram as botas de um dos militares mortos. Mas é falso que lhe tivessem decepado os pés. Ao destapar os corpos, como diz que fez, podia ter observado isto mesmo. Mas é claro que não viu nada. Resta-me dizer, sobre este episódio, que os meus homens responderam à emboscada com valentia raiando a heroicidade.

    Nunca ouvi falar do tal desertor que, segundo António Guerreiro, andaria na zona armado com uma espingarda de sniper a atirar apenas contra os graduados e a quem chamavam o ‘Mata Alferes’. É um disparate. Não usávamos nem galões, nem divisas, nem óculos escuros quando saíamos para combate.

    Reposta a verdade, lembro agora um episódio que passei em Moçambique, no comando da Companhia 568, e que muito me marcou.

    Tomámos parte em inúmeras operações, planeadas a maior parte delas pelo então tenente-coronel Pires Veloso (hoje major-general na reforma), a quem chamávamos o ‘Embrulha’. E ele sabia que tinha esta alcunha. Era o ‘Embrulha’ porque sempre que aparecia era para nos meter numa embrulhada. A maior que ele nos arranjou foi uma grande operação conjunta com pára-quedistas, comandos e fuzileiros. Esta acção militar foi desencadeada a norte de Metangula. Em dada altura, durante a operação, um ‘pára’ teve a infelicidade de pisar uma mina – e ficou sem um pé. O ferido, que se esvaía em sangue, necessitava de ser evacuado com urgência. Mas não havia helicópteros disponíveis. E ali não existia pista para um avião.

    Os meus homens levavam para as operações uma catana no cinturão. Só havia uma solução: abrir uma picada à catanada, por entre a vegetação, para servir de pista. Foi isso que fez o pessoal da Companhia 568 – enquanto os pára-quedistas garantiam a nossa segurança. Ouvimos no céu o barulho de um Dornier 27. Não sabia que aos comandos do aparelho vinha o extraordinário piloto que era o então tenente Carrilho – e ainda bem que era ele. Conseguiu aterrar naquela pista improvisada e curta. Eu nunca tinha visto uma coisa assim: o avião balançava no ar como uma folha de papel a perder altura – até que o trem de aterragem tocou o solo. Embarcámos o ferido. O piloto conseguiu fazer subir o avião, motor na máxima rotação, em tão curto espaço.

    Ainda hoje me vêm as lágrimas aos olhos ao recordar este episódio. Não sei se o ‘pára’ sobreviveu. Gostava de saber. Fizemos tudo para o salvar. Ele foi para o hospital, em Vila Cabral, nas mãos de Deus e do piloto Carrilho.

    LIVRE DA INVASÃO DE GOA

    José Cabedo fez a primeira comissão no Estado Português da Índia como comandante de um pelotão de reconhecimento em Goa. Os homens que o renderam sofreram a invasão pelas tropas indianas. O então governador, general Vassalo e Silva, não tinha alternativa que não fosse a rendição. Era isso ou, como pretendia Salazar, a carnificina inútil de uma guarnição escassa e mal armada. "Só pode haver portugueses vitoriosos ou mortos", exigia o presidente do Conselho em Lisboa. Os nossos militares foram humilhados e tratados como cobardes pelo regime.

    PERFIL

    Nome: José Cabedo (coronel)

    Comissões: Goa, Moçambique, Angola (1958/1972)

    Força: CCAV 568 e 1773, BAT 3836

    Actualidade: Hoje, aos 74 anos, em Lisboa

    José Cabedo, Comissões em Goa, Moçambique e Angola (1958-1972)
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  8. #23
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    Inf "Fomos atacados pela nossa aviação"

    A Minha Guerra: Alvo errado na Guiné


    Manuel Sousa com a mulher e os dois filhos, que se juntaram a ele em Angola em 1970

    Ultramar. Fiz duas comissões, na Guiné e em Angola, alistei-me no exército como voluntário e fui militar até me reformar, na Escola de Sargentos.


    A minha história é diferente daquela que é contada pela esmagadora maioria dos que estiveram no Ultramar. Eu alistei-me como voluntário no Exército e passei a vida no meio militar. Ainda hoje, reformado, ajudo nas questões administrativas na Liga dos Combatentes. Eu fui um dos 180 homens que partiram no ‘Niassa’, a 30 de Julho de 1966, com destino à Guiné. Desembarcámos em Bissau a 5 de Agosto e seguimos de imediato numa lancha para Catió e depois para a ilha de Como, que tinha um papel de destaque nos símbolos da luta do PAIGC.

    Estivemos seis meses na ilha. O meu lema era: 'Não morrem todos, porque é que me há-de calhar a mim?' A primeira peripécia aconteceu ao fim de quatro meses, com a nossa própria aviação, que nos avistou e pensou sermos o inimigo. Houve uma descoordenação, não conseguimos contactar os nossos camaradas e fomos bombardeados. Tivemos de fugir para o aquartelamento e, por sorte, ninguém ficou ferido.

    As coisas não estavam a correr bem. Não tínhamos água potável na ilha. As lanchas da Marinha abasteciam-nos todos os dias, desde Catió, mas quando não havia maré não podiam cumprir a missão. Tínhamos de poupar. Só tomávamos banho e lavávamos a roupa quando chovia. Ao rio não íamos porque tinha crocodilos. Foi ali que se registaram os primeiros feridos da companhia. Tínhamos armadilhado o caminho até aos bidões de gasolina, junto ao rio, e apenas os condutores sabiam lá chegar. Só que um cão accionou as minas, que feriram cinco militares.

    Dali fomos para o aquartelamento em Empada, em Março de 1967. Quando regressava de uma operação para o quartel, o furriel Ribeiro foi alvo de uma emboscada e atingido a tiro na medula, ficando paraplégico. Em combate foi o único ferido da companhia. O único morto aconteceu em Bissau, quando estávamos prestes a regressar. Ele vinha do hospital militar e foi atropelado por uma viatura da tropa. Fui eu, por ser o mais antigo do quadro, quem ficou encarregue de trazer o corpo e o seu espólio e de os entregar à família.

    O maior susto que apanhei foi em Tite. Numa noite fui ao aquartelamento, em serviço da companhia (eu era comandante de secção), numa avioneta da Força Aérea, de dois lugares, que fazia o reabastecimento e levava o correio. Ia pernoitar no quartel. Tinha tomado banho e tocou o recolher, às 21h30, e o silêncio meia hora depois. Logo a seguir estivemos meia hora debaixo de fogo. Nem arma tinha para ripostar. As tripulações dos Panhard correram para lançar o contra-ataque mas dois dos condutores – um cabo e um soldado – foram atingidos e morreram. A certa altura, o major de operações, Jasmim de Freitas, apanhou um Panhard, saiu do quartel e fez dispersar o inimigo.

