O economista grego Costas Lapavitsas, que participou no documentário Dividocracia, diz que os políticos europeus estão mais interessados em proteger os bancos do que o emprego na Zona Euro.

Costas Lapavitsas defende que a crise da dívida nos países periféricos se deveu à quebra de competitividade, mas também ao financiamento barato dos grandes bancos europeus. Em entrevista ao SOL, salienta que as políticas da UE e do FMI se destinam a proteger os credores e a colocar o custo da crise sobre os cidadãos dos membros periféricos do euro. O economista é professor na Faculdade de Estudos Africanos e Orientais da Universidade de Londres. É colunista no jornal The Guardian e foi o economista principal do documentário Dividocracia, um filme sobre a crise da dívida na Grécia, que recebeu milhões de visitas na internet no primeiro mês em que foi lançado. Lapavitsas é também autor de dezenas de artigos académicos e de diversos livros, onde se destaca o último, Financialisation in Crisis, que será publicado em Espanha brevemente.

Como explica a crise da dívida soberana nos países periféricos da Zona Euro?

A dívida é pública e privada, embora o seu peso varie de país para país. O endividamento dos países periféricos do euro resulta de dois factores relacionados com a Zona Euro. O primeiro motivo foi a queda de competitividade, que levou a um enorme défice da balança de transacções correntes e acabou por ser financiado pelos bancos dos maiores países europeus. O segundo foi o financiamento barato disponibilizado por estes bancos, que permitiu que as instituições financeiras dos países periféricos expandissem o crédito ao consumo e à habitação nos seus mercados domésticos. O resultado final foi a acumulação de um enorme dívida interna e externa, pública e privada, embora este mix também varie entre os periféricos.

As medidas tomadas pela Comissão Europeia, BCE e FMI são a solução certa para crise?

As medidas pretendem resolver o problema através de cortes na despesa pública, aumento de impostos, liberalização da economia e privatizações. Na prática, estas medidas protegem os credores e passam o custo da crise exclusivamente para os cidadãos dos países periféricos. Mas é pouco provável que estas medidas funcionem. Primeiro, porque geram uma recessão e agravam o endividamento; segundo, porque não vão conduzir a economia para um crescimento no longo prazo. O resultado mais provável será que os países periféricos irão estagnar e sofrer o peso da dívida por muitos anos.

É um defensor da reestruturação da dívida. Se essa hipótese avançar, os países ficarão anos fora dos mercados…

Três países periféricos – Grécia, Irlanda e Portugal – já têm os mercados financeiros fechados e não há perspectivas realistas que possam abrir se as políticas actuais da UE continuarem. Os investidores já descontaram nos seus activos o cenário de bancarrota destes três países e estão a preparar-se para a reestruturação das dívidas. Obviamente, os mercados estão a fazer tudo para que o custo da reestruturação fique do lado dos periféricos e não dos maiores países da UE. É preciso não esquecer também que os mercados têm memória curta. O que lhes interessa é restabelecer a sua solvência através do crescimento e com um nível de dívida sustentável. Os países periféricos poderão voltar aos mercados depois de colocarem as suas economias na rota do crescimento, depois da bancarrota.

É a favor da criação das obrigações europeias (eurobonds)?

As eurobonds têm defeitos claros para os maiores países da Zona Euro, nem que seja pelo facto de aumentarem os custos de financiamento para a Alemanha e França e outros. As obrigações europeias levantam também a questão da fiscalidade soberana de uma forma mais profunda do que muitos dos seus apoiantes imaginam. Estão os periféricos preparados para abdicar do seu poder para escolher o seu financiamento à custa de uma agência dominada por apenas alguns membros da moeda única? Estão dispostos a aceitar a perda de soberania de decidir como aplicar os impostos nos seus países? A proposta das eurobonds parece-me mais uma dessas decisões de última hora para tentar resolver a crise da dívida na Europa. É uma ideia mal cozinhada, que não vai resolver os problemas fundamentais da região da moeda única e que irá criar mais problemas no futuro. De qualquer modo, não vejo a Alemanha a aprovar uma proposta destas num futuro próximo.

O principal problema da Zona Euro é a criação de emprego. Como pode resolver-se numa conjuntura em que os Estados não têm dinheiro nem as empresas acesso ao crédito?

Não vejo grandes sinais de que os políticos europeus estejam muito preocupados com o emprego. Pelo contrário, a sua maior preocupação é proteger os bancos e resgatar o euro. Cabe às vozes da oposição mostrar claramente que a protecção do emprego deve ser a prioridade da política económica. O desemprego destrói famílias, comunidades e a coesão social. Quanto à escassez de fundos públicos ou de financiamento barato para sustentar uma política alternativa, é preciso não esquecer que os governos dos países periféricos conseguiram fundos quando a banca precisou deles. É preciso lembrar ainda que o Banco Central Europeu (está a emprestar aos bancos dinheiro a uma taxa de 1%. O problema, então, não é a falta de dinheiro e crédito, mas a forma como os bancos e o resto da economia estão estruturados e os interesses que determinam as políticas económicas.

Apoiou a saída da Grécia do euro. Não acha que é um opção que iria agravar a crise da dívida?

Não. A saída do euro seria, obviamente, acompanhada por um processo de bancarrota, que levaria ao não pagamento de uma parcela de 60% da dívida pública. A Grécia não vai conseguir recuperar se o peso da dívida não for reduzido. A saída do euro iria fazer com que a dívida remanescente parecesse ter uma dimensão maior, porque a taxa de câmbio iria cair, mas o peso real da dívida na economia helénica seria menor. Noutras palavras, a capacidade de a Grécia pagar a sua dívida remanescente em euros seria muito maior, porque a economia teria capacidade para gerar riqueza suficiente para amortizar as suas responsabilidades perante os credores.

A Grécia precisa de um novo pacote de ajuda?

Precisa de um novo plano de ajuda, porque o anterior falhou. A recessão foi mais profunda do que o esperado, a receita fiscal ficou abaixo do estimado e é claro que o país será incapaz de ir aos mercados financeiros em 2012, como estava escrito no plano inicial. A resposta da UE, BCE e FMI foi aumentar a dose das medidas do programa que falhou e que agora inclui privatizações a preços de saldo e mais austeridade. A proposta agora é emprestar mais dinheiro à Grécia. O resultado será maior endividamento, recessão mais profunda e problemas sociais mais graves.

Países como Espanha, Itália ou Bélgica poderão ser ainda contagiados pela crise ou os países resgatados já estão isolados 'numa bolha'?

A Espanha é um país com muitas das características dos periféricos. Por exemplo, detém a pior performance ao nível da produtividade na região na década passada, uma enorme dívida privada e um sector imobiliário muito frágil. Se as políticas actuais de austeridade conduzirem o país para a recessão, o que é provável, a posição de Espanha nos mercados financeiros vai deteriorar-se rapidamente. E isto sem mencionar o risco de contágio da Grécia, Irlanda e Portugal. Se a Espanha cair e for resgatada, as pressões sobre a Bélgica e a Itália serão enormes.


SOL