A Minha Guerra: Missão em Moçambique

Silva segue com o seu grupo para combate ao lado do furriel Morais [em primeiro plano].
Na recruta, chumbou no exame de condução, mas conseguiu vingar nos comandos. Não estava era preparado para encarar com um guerrilheiro.
Regressei sem mazelas – mas tive muita sorte porque ainda cheguei a ver a luz branca ao fundo do túnel. Só não morri porque a arma do inimigo encravou. Já na fase final da minha comissão, fomos a um aldeamento em Vila Coutinho. Deixámos comida para um velhote e ao atravessar um rio ficámos debaixo de fogo. Os tiroteios, ao contrário do que muitos camaradas dizem, nunca duravam muito tempo: apenas uns escassos minutos.
Quando havia fogo deitávamo-nos no chão em defesa e imediatamente preparávamos o ataque. Bastava um gritar ‘Vamos a eles’ que nós avançávamos a correr em direcção ao inimigo. Mas dessa vez vi um guerrilheiro a um ou dois metros a apontar-me a arma. Não estava preparado para esse encontro. A minha arma encravou quando vou para disparar e a dele também. Deitei-me no chão e atirei uma granada para cima do inimigo. Ela rebentou, fui ao local mas não havia lá ninguém.
Assentei praça em 26 de Janeiro de 1970, no Centro de Instrução de Condução Auto (CICA) do Regimento de Infantaria 8, em Elvas. Fiz a recruta e chumbei no exame de condução. Ao fim de dois ou três meses, fui fazer nova recruta no Batalhão de Caçadores nº 8, na mesma cidade. O aspirante engraçou comigo e nesse período, cerca de dois meses, fazia apenas ginástica e saltos de viatura em andamento. Nunca cheguei a ir para as semanas de campo.
No final da recruta surgiu a oportunidade de me inscrever nos Comandos e lá fui para Lamego, no dia 29 de Junho de 1970, formar um batalhão, que embarcou para um curso em Angola a 25 de Julho desse mesmo ano. Não me esqueço desta data, porque o Salazar morreu dois dias depois e no navio ‘Vera Cruz’ foi posta a bandeira a meia-haste no dia 27. Quando cheguei a Angola, no dia 4 de Agosto de 1970, saímos do barco e fomos para o Grafanil, em Luanda. Em poucas horas, levámos uma série de injecções e fomos sujeitos a uma bateria de exames.
Poucos dias depois partíamos para Belo Horizonte e iniciámos o curso de Comandos, que durou cerca de três meses e meio. Foi aí que tivemos o primeiro contacto com um cenário de guerra. Abalei de Angola no dia 4 de Dezembro de 1970 e fui para Moçambique, integrando a mesma companhia de Comandos, onde me instalei em Montepuez. Era uma zona pacífica, nunca tivemos problemas.
A primeira operação foi em Cabo Delgado, precisamente em Antadora. Os guerreiros da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) atacaram a companhia. Um dos nossos camaradas ficou ferido e teve de ser evacuado, posteriormente, para Lisboa.
Como em todas as companhias de Comandos, havia cinco grupos, todos chefiados pelo capitão Baptista Morais, hoje coronel na reforma. Cada grupo era formado por cinco equipas de cinco homens. Cada equipa era depois comandada por um furriel.
Ao fim de dois meses em combate, tínhamos direito a um mês de descanso na Ilha de Moçambique. Fazíamos limpezas e zelávamos pela segurança da Fortaleza de São Sebastião. Mas também íamos à praia e comíamos bom camarão, todo ele dado aos militares.
Mas houve uma vez, em Junho de 1971, que fomos chamados ao fim de três dias de descanso. Havia duas companhias pára-quedistas que estavam encurraladas num vale em Nangololo, uma zona de muita guerra. A guerrilha da Frelimo estava a cercá-los e bombardeava a zona para não os deixar sair. A nossa companhia tinha por missão tirar de lá os nossos camaradas, e conseguimos. Circulámos os morros, fizemos um cerco aos guerrilheiros e obrigámos o inimigo a fugir.
A minha companhia regressou a Portugal de avião sem uma única baixa em combate. Apenas faleceu um soldado, vítima de um acidente quando manuseava uma granada dentro da caserna em Montepuez, Moçambique. Além desta morte, causou ainda vários ferimentos a um outro camarada que ficou sem uma vista e um braço. Estava por perto e ouvi o estrondo. Acorri ao local mas já não havia nada a fazer.
O meu último dia de tropa foi a 7 de Dezembro de 1972. Regressei a Évora e tentei ingressar na Polícia e nos Correios. Surgiu a oportunidade nesta última empresa e por lá fiquei até me reformar. Nunca tivera problemas relacionados com o ‘stress’ de guerra até agora. A minha mulher diz que sonho com o conflito armado. Certo é que agora, de duas em duas horas, estou a acordar durante a noite. Dantes isso não acontecia. Aos meus camaradas, ‘MAMA SUME!’.
VIDA DEDICADA AOS COMANDOS
Quando acabou a comissão em Moçambique, Manuel da Silva casou com a sua namorada, Ermelinda Pássaro, com quem teve três filhos. Hoje já é avô de seis netos. Viveu sempre em Évora e trabalhou nos Correios até se reformar, há seis anos. Apesar da dedicação ao trabalho, Manuel nunca deixou de participar nas actividades dos Comandos. A sua paixão por esta tropa de elite levou-o a fundar a Associação de Comandos de Évora. Hoje tem 80 associados e um programa anual de encontros-convívio e provas piscatórias. Manuel está agora a de-senvolver uma biblioteca na sede.
PERFIL
Nome: Manuel Joaquim Ourives da Silva
Comissões: Moçambique (1970/72)
Força: 29.ª Companhia de Comandos
Actualidade: Tem 60 anos e reside em Évora
Manuel Joaquim Ourives da Silva, Moçambique (1970-1972)