    Voltámos à Metrópole no paquete ‘Uíje’ a 15 de Maio de 1968. Em 1969, fui mobilizado para Angola. A partida foi a 26 de Novembro no ‘Império’ e chegámos a 6 de Dezembro a Luanda. Estivemos seis dias em Granafil e depois fomos para Mamarrosa, sede do batalhão.

    A 22 de Junho de 1970 fomos para Cuimba, para render o Batalhão de Artilharia 2864. Não sofremos emboscadas e a vida correu tranquila. O mesmo não puderam dizer as outras companhias do meu batalhão. Num patrulhamento junto à fronteira com a República do Congo o soldado Anastácio de Jesus Magalhães, da Companhia de Caçadores 2608, accionou uma mina antipessoal e morreu. Outros dois mortos em serviço ocorreram nas restantes companhias – o soldado Adelino António Pereira Magalhães, da 2609, e o 1º cabo Armando da Fonseca e Silva, da 2610. Também as subunidades de reforço registaram baixas – o 1º cabo Herculano Tavares Pontemieiro, do Pelotão de Morteiros 2167, e o sargento Silva Joaquim e o soldado Pedro Camboa, das tropas de elite.

    Em Janeiro de 1972 regressei a Luanda, ao quartel-general da Região Militar de Angola, para desempenhar serviços administrativos na 1ª repartição. Os meus camaradas regressaram à Metrópole. Como era do quadro permanente, fiquei em Angola, onde a minha família já estava desde 1970. Quando me encontrava em Cuimba, a minha mulher e os meus dois filhos estavam em São Salvador, a 100 quilómetros. Regressei à Metrópole a 22 de Dezembro de 1974, ao Regimento de Infantaria 5, e fui promovido a primeiro-sargento. Fui formador da Escola de Sargentos do Exército, que sucedeu ao Regimento de Infantaria 5. Por causa da idade, não fui ao curso de promoção a sargento-chefe. Passei à reforma em 1987.

    UMA VIDA DEDICADA AO EXÉRCITO

    Manuel João Martins Sousa é de São Vicente, Elvas. Fez a 4.ª classe e entre os 11 e os 20 anos trabalhou no campo. De 1957 a 1960 esteve no Batalhão de Caçadores (BCAÇ) 8, em Elvas, e em 1960 no BCAÇ 9, em Viana do Castelo. Nesse ano fez o Curso de Formação de Sargentos Milicianos, em Tavira.

    Em Janeiro de 1961 foi para o Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha. Em 1963 casou-se e em 1965 já era furriel. Um ano depois foi para a Guiné (1966/68), logo após nascer o primeiro filho. Esteve ainda em Angola, no BCAÇ 2890, como segundo-sargento (1969/74).

    PERFIL

    Nome: Manuel Sousa

    Comissão: Guiné (1966/68)

    Força: Companhia de Caçadores 1587

    Actualidade: Hoje, aos 72 anos, nas Caldas da Rainha

    Manuel Sousa, Guiné (1966-1968)
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  9. #24
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    Inf "Um deles ainda vi a dar o último suspiro"

    A Minha Guerra: Militar-poeta em Moçambique


    Na velha Mercedes, a atravessar uma ponte feita por militares

    Ser cozinheiro deu-me uma tropa mais tranquila. Apesar disso ainda assisti à morte de vários camaradas e estive envolvido nalguns combates.

    Foi em Moçambique, em 1966, que empunhei armas para lutar em nome da minha Pátria. Segui viagem desde Lisboa no navio ‘Vera Cruz’, onde também viajava o general Ramalho Eanes, na altura capitão e comandante de uma companhia de caçadores. A bordo iam três batalhões, mas mesmo assim tive oportunidade de travar conhecimento com Eanes, que era compadre do capitão que comandava o meu batalhão. Hoje somos vizinhos e bons amigos. Mas a minha guerra começou a 4 de Janeiro de 1964, quando fiz 20 anos e fui dar o nome, como era exigido nessa altura. Cinco meses depois fui à inspecção, em Góis, tendo sido considerado apto para todo o serviço militar.

    Assentei praça em 26 de Outubro de 1965, no Regimento de Infantaria 10, em Aveiro. Ali fiz a recruta, em Novembro e Dezembro. Foram dias muito amargos e duros para um jovem que, embora criado na linda aldeia de Carvalhal do Colmeal, já conhecia algumas vilas e muitas aldeias, pois o meu pai negociava em gado e vivíamos da agricultura. Trabalho que eu aprendi a fazer, mas que não pude praticar em Aveiro, onde os dias eram passados a rastejar junto às salinas.

    A minha caserna era na primeira companhia, comandada pelo capitão Macedo, um homem rijo. Os mosaicos da caserna eram paralelos pretos, por já ter lá existido uma cavalariça. Só tínhamos dois lençóis e duas mantas para nos protegermos do frio, que era muito e nos deixava a tremer. O banho era outro tremor, por ser de água fria. Passei dois meses mesmo duros.

    Em 2 de Janeiro de 1966, dia do meu aniversário, entrei pela primeira vez no Regimento de Infantaria 15, em Tomar. Tirei a especialidade de cozinheiro e quando passei a pronto fui transferido para outra caserna. Dois dias passados soube que estava mobilizado para uma comissão de reforço, com destino a Moçambique.

    Saímos de Lisboa no dia 23 de Abril de 1966, no ‘Vera Cruz’. Parámos um dia em Luanda, para abastecer o navio, depois lá fomos visitar a cidade e o quartel de Grafanil. À noite continuámos a viagem e, ao chegar a Lourenço Marques, os três batalhões – o meu era o Batalhão de Caçadores 1890, de Infantaria – fizeram um desfile pela cidade. Prosseguimos e parámos em Porto Amélia e em Nacala, onde saíram algumas companhias independentes, nomeadamente a que era comandada por Ramalho Eanes.

