TVI 24 quer ser diferente para sobreviver à pressão da crise e da concorrência


Portugal ganha hoje um novo canal temático de informação na rede cabo, num ano em que a situação económica é preocupante e os grupos de comunicação social apertam no investimento, face à forte quebra prevista para as receitas do mercado publicitário. O TVI 24, que começa a sua emissão às 21h, em pleno horário nobre e com Henrique Garcia como pivot, promete fazer um jornalismo diferente, afirma o director-geral da estação de Queluz de Baixo, José Eduardo Moniz.

No entanto, será que o mercado português tem espaço para tantos projectos informativos, ainda para mais em situação de crise? A resposta é afirmativa, considera Rui Cádima, coordenador do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova: "Sendo um canal promovido por um grupo forte como a Media Capital/Prisa (grupo espanhol dono da Media Capital), a "amortização" do investimento tem garantias particulares, daí o risco também ser menor e fazer sentido o projecto", refere o investigador. Os números do novo canal são confidenciais, mas têm sido referidos quase sete milhões de euros em obras naquele que será o estúdio principal e na contratação de seis novos pivots.

Em termos de conteúdos, Rui Cádima defende que há muito espaço para o novo canal fazer a diferença, porque a informação da SIC Notícias e da RTPN está "demasiado ancorada nos vícios da informação tradicional dos telejornais". Ou seja? "Burocratizada, institucionalizada e de costas voltadas para a cidadania e para a experiência do mundo da vida, para um discurso de proximidade e para o jornalismo de investigação".

A mesma opinião é partilhada por Eduardo Cintra Torres, crítico de televisão, para quem o TVI 24 poderá distinguir-se pelo ponto de vista sobre a actualidade. "A informação, quer na RTPN quer na SIC Notícias, é muito conformista ou de acordo com os interesses dos poderes (político, económico, das grandes empresas). Aqui poderá haver, do ponto de vista da independência jornalística, a abertura que não existe na RTPN e na SIC Notícias, onde a informação está bastante governamentalizada", salienta este responsável.

Cintra Torres admite que o principal serviço noticioso da TVI fica muitas vezes atrás da concorrência nas audiências, mas considera que isso se deve a "lugares-comuns terríveis": "Dizem que o jornal da TVI é o mais sensacionalista de todos, o que é totalmente falso; é o menos sensacionalista dos canais em sinal aberto, mas demora muito a desfazer a ideia inicial, que foi criada em 2000 pela altura do Big Brother."

Para já, apenas na Zon

O contrato assinado com a Zon, em Março de 2008, após um longo braço -de-ferro quanto aos valores do contrato que só foi desbloqueado com a chegada de uma nova administração à empresa da TV Cabo, define que o primeiro ano do TVI 24 será em exclusividade. Mas vários responsáveis do sector admitem que esta é uma situação que pode rapidamente mudar, devido ao interesse de serviços concorrentes, como o Meo.

Como contrapartida pelo fornecimento do TVI 24, a Media Capital irá receber um fee (taxa) da Zon, com base no número de subscritores da rede cabo - à semelhança do que sucede com a maioria dos canais pagos. Mas neste caso as receitas de publicidade serão exploradas pela empresa que vai distribuir os conteúdos.

Trata-se de um modelo de negócios "menos arriscado e menos aventureiro" do que nos canais generalistas de sinal aberto (RTP, SIC e TVI), resume Luís Mergulhão, presidente do grupo Omnicom Media Group em Portugal (ligado a agências de meios). Por outro lado, lembra André Freire de Andrade, director-geral da Carat Portugal, também ligada ao mercado publicitário, "não tem obrigatoriamente que ser o mesmo bolo (de receitas) a dividir por mais um, mas pode um bolo maior a dividir por todos": o número de clientes dos canais por cabo tem vindo a aumentar nos últimos anos.

Um modelo de negócios semelhante ao do TVI 24 é o da SIC Notícias (grupo Impresa), que é um exemplo do peso crescente dos canais pagos nos grupos televisivos. As receitas de subscrição dos canais ligados à SIC representaram 27,3 milhões de euros entre Janeiro e Setembro de 2008, mais de 20 por cento do volume de negócios desta estação televisiva. Neste valor incluem-se a SIC Notícias, a SIC Mulher e a SIC Radical, e também os subscritores da SIC Notícias e da SIC Internacional em Angola, Moçambique e África do Sul. Mas quanto à publicidade, são apenas "algumas centenas de milhares de euros", nota José Freire, responsável pelas relações do grupo com investidores.