Moura: Desavenças entre vizinhos quase terminam em tragédia na amareleja
Criança ferida em tiroteio


O casal estava em casa com dois netos quando soaram os gritos de Manuel Abibe do lado de fora, segunda-feira à noite. “Gritava aqui à porta que vinha fazer um banho de sangue”, recorda ao CM Diamantino Moita, o alvo da ira devido a questões amorosas entre o agressor e uma nora das vítimas.

Depois puxou de uma caçadeira e, com uma chuva de tiros através das portas da moradia na Amareleja, Moura, feriu Inês, de apenas dez anos, e os avós, Diamantino e Alexandra. Estes sobreviveram com alguns bagos nos pés, mas a menina foi atingida por mais de 70 chumbos nas pernas. E o atirador vai ficar em liberdade.

A criança passou a madrugada de ontem no Hospital de Beja, mas não corre perigo. “Dói-me muito as pernas”, foram as únicas palavras que conseguiu exprimir ao CM, já em casa, onde agora se desloca de cadeira de rodas. “Os tiros foram para baixo, porque se ele tem atirado às janelas matava-nos a todos”, referiu Alexandra Moita, avó de Inês, a primeira a encarar o agressor, pelas 22h30 de anteontem.

A discussão começara momentos antes, quando o filho de Manuel Abibe quis tirar satisfações com Diamantino e Alexandra acerca do alegado envolvimento amoroso de uma nora do casal com o seu pai. Com os ânimos já exaltados, quem voltou à casa foi Manuel Abibe, com cerca de 60 anos, para resolver o problema a tiro. E fez vários disparos através das portas da casa, que atingiram Inês e os avós. Só um menino de seis anos escapou ileso.

“Não há explicação para isto. Ele devia estar bêbedo, nunca tínhamos tido conflitos”, garante ao CM Alexandra Moita, atingida num pé. “Se o suposto problema dele era com a nossa nora, ou com o nosso filho, porque é que ele veio aqui? Tive muito medo pelos meninos”, confessa a avó das crianças, depois do tiroteio.

"SE ENTRASSE MATAVA-NOS"

Se o alvo dos disparos seria o casal Moita, uma tragédia de maiores dimensões terá sido evitada pelo facto de estarem crianças presentes dentro da casa. "Os meninos gritavam tanto e ele deve ter-se apercebido que os atingiu e acabou por se ir embora. Não conseguiu entrar na casa. Se ele entra aqui dentro matava-nos a todos", referiu ao CM Diamantino Moita, bastante queixoso devido aos cerca de 20 chumbos que ficaram alojados no pé esquerdo. "O mais pequeno safou-se porque se escondeu debaixo da cama", recorda a vítima.

PORMENORES

NETOS

As duas crianças que estavam dentro da casa são netas do casal, mas tratam os avós porpai e mãe, por toda a vida terem sido criados por eles, devido à falta de condições dos progenitores. Defendê-los foi a prioridade de Diamantino e de Alexandra Moita.

AMEAÇAS

Outros membros da família dizem já ter sido ameaçados, mas sem consequências. "A culpa disto é de nas terras pequenas os boatos se tornarem verdade com muita facilidade, mesmo quando não são", disse ao CM a nora do casal Moita, que está na origem de toda a discussão.

AGRESSOR

Manuel Abibe é, segundo alguns conterrâneos, um homem de difícil trato, mas de quem não se esperava esta reacção. "Com o cabedal que tem um puxão de orelhas chegava para resolver os problemas. Não era preciso reagir a tiro ao pé de crianças", dizem.

ENTREGOU-SE E GNR SOLTOU-O

Minutos depois de ter atingido a tiro a pequena Inês Matado, Diamantino e Alexandra Moita, Manuel Abibe acabou por se entregar no posto da GNR de Amareleja.

"O homem entregou-se no nosso posto e foi-lhe logo apreendida a arma de fogo [uma caçadeira]. Como não existiu flagrante delito, o sujeito foi constituído arguido e prestou termo de identidade e residência, medida com que aguarda agora o desenvolvimento do processo", disse ao CM fonte da GNR.

As investigações deste caso foram entregues à Polícia Judiciária, que durante a madrugada e manhã de ontem esteve no local para recolher os indícios do crime.

"Levaram uma mão cheia de cartuchos; devem ter sido uns sete ou oito disparos", disse ao nosso jornal um vizinho das vítimas. "Pensei que tinham sido tiros para o ar, mas depois ouvi mais uns quantos. Saí de casa e percebi o que se tinha passado. Pouco depois chegaram as ambulâncias", recorda a mesma fonte. O crime, que podia ter acabado em tragédia, era ontem o assunto de conversa na vila. n

HOSPITAL: 7 HORAS NA URGÊNCIA

A pequena Inês passou sete horas nas Urgências do Hospital de Beja em tratamento. Quantoaos avós, que entraram por volta das 00h00 de ontem, tiveram alta médica quase de imediato

AGRESSOR: FUGIU DE CARRO

Após os vários disparos, o suspeito pôs-se em fuga no seu automóvel particular. Os populares ainda desconfiaram de que fosse fugir, mas entregou-se poucos minutos depois na GNR

DISPAROS: CURTA DISRTÂNCIA

Os dois buracos na porta de alumínio atestam a proximidade a que os tiros de caçadeira foram disparados. Inês estava no corredor da casa quando foi atingida nas pernas.



Fonte Correio da Manhã