A Minha Guerra

No Destacamento do Cheche, na distribuição do correio: os famosos aerogramas, que traziam notícias de familiares e amigos
O dia mais marcante foi quando assisti ao rebentamento de uma mina que tirou a vida ao senhor major de engenharia pedra e a dois furriéis
Concluído, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, no 1º trimestre de 1967, o Curso de Oficiais Milicianos, e após ministrar uma recruta no Regimento de Infantaria de Viseu ( RI 14), fui mobilizado, em Junho desse ano, para uma comissão de serviço na Guiné-Bissau, em rendição individual. Nos primeiros dias de Agosto, embarquei no navio ‘Alfredo da Silva’.
À chegada, tinha à espera um representante da Companhia Geral de Adidos, posteriormente Depósito Geral de Adidos, que me conduziu ao respectivo Aquartelamento, localizado em Brá. Fui substituir um Alferes Miliciano, de Coimbra, que, quando regressou à Metrópole, desempenhava as funções de Oficial de Justiça. Embora fosse de Infantaria e não tivesse qualquer formação académica em Direito, julgo que, com trabalho e muitas trocas de impressões com camaradas, desempenhei, durante três meses, com rigor e competência as funções.
Neste período, a adaptação foi relativamente fácil, pois, apesar das agruras do clima e da ausência dos entes queridos, as privações eram quase nulas. Chamo a esse período "a guerra da caneta". Como não foi possível a minha permanência definitiva em Bissau, em Dezembro de 1967 fui colocado na CCAÇ 5 (Companhia de Caçadores 5), uma Unidade constituída, essencialmente, por africanos. Embora houvesse tabancas, feitas de madeira e capim, as instalações eram subterrâneas (os chamados abrigos), cavadas no solo e com cobertura à base de troncos de madeira. Vivia-se em estado permanente de alerta, pois, quase diariamente, o sítio era fustigado com tiros de morteiro, provenientes da margem esquerda do rio Corubal.
PALCO DE GUERRA
Felizmente, o rio, em frente ao Destacamento, era largo, pelo que os ataques redundaram em fracasso. As missões militares, incumbidas ao Destacamento, além de patrulhamentos na zona, limitavam-se a patrulhar e a "picar" a estrada em terra até Canjadude, no sentido de detectar minas anticarro, aquando das colunas de reabastecimento ao Cheche e/ou a Madina do Boé, e a participar, como reforço, nas deslocações a este último Aquartelamento.
Após ter cumprido uma comissão de serviço, no mato, de mais ou menos 13 meses, repartida pelo Cheche (mais ou menos 11 meses) e por Canjadude (o restante), voltei a Bissau, novamente ao Depósito Geral de Adidos, como responsável pela organização de transportes de regresso dos militares às respectivas Unidades.
Embora não consiga precisar a data, o dia mais marcante, durante a permanência no teatro de guerra, foi quando assisti ao rebentamento de uma mina anticarro, que tirou a vida ao sr. Major de Engenharia Pedra (Oficial de Carreira) e a dois Furriéis Milicianos, também de Engenharia, que se deslocavam ao Cheche, já em fim de comissão, para estudar a possibilidade de uma alternativa à jangada de madeira na travessia do rio Corubal.
Embora ainda tivessem sido transportados com vida, mas muito maltratados, acabaram por falecer a bordo do helicóptero, a caminho do hospital. Um dos furriéis, com as duas pernas quase desfeitas, enquanto lhe prestava, juntamente com o enfermeiro, apoio, virou-se para mim e suplicou: "Estás a ver o estado em que me encontro! Se és meu amigo peço-te que utilizes a tua arma e ponhas fim a este sofrimento." Com o coração desfeito e banhado em lágrimas, tentei confortá-lo e incutir-lhe esperança. Não foi nada fácil.
Regressei à Metrópole, a bordo do navio ‘Uíge’, no início de Setembro de 1969. Cumpri uma comissão de serviço de 25 meses.
PERFIL
Nome: Armando de Oliveira Alves
Comissão: Guiné-Bissau (1967/69)
Força: Companhia de Caçadores nº 5
Actualidade: Reformado da Banca, em 2006, com a categoria profissional de Director. Tem dois filhos, ambos a residir no Brasil, e uma neta
Por: Armando de Oliveira Alves, Guiné-Bissau (1967-1969)