    O meu batalhão desembarcou em Mocimboa da Praia. Três dias depois partimos em coluna e dormimos em Mueda e depois Mocimboa do Rovuma, onde chegámos a 22 de Maio de 1966. Como o meu batalhão ia numa comissão de reforço, tivemos que construir abrigos, casernas e tudo o mais que fazia falta. A trincheira e os abrigos eram à prova de morteiros, feitos de troncos grossos e terra amassada, como barro. Estávamos lá há 12 dias quando fomos atacados. Quase todas as semanas havia ataques. Na primeira saída para Mueda sofremos um morto, o 1º cabo Manuel Correia, e quatro feridos.

    Devido à minha especialidade, de cozinheiro, passava os dias quase sempre dentro do arame farpado, mas passei por grandes sustos, pois fomos atacados muitas vezes. Recordo que, em 5 de Outubro de 1966, eram 12h30, estávamos para começar a almoçar e tivemos de fugir para as trincheiras e adiar a refeição para fugir ao ataque. Deixámos de comer a esta hora.

    No dia seguinte, o nosso comandante mandou-nos fazer trincheiras e abrigos e, a partir de então, dormíamos numa casa velha, toda esburacada por balas. Assim, quando nos atacavam, entravamos logo na trincheira, que era o sítio mais seguro e então a espingarda G3 parecia uma costureira. Se o sentinela desse três tiros, toda a malta tinha que deixar a cama.

    A 9 de Março de 1967 tivemos mais dois mortos no pelotão de Sapadores. Morreram próximo de mim, na explosão de uma mina. Um deles, ainda o vi a dar o último suspiro. No dia 8 de Maio, era já noite escura quando o cabo que fazia a escala de serviço me avisou que tinha de entrar de reforço ao abrigo das palhotas. À meia-noite começou o ataque e estivemos cinco horas debaixo de fogo. De manhã havia homens com as mãos queimadas do morteiro 81 mm a disparar à volta do acampamento e só ficámos mais tranquilos com a chegada da aviação. As munições apanhavam-se aos baldes, com uma pá. Recordo também o soldado Américo Manuel Filipe, que foi mandado para uma companhia de transportes de castigo, por ter apanhado um Frango nas palhotas. Foi ferido por uma mina, ainda é vivo, mas sofre muito. Sempre foi e será para mim um bom amigo.

    TEM A VIDA CONTADA EM VERSOS

    A vida de Cid Barata Lima desde que saiu da sua aldeia, Carvalhal do Colmeal, em Góis, está escrita em verso. São mais de 200 quadras a aguardar publicação, onde relata a vivência militar, desde o dia da inspecção até ao regresso do Ultramar. "Começou por ser uma forma de ocupar o tempo, depois tornou-se um hábito", explica, adiantando que o seu recente divórcio também está escrito em verso. Depois da tropa, trabalhou como estivador no porto de Lisboa, até se reformar. Explorou, durante 22 anos, uma loja de velharias, em Alfama. Tem dois filhos, de 30 e 38 anos.

    PERFIL

    Nome: Cid Barata Lima

    Comissão: Moçambique (1966/1968)

    Força: Batalhão de Caçadores 1890

    Actualidade: Hoje, 65 anos, em Lisboa

    Cid Barata Lima, Moçambique (1966-1968)
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    Inf “Não quis reviver dor do adeus à família"

    A Minha Guerra: Último a ir para Angola


    No Piri, ao fim da tarde, junto à Casa do Administrador

    Partida. Os meus cinco camaradas gritaram de alegria por já não caberem no navio, mas eu insisti para ir. Evitei ter de me despedir duas vezes.

    Estávamos a 14 de Dezembro de 1971. O gigante dos mares ‘Vera Cruz’ foi engolindo todo o batalhão até não poder mais. Sobrámos seis criaturas desprotegidas e tristes, logo após se ter verificado a sobrelotação do barco. "Vocês já não cabem!" – gritou-nos o capitão. "Como só volta a haver transporte no dia 8 de Janeiro, ides todos passar o NAtal e o Ano Novo a casa". Gritaram de alegria os meus cinco camaradas. Eu enfrentei o capitão e disse-lhe: "Encaixe-me num buraco qualquer. Não quero voltar a reviver de novo a dilacerante dor do adeus à família". E, como estava tudo cheio, escapei à degradante 3ª classe e fui encafuado num camarote de 2ª.

    Durante a viagem houve quem chorasse desesperadamente. Eu preferi arquitectar sonhos, ao ritmo da frenética dança dos peixes voadores. Quando chegámos a Luanda, fui enviado para a povoação de Piri, no Norte, algures entre o Caxito e Quibaxe. Na manhã da partida para o mato acenámos um último adeus à belíssima capital do território e, envoltos num espesso e tórrido ar de estufa, rumámos, integrados na coluna militar, ao Norte, a Dange, a Dembos, paredes-meias com a famigerada Pedra Verde. Estrada fora, a fita negra e estreita de alcatrão, praticamente oculta pelas marés alterosas do capim que das bermas fustigava as viaturas, estendia-se à nossa frente em requebros sinuosos e difíceis de trilhar.

    Finalmente surgiu, à esquerda, na companhia de um vigoroso bananal, o "comércio" do sr. Dinis, um transmontano robusto, mas anafado, radicado em África há já alguns anos, com mulher e filhos, cujo bacalhau assado na brasa fazia as delícias de quem por ali tinha de passar e parar, em mais um compasso de espera de uma das duas colunas militares diárias, entre Carmona e São Paulo de Luanda e vice-versa. No planalto do Piri tudo é silêncio, enganador! Só o esvoaçar despreocupado de algumas centenas de pássaros negros, semelhantes a corvos, entretidos com a filharada no primeiro andar das palmeiras que ornam as margens do rio, quebra, de quando em vez, a intrigante monotonia do ambiente. Não se vêem pessoas.

    Para Sul, paredes-meias com o quartel da tropa, abriga-se a população autóctone sob a estratégica protecção do Exército. É a chamada sanzala da paz, onde não faltam as bem cultivadas lavras, a garantir ao povo os típicos alimentos de primeira necessidade. É neste ambiente sedutor, de magia indizível, mas de estranha e indisfarçável conflitualidade latente, que o Sol, de forma inapelável, vem gritar a vida todas as manhãs, por detrás do arvoredo cerrado, não tardando em dardejar quente e prateado, depressa subindo na vertical, para ser tórrido, escaldante, devorador.

