O presidente Obama voltou a autorizar o Estado a financiar a investigação em células estaminais embrionárias, invocando o seu potencial para ajudar a tratar doenças graves. E reacendeu uma polémica calada por Bush.

Lembrando o actor Christopher Reeve - paraplégico após uma queda de cavalo e defensor da investigação em células estaminais -, Barack Obama fez questão de dizer ontem que o levantamento das restrições impostas pelo antecessor era a prova do desejo de romper com Bush no domínio científico (e noutros) e de proteger a ciência das interferências ideológicas.

Promessa eleitoral de Obama, a nova medida permitirá aos cientistas, até agora dependentes de financiamento privado, candidatarem-se a fundos públicos, tal como o fazem para estudos de terapia genética ou outras áreas de investigação.

Recorde-se que as células estaminais embrionárias estão na origem de todas as outras células e têm, potencialmente, a capacidade de vir a substituir qualquer célula doente ou danificada do corpo humano e permitir regenerar qualquer tipo de tecido ou órgão. O tratamento de lesões medulares que causem paralisia é uma das aplicações mais importantes esperadas da investigação com células estaminais embrionárias, também promissora no campo da diabetes, da doença de Parkinson ou de problemas do coração. O problema é que implicam a destruição de embriões humanos viáveis (excedentários dos centros de procriação medicamente assistida) nos primeiros dias de desenvolvimento, para deles extrair aquelas células. E se a decisão de financiar a pesquisa agradou à comunidade científica, num país onde o debate bioético é intenso, veio abalar todos aqueles para quem a vida começa na concepção. Para muitos, é homicídio. Como alega o Family Research Council, "não é ético usar a vida humana, mesmo vida embrionária, para avanço da ciência".

A promessa de Obama, contudo, é a de que não serão tolerados abusos. "Trataremos de garantir que o governo nunca abrirá a porta à clonagem como método de reprodução humana. É perigoso, profundamente errado e não tem lugar nesta sociedade, nem em nenhuma sociedade", disse o líder dos EUA. O decreto ontem assinado, adiantou, "trata de garantir que dados científicos nunca sejam distorcidos ou ocultados para servirem objectivos políticos".

A medida, acredita o cientista português Rui Reis, deverá implementar a actividade científica nesta área. A proibição nos EUA, garante o presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular, "criou um atraso com implicações no mundo inteiro". Até porque só era possível usar linhas de células desenvolvidas até 2001, contaminadas com soros animais que impediam o seu uso em terapias.

"Não pode haver terapias baseadas em células estaminais sem indústria, mas também não há indústria sem investigação de topo, que tem de ser feita nos melhores laboratórios e financiada" com fundos públicos, disse o cientista à Lusa. Em Portugal, apenas é permitida a investigação em células estaminais adultas (da medula, da gordura ou do cordão umbilical).