Co-Incineração


Que destino dar ao nosso lixo?


Durante vários anos, verificou-se na maior parte dos países desenvolvidos uma acumulação irresponsável dos seus resíduos (urbanos, hospitalares, industriais, outros.) sem o respectivo tratamento. Esta atitude poderá ter impactos a médio e longo prazo na contaminação dos solos, águas e ar, com efeitos nefastos para a saúde pública.

Em Portugal estima-se a produção de aproximadamente 2,5 milhões de toneladas/ano de resíduos industriais, dos quais 125.000 toneladas (5%) são classificados como perigosos e 16.000 toneladas destes, inceneráveis.

Desta forma, é urgente a introdução de um sistema de separação de lixos perigosos/não perigosos e posterior tratamento dos mesmos.

Após várias pesquisas realizadas, surgiu uma nova forma de tratamento do lixo: a Co-Incineração.


Mas em que é que de facto consiste a Co-Incineração?


A Co-Incineração consiste essencialmente no aproveitamento dos fornos das cimenteiras e das suas altas temperaturas (entre 1450 e 2000 graus), para a queima dos resíduos perigosos (tais como solventes de limpeza, solventes de indústria química, tintas, etc.), com a produção simultânea de cimento.

Alguns destes resíduos são constituídos por hidrocarbonetos e compostos clorados e fluorados entre outros, e alguns têm elevado poder calorífico.

Assim, o processo de Co-Incineração implica adaptações mínimas nas cimenteiras.

Numa primeira fase, os resíduos industriais perigosos são enviados para uma estação de pré-tratamento. Os lixos com pouco poder calorífico são fluidizados (trituração, dispersão e separação dos materiais ferrosos); os resíduos líquidos são impregnados com serradura e submetidos a uma possível centrifugação (no caso de possuírem grandes quantidades de água); os resíduos termo fusíveis, alcatrão e betumes, são rearmazenados em lotes.

Numa segunda fase os resíduos são levados para as cimenteiras. Em caso de acidente de transporte, os impactos ambientais serão muito menores do que antes do tratamento dos mesmos.

Nas cimenteiras são pulverizados para o forno tirando partido do seu poder calorífico (Ex: combustíveis) ou utilizados como matéria-prima substituta na produção de cimento.



Após este processo, não permanecem resíduos remanescentes da Co-Incineração, visto que estes são incorporados no próprio cimento, e devido às temperaturas e tempo de residência dos gases a produção de gases tóxicos é muito baixa. Contudo, poderemos ter a certeza da inexistência de perigo para a saúde pública?

Para evitar uma remota, mas possível fuga de gases devem ser instalados filtros de mangas nos fornos das cimenteiras, aumentando a margem de segurança.

Quais as vantagens e riscos da Co-Incineração em relação à inceneração clássica?

A inceneração clássica de resíduos perigosos (metais pesados, dioxinas, furanos, etc.) por meio de uma unidade inceneradora foi nos últimos anos alvo de contestação por parte dos técnicos especializados.

Se esta incineração não se realizar com um controle rigoroso, pode aumentar ainda mais o perigo a estes resíduos e representar danos mais graves para a saúde pública e no meio ambiente.

Temperaturas elevadas: Devido às elevadas temperaturas alcançadas pelos fornos das cimenteiras, a destruição dos resíduos é muito mais eficaz em comparação com um incenerador clássico que não atinge tais temperaturas.

Tempos de residência de gases elevados: Sendo o tempo de permanência dos gases no forno superior ao de um incenerador, a taxa de destruição dos gases poluentes é maior, havendo um maio período a altas temperaturas no forno.

Inércia térmica elevada: Ao contrário dos inceneradores, os fornos de cimenteiras possuem uma elevada inércia térmica o que previne um drástico abaixamento de temperatura, com possíveis emissões anómalas, se ocorressem paragens ou alteração da operação.

Meio Alcalino: A base da matéria-prima no forno é o calcário. Assim o meio é alcalino, o que provoca a neutralização dos gases e vapores ácidos (SO2; CO2; HCL; HF) e a sua fixação no cimento. Desta forma, verifica-se uma substancial redução das emissões desses poluentes em relação à inceneração clássica.

Produção de efluentes líquidos/lamas e de resíduos sólidos: Neste processo de Co-Incineração não há produção de resíduos sólidos, efluentes líquidos ou lamas (potencialmente poluidores) porque todos os materiais não queimáveis são utilizados e incorporados na produção do próprio cimento, o que não acontece nos inceneradores.

Metais pesados: Devido às características da Co-Incineração, os metais pesados têm um ambiente óptimo de fixação no cimento, retirando o risco da sua libertação após queima.

Custo: A contrução de um incenerador clássico, bem como o respectivo processo de inceneração, têm custos bastante mais elevados do que os custos inerentes à Co-Incineração.

É possível concluir, face aos factos apresentados, que a Co-Incineração apresenta vantagens claras em relação à incineração clássica.

No entanto, poderão existir alguma questões merecedoras de um estudo mais aprofundado relativamente à Co-Incineração:

- Quando o processo é interrompido, os filtros deixam de funcionar, podendo haver libertação de gases, praticamente sem tratamento, caso os filtros de mangas utilizados não tenham a capacidade de reter os gases mais voláteis como o mercúrio.

- Quais os efeitos na saúde pública de um edifício construído com cimento produzido nas co-incineradoras?



Saúde pública

No processo de eliminação de resíduos podem ser emitidos para a atmosfera determinados componentes, prejudiciais para a saúde das populações e para o Ambiente. Ainda que o nível de exposição a agentes químicos pelas populações mais próximas das unidades de eliminação de resíduos tenha geralmente sido muito baixa, possíveis efeitos carcinogénicos e crónicos são motivo de preocupação para as entidades competentes. Desta forma, não existem factos comprovativos da absoluta segurança do processo.

Relativamente à saúde pública, revela-se impossível isolar os efeitos consequentes da Co-Incineração dos resultantes da indústria, hábitos sociais (Ex: tabagismo) e outros factores poluidores.

Análise psicosocial

Nos últimos anos, sempre que um governo demonstra a sua intenção de construir uma unidade de tratamento de resíduos sólidos ou de introduzir o processo de Co-Incineração numa cimenteira, as reacções das populações não são geralmente favoráveis ao programa em questão. É a velha máxima "Eliminar o lixo muito bem, mas não no meu quintal". Embora muitas vezes as pessoas compreendam as necessidades ambientais globais, não interiorizam as medidas locais a aplicar.

Por outro lado, a relação do governo com as populações não é muitas vezes a melhor. Ao tentar introduzir uma nova tecnologia, o governo distancia-se da população, apoiando-se em dados técnicos em vez de uma informação mais próxima e educativa para a população.

Assim, não é difícil de compreender o aumento da sensibilidade das populações em relação ao risco de acidentes, decorrente da aplicação de novas tecnologias.

Em suma, o processo de Co-Incineração em cimenteiras produz impactos positivos para o Ambiente, eliminando de forma correcta os resíduos perigosos. Evita o consumo de combustíveis fósseis, com a poupança de recursos naturais não renováveis.

Para que a Co-Incineração se processe eficazmente, bastará que o governo tenha uma abordagem mais directa e informativa com as populações, diminuindo a sua hostilidade e confiança.


André Ramalho
Texto desenvolvido com base no trabalho sobre Co-Incineração desenvolvido por alunos de engenharia do Ambiente da Universidade Nova de Lisboa-FCT