    Eu pesava 52 quilos. Quando saía para o mato com o rádio às costas, um Racal TR 28 (30 quilos), a G3 e a Walter (4 quilos), o saco da tenda (5 quilos) e o saco com as rações de combate para quatro dias (12 quilos), quase que duplicava o peso. E então se chovesse ou se tivéssemos de atravessar um rio a vau, muito pior. Nas encostas e nas montanhas era empurrado pelos camaradas mais solidários. O alferes fazia vista grossa. Fomos atacados várias vezes, do lado de fora do arame farpado, sempre de noite.

    No dia seguinte podiam ver-se os cadáveres cobertos de moscas, jazendo por entre o palmeiral do lado Sul, em resultado das bazucadas com que lhes respondíamos. Não escapámos ilesos: durante o meu mês de férias, dois camaradas foram ceifados na flor da vida. Podia ter sido pior. Além de Piri, estive no Bom Jesus, em Quibaxe, no Dange (Fortim), na Matobe e na Maria Manuela. Quando terminei a comissão de serviço em Janeiro de 1974, com 23 anos de idade, iniciei um tratamento forçado contra a malária, tendo conseguido inverter o lastimável estado em que me encontrava (45 quilos), depois de sucessivos surtos a que aquela doença me sujeitou.

    Terminava assim a minha vida militar, iniciada quando fui incorporado, a 11 de Janeiro de 1971 no Regimento de Infantaria (RI) 7, em Leiria. Fiz o curso de Radiotelegrafia no Regimento de Transmissões do Porto, até 15 de Agosto de 1971; passei pelo RI4 de Faro, até 16 de Outubro, e fui mobilizado para Angola, tendo aguardado ordem de embarque no RI16 de Évora, até 30 de Novembro. Gozei 10 dias de licença com a família e, depois de alguns dias em Lisboa para vacinações e requisição de material (armamento e ‘enxoval’), eis-me no cais da Rocha do Conde de Óbidos, alinhado como se da parada se tratasse, face ao imponente ‘Vera Cruz’ para embarcar para Angola.

    UMA VIDA DEDICADA AO ENSINO

    José Manuel Bragança Esteves dos Santos, 58 anos, entregou-se aos estudos a partir da Primavera de 1975. Ao abrigo do regime militar, entre 1975e 1980 conseguiu concluir o 5.º ano dos liceus, o 7.º ano, os três anos do Magistério Primário, o ano Propedêutico e, em 1980, três anos de um Curso de Letras (Inglês-Francês) na Universidade do Porto. Após uma pausa de 10 anos, por doença, regressou à Universidade do Minho para concluir o curso de Administração Educacional, disciplina que hoje lecciona, como professor especializado. Tem três filhos, de 17, 18 e 26 anos.

    PERFIL

    Nome: José Santos

    Comissão: Angola 1971/1974

    Força: Batalhão Caçadores 3858

    Actualidade: Hoje, aos 59 anos, na Maia

    José Santos, Angola (1971-1974)
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    Inf “Fui salvo por latas cheias de munições”

    A Minha Guerra: Sorte em Angola


    A serem deixados numa zona de combate por um helicóptero Alouette

    Combates. Os confrontos eram frequentes. Num deles escapei a um tiro devido à mochila carregada. Mas também houve coisas boas.

    Nós éramos ‘Os Cagões’, assim conhecidos pelo aprumo. Cortávamos a barba todos os dias, com excepção de quando andávamos no mato. Mas quando regressávamos ao aquartelamento o capitão mandava-nos logo ‘afeitar’. Chegámos a Angola no navio ‘Vera Cruz’. Estivemos em Grafanil, Luanda, e partimos de seguida para o Alto de Quito.

    No acampamento estava quase só o meu destacamento, a companhia que geria a zona de Quibala, e o comando encontrava-se em Benguela. A minha comissão era de 14 meses mas foi prolongada, o que deu tempo para eu ser promovido de furriel a sargento miliciano.

    O objectivo da nossa companhia era evitar a introdução dos terroristas no território, através de operações de combate. E houve algumas intensas. Fomos atacados muitas vezes, logo que saíamos do acampamento, por inimigos pendurados de tal forma nas árvores que ninguém os via. A companhia registou dois mortos, vítimas de uma mina, e houve muitos feridos, alguns dos quais ficaram deficientes. Os terroristas já estavam bem equipados, com espingardas e metralhadoras, algumas que nós não possuíamos nem conhecíamos. Os seus ataques obrigaram-nos muitas vezes a recuar para a base: tínhamos tantos feridos que era impossível continuar a avançar no terreno.

    Numa altura tive muita sorte. Tínhamos arrancado com uma coluna para o mato mas a minha viatura (uma Unimog) não pegou logo. O motorista, o Matias, da Amadora, com os nervos, não conseguia pô-la a trabalhar. Por fim, seguimos com os restantes camaradas e fomos emboscados mais à frente. Houve bastantes feridos. Mais tarde ripostámos, com helicópteros e aviões, e também causámos baixas no inimigo. Neste combate fui atingido por um tiro que furou a minha mochila ao nível dos joelhos. Lá dentro levava balas enfiadas em latas. Foi a minha sorte, se me tivessem acertado ficava sem pernas. Estávamos com oito ou nove meses de comissão.

    Noutra operação, passámos um mês ser comer uma refeição quente. Alimentámo-nos apenas com rações de combate. Andávamos tão fracos que se nos baixássemos quase caíamos no chão, com falta de força. Nestas saídas mais prolongadas, íamos à procura de acampamentos de terroristas mas quase sempre, quando os descobríamos, já lá não estava ninguém. Só numa altura fizemos um prisioneiro, levado de helicóptero para Luanda para nos dar informações.

    Entretanto, a nossa comissão tinha terminado, mas ainda tivemos de ficar algum tempo. Recebi uma mensagem urgente para nos prepararmos para uma saída para o mato, na zona do Luso. Quase me acontecia uma tragédia. O meu motorista pisou uma mina, que saltou mas não explodiu. Atrás de nós seguia a polícia, que a sinalizou, e eu voltei atrás para a apanhar. Tive pena de um rapaz que estava na polícia naquela zona, que fora meu cabo em Castelo Branco, porque dias mais tarde soube que os terroristas o tinham matado e a outro camarada.

    Nesta altura não estivemos envolvidos em grandes confrontos e até nos pediram para transportar uma negra grávida. Foi curioso. Levámo-la numa Unimog quando começou a ter dores e o Lemos fez-lhe o parto ali mesmo, com um saquito de primeiros-socorros. Montámos segurança na zona e a mulher e a criança ficaram bem. Portanto, na guerra nem tudo foram coisas más. Também houve algumas boas. Por exemplo, criámos equipas de futebol e consegui montar uma sala que serviu de escola, onde ensinei muita gente a ler e a fazer a antiga 4ª classe. Outros conseguiram ali a carta de condução de veículos ligeiros e pesados.

