Os (en)cantos da cigarra

MARIA GABRIEL SOUSA

Cigarra.

Em Portugal há apenas uma dúzia de espécies, mas já chegam para nos dar música no Verão, graças a um complexo sistema de produção de som, que permite a emissão de sinais acústicos com um nível de pressão sonora superior a 100 decibéis, muito acima dos 60 decibéis de uma simples conversa
"No Sul da Ásia havia tribos que em determinadas alturas do ano se juntavam, geravam um sinal acústico ritmado batendo palmas para atrair cigarras, que apanhavam e comiam", conta entre sorrisos ao DN Paulo Fonseca, biólogo e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que se dedica à investigação em comunicação acústica desde fins dos anos 80.

A medicina tradicional chinesa ainda hoje utiliza estes insectos para fabricar medicamentos que previnam o choro dos bebés, conta também o biólogo. Ao fim e ao cabo, parece que Portugal é mais romântico: não as come, nem as utiliza para remédios, deixa-se embalar pelo seu cantar durante o Verão.

O canto da cigarra é a sua imagem de marca, mas é geralmente diferente entre espécies, pese embora o sistema produtor de som seja basicamente semelhante. Segundo o biólogo "conseguem gerar pressões acústicas extraordinariamente elevadas, da ordem dos 140 decibéis no interior do abdómen oco, e mais de 100 decibéis no sinal irradiado para o ar", e estes cantos podem ouvir-se a várias centenas de metros nas espécies maiores, tornando-se quase ensurdecedores. Percebe-se porquê: uma simples conversa entre humanos produz 60 decibéis; e um avião a levantar voo não passa dos 140 decibéis...

Até mesmo as cigarras se protegem contra o volume intenso do seu próprio canto. Tanto o macho como a fêmea possuem um par de grandes membranas que funcionam como uma espécie de orelhas, ligadas ao órgão auditivo por um pequeno tendão que reage dobrando-se quando o som é demasiado alto.

Bastante complexo, o mecanismo de produção de som baseia-se essencialmente na forma como um par de estruturas chamadas tímbalos são accionados, por vezes quase em sincronia, outras alternadamente, consoante as espécies, por potentes músculos, por seu turno controlados pelo sistema nervoso do animal. E em grande parte a "música" resulta da cadência de activação dos tímbalos. Junte-se o facto de o abdómen poder funcionar em certos casos como caixa de ressonância e temos o som mais potente da classe dos insectos.

Exclusiva dos machos, a cantoria das cigarras é utilizada para atrair as fêmeas, mas também para afastar alguns predadores, pois além de doloroso, o canto da cigarra interfere na sua comunicação. Mas há outros tipos de sons. "Um macho pode cortejar outro. Quando isso acontece, em certas espécies o segundo emite um sinal e isto aparentemente reduz o cortejamento pelo primeiro. Como que a dizer eu sou macho desampara-me a loja", diz Paulo Fonseca.

"A grande maioria das cigarras produz outro som quando são apanhadas à mão, explica. Neste caso há quem defenda que é para que o predador largue a presa; outra hipótese é que o sinal alerte outros animais que estão próximo."

Uma coisa é certa, se cantam para seduzir também assim ficam mais expostos. Não tem mal, segundo o biólogo. "Os machos são o sexo que pode correr riscos; pode sofrer mais predação que não altera em nada a representatividade de ovos fecundados para a geração seguinte. Uma população pode perder 20% ou 30% dos machos que isso não se reflecte numa redução na capacidade para fecundação das fêmeas".

E a propósito, como é que as cigarras se reproduzem? "Ao contrário da maioria dos insectos que têm gerações muito curtas, o ciclo das cigarras dura vários anos. Nas espécies mais pequenas pode durar 3, 4, 5 anos, mas há espécies na América do Norte que perfazem o seu ciclo de vida em 13 ou mesmo 17 anos, desde o adulto até ao reprodutor adulto da geração seguinte", refere Paulo Fonseca.

Uma vez fecundada, a fêmea coloca os ovos em pequenas ranhuras que abre nos tecidos vegetais. Ao eclodirem destes ovos, as ninfas caem para o solo e, já na terra, escavam uma pequena cápsula que será a sua casa.

Ao longo dos anos que aí estiverem as ninfas deslocam essa cápsula no solo, escavando com as fortes patas da frente e colocando a terra removida atrás, percorrendo assim o solo à procura de raízes, onde se alimentam de fluidos do xilema (tecido de transporte de água e sais minerais absorvidos do solo, através das plantas). Por isso, em muitos países são consideradas verdadeiras pragas, provocando enormes prejuízos em algumas plantações.

Finalmente vêm cá para cima e dá-se a metamorfose: de ninfa passa a adulto e é aí que as ouvimos. Infelizmente, esta última fase do seu ciclo de vida é muito curta e dura apenas algumas semanas...

E aqui é mesmo caso para dizer que é deitada por terra a moral da fábula de La Fontaine, da formiga trabalhadora e da cigarra que passa o Verão sem fazer nada, simplesmente cantando. A cigarra é, na realidade, uma trabalhadora incansável, que luta pela sua subsistência durante anos e anos, escondida no fundo da terra, para no final ter uma parca recompensa.|


DN