Furtos. Os camiões com depósitos com 500 e 1000 litros de gasóleo são os alvos preferidos, mas já há roubos em automóveis ligeiros. O esquema estende-se a várias zonas do País, segundo a polícia. A informação sobre a venda a um euro por litro passa boca a boca e circula em grupos restritos

Polícia investiga, mas ainda não chegou ao negócio

A PSP e a GNR estão a investigar várias zonas do País onde o negócio da venda de combustível roubado tem disparado nos últimos meses. Fontes policiais confirmaram ao DN existirem vários grupos de indivíduos, sobretudo entre os 16 e os 25 anos, que se dedicam a furtar gasóleo e gasolina para posterior venda no mercado negro ao preço de um euro por litro - o preço médio ronda 1,4 e 1,5 euros, respectivamente. As autoridades já identificaram vários indivíduos pela prática do roubo de combustível, mas admitem que não vai ser fácil apanhar os delinquentes em flagrante na comercialização.

A Área Metropolitana de Lisboa é apontada como sendo a zona privilegiada para este novo negócio, que já representa uma enorme dor de cabeça para as empresas de camionagem As autoridades reconhecem que o maior obstáculo à investigação passa por perceber em que locais se processam as vendas, embora admitam que indivíduos se instalem em quintais e garagens. Já a "promoção" é feita boca a boca, resumindo-se o negócio a um ciclo restrito de pessoas conhecidas. O objectivo é diluir ao máximo a possibilidade de virem a cair nas malhas da lei.

"Quem trafica droga também não tem um letreiro a anunciar. Aqui deverá passar-se a mesma coisa. A notícia vai passando e os compradores, que também estão a cometer um crime, lá sabem", explica fonte policial, referindo que os camiões com depósitos entre os 500 e os mil litros são os principais alvos, embora o constante aumento do preço dos combustíveis também tenha tornado as viaturas ligeiras apetecíveis.

A maioria dos roubos é feito com recurso à abertura do tampão do depósito - alguns são forçados, ficando danificados -, sendo o líquido extraído através de um tubo dotado de uma bomba manual. Um apetrecho que pode ser comprado nas estações de serviço por cerca de 10 euros.

Mas o cenário agrava-se nos casos em que o tampão oferece maior resistência, tendo-se avolumado o número de viaturas em que os depósitos são perfurados com recurso a picaretas (como sucede nos camiões) e a simples pregos metálicos (nas viaturas ligeiras) que são espetados no fundo dos depósitos para que a gasolina possa verter para os garrafões.

Habitualmente são utilizados recipientes com uma capacidade na ordem dos 25 a 55 litros, para permitirem um mais fácil transporte. Já para introduzir a gasolina ou gasóleo na viatura basta um funil ou mesmo a parte superior de um garrafão de cinco litros, depois de devidamente cortado, mais ou menos, pela metade.

Setúbal é uma das cidades sob suspeita. No dia 13 de Maio, a Polícia chegou mesmo a deter três jovens, de 17, 20 e 21 anos, que estariam a furtar gasóleo em camiões na Avenida das Descobertas, tendo em sua posse cinco bidões de 55 litros cada. Ainda chegaram a encher um deles, mas viriam a fugir após a chegada da PSP e foram detidos minutos depois. Não conseguiram explicar porque exalavam um cheiro tão intenso a gasóleo.

Contactado pelo DN, o comandante da PSP de Setúbal, Matias David, admitiu apenas que este fenómeno está a ser investigado na cidade, recusando avançar mais pormenores para "não perturbar" o trabalho da polícia.

Também os s serviços de limpeza da autarquia têm vindo a recolher vários garrafões e bidões da via pública com restos de combustível.

Empresário vítima de vários roubos já contratou um segurança armado

Luís (nome fictício) perdeu a paciência. Este proprietário de uma empresa de camionagem no concelho de Palmela até já tinha sido vítima de vários furtos de gasóleo. A maioria de pequena monta. Mas diz que dia 24 de Maio foi de mais. Encontrou três camiões com depósitos vazios. Solução: passou a ter segurança privada durante a noite, com recurso a um homem armado. Eis a razão porque pede anonimato. E garante saber de "muitos colegas que fizeram o mesmo."

Quando na madrugada de 24 de Junho, Luís abriu o portão aos funcionários para dar início a mais uma jornada de trabalho "jurou" a si mesmo que nunca mais iria deixar a frota de 17 camiões passar as noites sem vigilância. Três viaturas, que tinham sido atestadas horas antes, apresentavam os depósitos perfurados e completamente vazios. O prejuízo, contabilizando apenas o roubo do combustível, ascendeu aos quatro mil euros.

Luís garante que os depósitos foram perfurados com uma picareta, admitindo que o roubo tenha sido realizado por alguém que sabia quais eram as viaturas com maior capacidade de armazenagem de gasóleo. "Foram aos depósitos de mil litros, mas nem terão levado metade do combustível", diz. A grande parte estava derramada no chão, sendo que ainda hoje o cheiro a gasóleo é intenso naquelas instalações, que durante as noites passaram a ser vigiadas por um "homem com licença de uso e porte de arma", sublinha, alegando que apresentou queixa na GNR, "mas eles não podem fazer nada". Na vedação, dois letreiros alertam quem se aproxima para ter cuidado com os pitbull.

DN