    Eu também formei jovens de lá e terroristas, que se entregaram e passaram a colaborar connosco. Tínhamos uma carreira de tiro pequena para os treinar e eu tinha de confiar neles, porque depois íamos juntos para o mato. Como os tratava bem, alguns ficavam meus amigos.

    Antes, quando estive no acampamento, adoptei um menino indígena que morava perto sem quaisquer condições. Fugia dos brancos, mas vendo-me vinha logo a correr para mim. Comia ao meu lado na messe e quando vim de férias levei-lhe muita roupa, de uma sobrinha da altura dele. Enquanto esteve comigo passou sempre bem. Tenho saudade daqueles tempos, não da guerra mas da camaradagem, da família em ponto grande que éramos. O meu regresso à Metrópole foi de novo no ‘Vera Cruz’ e não fiquei a dever nada à minha consciência por ter feito mal a alguém.

    DIAS PASSADOS NA TIPOGRAFIA

    José Guedes era tipógrafo antes de ir para o Exército, seguindo as pisadas dos irmãos mais velhos. Depois do regresso da comissão, voltou a juntar-se aos irmãos na Tipografia Beira Serra. Só recentemente se reformou, não deixando, ainda assim, de passar os dias na tipografia.

    José Guedes casou, meio ano depois de regressar de Angola, com Fátima Guedes, natural do concelho do Sabugal, com quem teve duas filhas, hoje com 36 e 37 anos, ambas professoras do 2.º ciclo. Abastado em netos, já conta cinco, o mais novo com dois anos e o mais velho com 11.

    PERFIL

    Nome: José Guedes Ribeiro

    Comissão: Angola (1967/1970)

    Força: Batalhão de Cavalaria 1928

    Actualidade: Hoje, 65 anos, na Guarda.

    José Guedes Ribeiro, Angola (1967-1970)
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    Inf "Senti um horrível medo de morrer"

    A Minha Guerra: Emboscada em Angola


    Durante uma paragem numa picada a meio de uma das muitas missões

    Missão. a primeira vez foi muito marcante, pois não tinha qualquer experiência de combate, à semelhança de muitos dos meus camaradas.

    Eu nasci em Nova Lisboa (hoje Huambo) e foi aqui que ingressei no serviço militar, a 11 de Março de 1965, tinha 21 anos. A recruta, que terminou a 10 de Julho de 1965, foram quatro longos meses, de grande esforço físico e mental, durante a qual tirei a especialidade de condutor. De seguida, fui destacado para Silva Porto, de onde, após oito dias à espera, segui para Luanda. Fui integrado no Esquadrão de Cavalaria ‘Os Dragões’ e tirei a especialidade de condutor de carros de combate AM Panhard – viaturas blindadas. Quando integrei o esquadrão fiquei com muita curiosidade em saber como era a vida na Metrópole, que não conhecia, porque os meus camaradas recém-chegados me diziam bem.

    A minha principal função era proteger os veículos civis e militares que transportavam os mantimentos para as nossas tropas estacionadas em zonas de combate. Nesta altura, já tinha o posto de 1º cabo condutor. A primeira missão que fiz foi entre Zala e Nambuangongo. Quando se faz uma coisa inédita a nível pessoal é sempre especial. Foi marcante, pois não tinha qualquer experiência de combate, à semelhança de muitos dos meus camaradas que seguiam na coluna.

    Foi nessa missão que senti o verdadeiro medo: um horrível medo de morrer. Cada missão por terras desconhecidas foi um verdadeiro tormento. Sofremos uma emboscada, durante uma deslocação em que tínhamos como objectivo proteger os mantimentos. A coluna onde seguíamos foi atacada e fizemos todo o trajecto debaixo de intenso fogo do inimigo. Era tiros a rebentar por todo o lado. Pensei que não ia sobreviver, mas estávamos preparados para o pior. O combate provocou feridos em ambos os lados. Foi uma experiência que me marcou e ficou bem gravada na minha memória: ainda hoje a recordo com nervosismo.

    Outra situação que me marcou bastante foi a morte de um camarada, durante uma das nossas deslocações para levar comida e medicamentos aos nossos militares. Um dos jipes passou por cima de uma mina que rebentou com grande violência. Na explosão faleceu o camarada que ia a conduzir um jipe que se encontrava na frente da coluna. Foi uma morte horrível que nos deixou a todos apreensivos e com raiva. Todo o esquadrão ficou marcado com esta morte. Éramos um grupo de homens unidos pela coragem e pela vontade de sobreviver.

    Como não andava na frente de combate, não assisti a muitas mortes, mas os relatos que ouvia eram assustadores. Por mais que se tente negar, cada militar tinha receio de ser a próxima vítima e era cuidadoso a abordar as missões que lhes eram confiadas. Lembro-me que uma vez um superior pediu voluntários para fazer um patrulhamento a pé e ninguém se ofereceu. Perante o silêncio, fomos todos, mas contrariados.

    O tempo passado no mato, onde travámos combates com o inimigo, comíamos e dormíamos, era fecundo em acidentes, mas, felizmente, também em peripécias que nos ajudavam a passar os dias longe da família. Ríamos em vez de chorar. A verdade é que, como outras centenas de milhares de portugueses, também fiz parte da história do nosso País – de uma forma muito pequenina, mas importante na altura, quando era preciso defender a honra de ser português.

    Nessa fase da minha vida conheci muitos camaradas, mas o tempo foi passando e os nomes foram-se apagando da minha memória, infelizmente. Nunca mais voltei a falar com alguém que tivesse pertencido ao meu pelotão.

    As poucas fotografias e as grandes peripécias dos dias de guerra são a lembrança que guardo daquele tempo que nunca mais se apagou da minha memória. A guerra não é boa, mas dela também se consegue tirar o melhor dos homens. Mesmo perante a tensão, o ódio, o perigo, o medo e outros sentimentos vividos nos dias lá passados, também existiu muita camaradagem, amizade e alguns bons momentos que nunca esqueci, nem esquecerei. Houve dias bons e outros maus, mas em todos aprendi alguma coisa que me ajudou ao longo de toda a vida e contribuiu para a formação da pessoa que sou hoje.

    Passei a disponibilidade a 7 de Agosto de 1968 tendo regressando a Gabela, cidade onde viviam os meus pais. Continuei em Angola até ao dia 26 de Agosto de 1975, altura em que fui forçado a vir para Portugal, devido às mudanças no Governo e no sentimento dos indígenas: nós, os portugueses, deixámos de ser Bem-vindos em Angola. Eu e a minha família partimos, e deixámos para sempre a minha terra-natal, onde nunca mais voltei.

    VIDA PASSADA NAS OFICINAS

    Horácio Moreno nasceu em Angola, de onde saiu em 1975. Até ingressar no serviço militar foi bate-chapas, mas "as vicissitudes da vida" levaram-no a desempenhar outras profissões. Quando veio para a Metrópole continuou a trabalhar como bate-chapas, mas depois foi serralheiro-mecânico na refinaria de Sines.

    Após cumprir o serviço militar casou e teve quatro filhos – dois rapazes e duas raparigas. Os três mais velhos são casados e o mais novo ainda vive com o casal. Horácio Moreno reside em Vila Nova de Santo André e está reformado por invalidez há três anos.

    PERFIL

    Nome: Horácio Nunes Moreno

    Comissão: Angola (1965/1968)

    Força: Grupo de Cavalaria 401

    Actualidade: Hoje, aos 65 anos, em Santiago do Cacém

    Horácio Nunes Moreno, Angola (1965-1968)
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    Inf "Zeca Afonso acabou com programa de rádio"

    A Minha Guerra: Combatente radialista


    Numa viatura usada nas acções de fiscalização

    Chegada. Começámos logo mal porque o pequeno-almoço atrasou. Fomos castigados. Estive numa emissora regional e fiz o baptismo de voo.

    O primeiro dia no Campo Militar de Grafanil, para onde foi o Batalhão de Caçadores 2911, começou logo mal. O pequeno-almoço atrasou e, quando o comandante chegou, a formatura não estava pronta para a apresentação. Foi um pé-de-vento enorme. Ficámos duas horas formados ao sol e vários militares desmaiaram. Foi o nosso baptismo. E ainda ficámos proibidos de sair. O nosso comandante, Paços Esmariz, era bom, mas passava-se de vez em quando.

    Em 17 de Maio de 1970 arrancámos para a nossa zona de acção: Henrique Carvalho, uma capital do distrito de Lunda. Demorámos dois dias a fazer 1200 quilómetros. Quando chegámos só havia uma estrada alcatroada, mas tinha uma pista de aviação descomunal, com quatro quilómetros. Quando viemos embora, em 1972, já as ruas estavam todas alcatroadas. Eu desempenhava a função de oficial de serviço de material e tinha como missão verificar se estava tudo a correr bem com a manutenção das viaturas.

    Foi numa dessas saídas que fiz o meu baptismo de voo, num avião Cessna. Foi muito engraçado, mas estava cheio de medo. Ia sozinho com o piloto, que, tal como eu, não falava muito. Então, para desanuviar o ambiente, eu disse: "Estamos a seguir um rumo certinho?" Ele perguntou-me porque estava a dizer aquilo, ao que eu respondi: "Porque a bússola não se mexe." Então, ele retorquiu: "A bússola está avariada, mas não se preocupe que eu conheço o caminho."

    Apanhámos uma enorme trovoada, mas ele voltou a descansar-me dizendo que havia uma gaiola de Faraday. Entrámos lá dentro, apanhámos pancada de todos os lados, mas saímos bem. Antes de aterrar, o avião deu duas voltas e começou a baixar. Mas eu não via a pista e conclui que estivesse avariado. Só depois percebi que a pista era um caminho. Apanhei tudo o que era mau, mas foi uma experiência única.

    Uma das inspecções que fiz foi em Camaxil, uma zona de muito paludismo. Quando chovia transformava-se numa ilha. Por precaução, o meu comandante até colocou aí um médico em permanência. A pista ficava a sete quilómetros, percurso que demorava três horas a fazer quando chovia. Levei um cabo – Mateus Baptista – que era um bom profissional para me ajudar na inspecção. Mas durante o percurso apanhou a doença. Ao chegar ao quartel já estava doente e ficou quatro dias de cama. Não me ajudou em nada.

    Durante a minha permanência em Lunda também fiz rádio numa emissora regional da Rádio Oficial de Angola. Eu, o alferes Amaral e o furriel Valente fazíamos um programa duas vezes por semana. Chamava-se ‘Mosaico’. O nome foi escolhido pelo comandante. Passávamos música e fazíamos artigos sobre cinema e música. Os discos eram emprestados por militares ou por uma loja que vendia um pouco de tudo.

    Entre outras, passávamos música de Zeca Afonso. Nunca ninguém nos disse que era proibido. Mas, passado um tempo, apareceu lá um fulano que exigiu ver os artigos que tínhamos para ler no programa. Começou a fazer emendas, mas dava mais erros gramaticais do que nós. Quando começou o programa só pusemos música. Não lemos os artigos e no final anunciámos que tinha sido o último programa. Ele não disse nada, mas todos sabíamos que tinha ido até ali por causa do Zeca Afonso.

    Outra situação que me marcou aconteceu praticamente no final da comissão, quando ocorreu um acidente com uma viatura Berlier entre Nova Chaves e Muriege. O condutor seguia com mais três pessoas e, quando saiu do quartel, anunciou que ia bater um recorde, mas não conseguiu. Numa picada embateu numa árvore e teve de parar. Para os socorrer, saímos às 05h00 e fizemos 150 quilómetros tudo por picada. Acabámos por ter de passar lá a noite. Para fazer a segurança tínhamos os Cipaios. De manhã perguntámos se tinha corrido tudo bem. Eles responderam afirmativamente. Apenas que tinha andado por ali um leão. Felizmente estávamos todos a dormir e não nos apercebemos do animal, mas de facto lá estavam as pegadas.

    Numa outra inspecção, em Cacolo, foi-me oferecida a oportunidade de me dedicar ao negócio dos diamantes, mas recusei. Estava lá uma companhia de indígenas e colocaram-me num quarto na pseudomesse. No dia seguinte, quando um deles me foi acordar, levava um frasco cheio de diamantes e perguntou-me se queria comprar. O nosso batalhão, apesar de estar em zonas de combate difíceis, só teve um morto.

    DEDICOU-SE À VIDA MILITAR

    Carlos Manuel Jales Ferreira Pimentel estava no 3.º ano do curso de Engenharia Electrotécnica, na Universidade de Coimbra, quando foi para Angola. De regresso a Coimbra ainda fez mais duas cadeiras, mas pediu o reingresso no serviço militar. Esteve um ano na Escola Prática de Serviços de Transporte na Figueira da Foz e depois foi para o Regimento de Serviço de Saúde. A partir daí dividiu a sua carreira entre Coimbra e Figueira da Foz, tendo feito dois deslocamentos em Penafiel (1986-88) e no quartel general em Lisboa (1996-98). Em 2004 passou à reserva.

    PERFIL

    Nome: Carlos Pimentel

    Comissão: Angola (1970/1972)

    Força: Batalhão de Caçadores 2911

    Actualidade: Hoje, aos 64 anos, na Figueira da Foz

    Carlos Pimentel, Angola (1970-1972)
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  14. #29
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    Inf “Ataque fez oito baixas no pelotão”

    A Minha Guerra: Emboscada em Angola


    Pelas densas matas de Angola, por picadas quase intransponíveis

    O pior. No combate dois dos camaradas nem conseguiram sair da viatura. Os restantes responderam ao inimigo e causaram-lhes várias baixas.

    No período em que estivemos em Úcua, na zona de Dembos, fez-se uma grande operação, denominada ‘Quissonde’, comandada pelo coronel Alves Pereira, conhecido pelo ‘Totobola’. Demorou bastantes meses. O objectivo era abrir uma picada até ao rio Dange, que separava Úcua de Nambuagongo e Quicabo, uma zona muito difícil. A picada, feita pela nossa Engenharia, ia passar por um quartel dos turras, que constantemente flagelavam os nossos camaradas. Uma companhia sofreu um ferido grave, que ficou numa cadeira de rodas. Nos Fuzileiros também se registaram baixas.

    O primeiro ataque ao nosso aquartelamento aconteceu três semanas após termos chegado a Úcua. O nosso grupo de combate foi destacado para uma patrulha de três dias, com destino até junto do rio Zenza, na zona oposta ao rio Dange. Ao fim de dois dias, fizemos o regresso e ficámos a poucos quilómetros de Úcua para dormir, no meio de uma plantação de sisal, cujo dono era o Sr. Acácio. Pelas 03h00 ouviu-se um tiro de pistola e, logo de seguida, desencadeou-se um forte tiroteio. Nós, da zona plana onde nos encontrávamos, assistimos ao tiroteio: víamos as chamas a sair dos canos das armas e até por cima de nós passavam pequenas rajadas de pistola metralhadora. Eles tinham-nos visto chegar e o ataque durou até às 05h30.

    De manhã cedo, já tudo estava sereno e chegámos ao aquartelamento, que se encontrava em grande alvoroço. Aqui deram-nos a triste notícia de que tinha havido uma baixa: a primeira em combate e só tinham passado três semanas. Um dos dias mais tristes para todos nós foi quando recebi um telefonema do alferes comandante do nosso grupo de combate, a dizer: "Oliveira, prepare rapidamente o grupo de combate - nós que tínhamos regressado de uma MUL (conjunto de viaturas civis de transporte de mantimentos) nem há uma hora e tínhamos acabado de tomar banho -, porque a coluna diária da Companhia de Artilharia (Cart) 1469, sediada em Piri, está a ser atacada". Eram 17h00 e o dia escurecia uma hora depois.

    O nosso comandante, tenente-coronel José Pires acompanhou-nos numa viatura Unimog - a que eu comandava e que transportava a metralhadora pesada Breda. Era um grande comandante, um grande homem, apesar de só ter 1,62 metros de altura. Quando passámos na zona onde se deu a emboscada, só vimos uma Unimog 204 a arder. Era a viatura que transportava o rádio e tinha sido atingida com uma bazucada. O socorro só foi pedido devido uma viatura Scania que conseguiu passar o forte tiroteio e, já com a parte traseira em cima das jantes, alertar para o que estava a acontecer em Piri.

    Quando chegámos, pelas 19h00, e falámos com os camaradas, no comando, encontrei-me com o furriel encarnação e perguntei-lhe quantas baixas havia e ele respondeu-me: "Oito baixas confirmadas e sete feridos, alguns com gravidade, a precisarem de ir para Luanda". Entre as vítimas que foram para o hospital nenhuma morreu. Perguntei-lhe também quem era o alferes que comandava a coluna, ele disse-me o nome e respondeu: "Viste a Unimog a arder?". Disse que sim. "Ele e mais o condutor estão lá dentro". Só no dia seguinte é que foram retirados.

    Ainda em relação a esta emboscada, recordo duas situações que demonstram o grande espírito de entreajuda e valentia dos nossos militares. Quando o grupo de combate saiu em socorro dos camaradas que estavam a ser atacados, antes do local da emboscada, numa curva em cotovelo, encontrava-se uma força inimiga que, para evitar que a nossa chegada fosse rápida, se empenhou num forte tiroteio. Só a pronta acção de coragem demonstrada pela coluna o evitou. Além de outros, destaco a do furriel Pinto de Lima, que, debaixo de fogo, levantou-se e com a arma ao quadril foi disparando contra o inimigo. Assim, arrastou outros que conseguiram desbaratar a resistência.

    No segundo caso, já no local da emboscada, um soldado com dois tiros numa perna conseguiu arrastar-se para debaixo de uma viatura Mercedes (foram emboscados dois carros com um total de 17 soldados). Quando já esperava o pior, ouviram-se vozes do lado inimigo, que pensava não haver sobreviventes. "Vai lá abaixo buscar as armas", disse uma, ao que outra respondeu: "Vai lá tu". Passado um bocado, desceram às estrada dois inimigos, um armado com uma espingarda Simonov e o outro desarmado. Na altura certa, o nosso camarada deu um tiro no peito do primeiro e atingiu o outro, quando se virou, matando-o também.

    CUIDAR DOS EX-COMBATENTES

    Vítor Manuel Valente de Oliveira nasceu a 9 de Setembro de 1943 e é natural de Póvoa de Santa Iria. Depois da comissão de 26 meses em Angola, regressou à Metrópole - como furriel miliciano sapador de Infantaria - e casou em 1970. É técnico de desenho industrial, reformado desde 2001, tendo trabalhado na Mague.

    Tem dois filhos, de 36 e 38 anos e três netos, dois gémeos de oito anos e um de cinco. Com o seu testemunho quer chamar "a atenção dos responsáveis para cuidarem" dos ex-combatentes que "hoje estão gravemente doentes física e psicologicamente".

    PERFIL

    Nome: Vítor Oliveira

    Comissão: Angola (1965/1968)

    Força: Batalhão de Artilharia 1869

    Actualidade: Hoje, aos 66 anos, em Póvoa de Santa Iria

    Vítor Oliveira, Angola (1965-1968)
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    Inf "Tivemos de almoçar com quem nos atacou"

    A Minha Guerra: Independência de Angola


    Num jipe do Regimento Militar de Angola (RMA), a descansar à sobra de árvores, próximo de uma aldeia que se vê ao fundo

    Entrega. Estive no quadrado da morte, mas acabei por viver dias piores em Luanda. Custou-me ter de entregar quartéis e material ao inimigo.


    A minha Companhia, formada por 135 homens, rumou a Angola num avião militar. O voo até Luanda demorou 14 horas. Fomos para Grafanil e seguimos depois de comboio até Teixeira de Sousa. Foram dois dias e duas noites de aventura, percorrendo centenas de quilómetros e alimentados a rações de combate, com medo que a composição fosse atacada. Mas não houve incidentes.

    De Teixeira de Sousa rumámos em coluna militar até Cazombo, no Leste de Angola, onde estava estacionado o batalhão de que íamos depender. Depois fomos para Caianda, substituir uma companhia que regressou à Metrópole. Caianda faz fronteira com a Zâmbia e era uma zona de infiltração da FNLA. Era o chamado quadrado da morte. Estávamos a 650 quilómetros de Moçambique, 300 de Cazombo e a três mil de Luanda.

    Sempre nos disseram que íamos ser dizimados. O território é uma grande planície, a perder de vista, com mato muito alto. Víamos quando os turras se aproximavam pelo mexer da vegetação. Às vezes queimávamos tudo para conseguir ter um melhor campo de visão. Noutras ocasiões fazíamos disparos de morteiros para eles terem noção da nossa presença.

    As instalações eram parcas. Encontrámos uma cozinha onde só existia massa, arroz, salsichas enlatadas e chouriço em óleo. As refeições foram, durante alguns dias, massa com chouriço ao almoço e arroz com salsichas ao jantar. Os abastecimentos faziam-se de três em três meses. Os frescos chegavam semanalmente.

    Ainda mal conhecíamos o território quando fizemos a primeira saída para o mato, tinham passado apenas 14 dias da nossa instalação. Eu era furriel miliciano, mas em Angola desempenhei as funções de 2º sargento. Sofremos uma emboscada, a 40 quilómetros do aquartelamento. Houve tiroteio e foi o salve-se quem puder. Felizmente não se registaram mortos, nem feridos. Mas como abandonámos as viaturas Unimog e Berlier, os terroristas ainda conseguiram levar algumas espingardas G3 e rádios Racal.

    Depois desta emboscada optámos por uma abordagem diferente à população. Proporcionámos-lhe uma vida diferente da que estava habituada. Fornecíamos-lhe alimentos e água potável. Éramos verdadeiros assistentes sociais. Mimos não lhe faltou e foi remédio santo. Nunca mais tivemos problemas quando saíamos para o mato. A ligação à população foi boa e até nos convidava para os seus rituais.

    Após um ano de estada, chegou a notícia da futura independência de Angola. Tivemos de promover um encontro com um grupo de guerrilheiros, chefiado pelo temível ‘Tigre’, comandante da guerrilha do Leste, com quem íamos negociar a cedência das nossas instalações. Tentámos não criar dificuldades, mas eles chegaram ao aquartelamento armados até aos dentes. Lá os conseguimos convencer a depositar o material e a juntarem-se connosco à mesa para um almoço.

    Foi preciso muita cabeça fria e sentido de autocontrolo. Disseram-nos que tinha sido aquele grupo a emboscar-nos quando saímos a primeira vez para o mato. A revolta entre os meus militares foi enorme e não fosse a intervenção do comandante da companhia podia ter acontecido uma tragédia. O pessoal só pensava em carregar os canhões e os morteiros e dar cabo deles.

    Passadas umas semanas, deixámos o aquartelamento. Carregámos o material de guerra mas deixámos ficar muitas coisas. Éramos para levar as camaratas, mas deixámo-las para a população, que nos as pediu. Regressámos ao aquartelamento do batalhão, em Cazombo. A partir daí começamos a desactivar os aquartelamentos; no Luso, em Henrique Carvalho, em Salazar, Nova Lisboa. Terras maravilhosas das quais tenho saudades.

    Chegámos a Luanda com uma coluna de 200 a 300 viaturas, carregadas de material militar, depois distribuído em Grafanil ao MPLA. Até fiquei chateado, porque andei a fazer os inventários e depois levaram tudo sem qualquer ordem. Em Luanda estávamos no RI21, fazíamos patrulhamentos integrados com os guerrilheiros. Um dia houve um problema, em Vila Alice, onde havia confrontos entre forças rivais. Registaram-se tiroteios e a população portuguesa começou a fugir. A nossa tropa teve de intervir para retirar os portugueses e Vila Alice ficou quase destruída. Foram mais difíceis os meses finais em Luanda do que o tempo que passámos no mato.

    A companhia regressou à Metrópole, no navio ‘Niassa’, mas eu fui mobilizado para os inventários do material de guerra. Voltei mais tarde, após muita confusão e perigo, num DC10, da Swiss Air, que transportava retornados.

    UM EMPREGO PARA TODA A VIDA

    João Simões foi mobilizado com 22 anos. Trabalhava na antiga Caixa de Previdência de Viseu. Já namorava quando partiu. A distância não o fez esquecer a mulher da sua vida, com quem viria a casar depois do regresso de Angola. Voltou para o antigo emprego, onde ainda trabalha, mas agora integrado no Agrupamento de Saúde de Viseu.

    Do casamento com Maria Teresa Simões, professora já aposentada, teve três filhos: Pedro, de 32 anos, funcionário público no Centro de Saúde de Tondela, Rui, de 31, advogado, e Jorge, de 18 anos, ainda a estudar. Já tem um neto.

    PERFIL

    Nome: João Simões

    Comissão: Angola (1974/1975)

    Força: Companhia de Caçadores 5044

    Actualidade: Hoje, 57 anos, em Viseu

    João Simões, Angola (1974-1975)
    A lua hoje

    ..::Caça & Pesca::..


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    Cumprimentos
    jcodigo

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