Parasitoses intestinais nas crianças











A Organização Mundial de Saúde estima em 3,5 biliões as pessoas afectadas por parasitas intestinais das quais 450 milhões são crianças com doença declarada. Estas parasitoses continuam a ser uma dor de cabeça em termos de saúde pública nos países em desenvolvimento.



A mudança operada nos modos de vida e nas condições higiénico-sanitárias do nosso país leva a considerar que o problema de parasitoses ainda persiste mas deixou de ser um preocupante problema de saúde pública em Portugal (de facto a taxa de parasitismo intestinal é muito baixa entre nós). Mas a sua prevenção e controlo continua no topo da agenda da saúde pública.

Importa recordar que nas crianças filhas de imigrantes a taxa de parasitismo é superior, o que coloca estas crianças numa situação de maior vigilância.

É provável que o leitor nunca tenha ouvido falar em ascaridíase, teníase, na amebíase, na giardíase e oxiuríases, infestações causadas por parasitas que podem aparecer nos intestinos das crianças e adultos.

Recorde-se que há mais de 100 tipos diferentes de parasitas intestinais, que podem entrar no corpo através do nariz, da pele, dos alimentos, da água e por via das picadas dos insectos.

A vulnerabilidade do organismo da criança leva-nos a compreender a importância em estarmos atentos aos sinais e sintomas destes parasitas que podem prejudicar, com maior ou menor gravidade, a evolução da gente pequena.


O que é fundamental reter é que estes parasitas aproveitam-se dessa debilidade do organismo da criança, instalam-se no intestino, depois depositam os ovos na margem anal ou fezes e esses ovos disseminam-se, por hipótese, através das mãos, brinquedos e outros elementos do uso quotidiano.

E quando uma criança entra em contacto com outra que está infectada, ou com um brinquedo contaminado, e depois leva as mãos à boca, também esses ovos dos parasitas podem entrar no organismo através do aparelho digestivo, para além da entrada através de alimentos e água contaminados.



Como se manifestam as parasitoses



As parasitoses podem passar muito tempo despercebidas, há contudo alguns sinais de alerta como a comichão no ânus ou zona próxima, alteração do sono, irritabilidade ou nervosismo excessivo. Ao sentir comichão, a criança coça o rabinho e contamina os seus dedos, especialmente debaixo das unhas.

Assim, através das suas mãos, pode contagiar membros da família, companheiros de infantário ou escola.

Há alterações associadas à infestação, podem traduzir-se em perda de apetite ou de peso, alterações gastrointestinais, má absorção de nutrientes e até problemas de crescimento.

As manifestações mais comuns são as dores abdominais (pode dar-se o caso dos pais confundirem estes parasitas com alergias alimentares), gases e inchaço; as crianças também podem sofrer de fadiga devido aos parasitas utilizarem os nutrientes da criança (o nível de fadiga, claro está, fica dependente do nível de infestação); a perda de peso é também entendida como uma das manifestações a que os pais devem estar atentos, examinando as fezes da criança para detectarem os vermes; outro sintoma é a diarreia e problemas intestinais.


Em suma, os pais e encarregados de educação devem estar alertados que pode haver uma parasitose intestinal num quadro de uma qualquer destas manifestações: dor abdominal persistente; diarreia; náuseas ou vómitos; gases ou barriga inchada; disenteria; comichão à volta do ânus ou da vulva; sensação de cansaço ou perda de peso.



Quais as medidas de precaução mais aconselháveis




A higiene irrepreensível é uma barreira que nunca se deve descurar. É preciso estar atento ao ambiente onde vive a criança, a começar pelas nossas casas. A criança tem que estar protegida dos germes dos animais domésticos, eles são muitas vezes hospedeiros de microorganismos e parasitas que podem ser transmitidos aos seres humanos.

Neste ponto, são recomendáveis as seguintes medidas: tratar regularmente os cãos ou gatos contra as pulgas e parasitas (peça conselho ao seu veterinário); durante os seis primeiros meses de vida da criança reduzir drasticamente contactos com animais, é neste período que se vai desenvolver o seu sistema imunitário; há que explicar às crianças que ele não deve tocar nos recipientes da comida dos animais, nas suas mantas ou alcofas e deve lavar sistematicamente as mãos após ter tocado num animal, nunca devendo levar os dedos à boca até lavar as mãos, deve estar interdito o acesso dos animais ao quarto da criança, nem pensar que o cão ou gato possa dormir junto do leito da criança.


Outras medidas de grande significado são a prevenção das diarreias e gastroenterites. Tudo começa pela adesão às regras de higiene de base que são a melhor maneira de limitar os riscos da contaminação.

Não nos devemos esquecer que as creches e os infantários são locais propícios à propagação das epidemias de diarreias. Porque as crianças sofrem frequentemente de diarreia. É através das diarreias e das gastroenterites que se pode dar a infecção de outras crianças.

Aliás, recomenda-se que as crianças infectadas e que frequentam creches ou infantários deverão manter-se em evicção até ao desaparecimento da diarreia.


Nunca se deve perder de vista que o controlo dos parasitas passa por uma melhoria das condições higiénico-sanitárias, por alterações dos hábitos sanitários (por exemplo: lavar sempre as mãos depois de ir à casa de banho, antes das refeições e depois de mudar a fralda; manter as unhas curtas e bem escovadas; evitar que a criança coce a região à volta do ânus).

Para evitar o contágio dentro de casa, recomenda-se que se lave a roupa a temperaturas superiores a 55º C, que se aspire a casa em todos os pontos em que se preveja poder ter havido fontes de contágio, devem-se lavar os brinquedos nas situações em que houve contacto com animais e deve permitir-se a entrada de luz no quarto da criança pois os parasitas são muito sensíveis à luz.



Quais os tratamentos para os parasitas intestinais




Há autores que destacam a componente alimentar e até o recurso a certos suplementos, mas estes sempre com aconselhamento de um profissional de saúde.

Atribui-se às cenouras propriedades que desencorajam os parasitas; os alimentos carregados de fibras são sugeridos e temporariamente desaconselhados os alimentos altamente refinados, como o pão branco, toda a comida refinada e até sumos de fruta, recomendam-se os probióticos, o reforço em vitamina C e o suplemento em zinco.


O diagnóstico de parasitose mais comum para a oxiuríase é um teste que consiste em colocar um pedaço de fita adesiva transparente sobre a região anal, à noite, com o objectivo de que os ovos do parasita fiquem agarrados à fita. Como é evidente, é na análise laboratorial das fezes que se irá detectar a a presença do parasita ou dos seus ovos nas fezes e qual o tipo de parasitose.

O tratamento consiste em tomar o antiparasitário durante um ou mais dias, havendo necessidade, em certos casos, de proceder à repetição da dose duas semanas depois.


Esta repetição do tratamento visa destruir os parasitas que entretanto eclodiram dos ovos que não tinham sido destruídos quando do primeiro tratamento, visto a maioria dos medicamentos só afectarem os parasitas e não os ovos. A colheita de sangue tem pouca utilidade para o diagnóstico.

Durante muito tempo julgou-se haver necessidade de se procederem a desparasitações sistemáticas; hoje há consenso de que não se justificam as desparasitações sem evidência de parasitose. Não se justifica, portanto, a desparasitação periódica feita por rotina às crianças em idade pré-escolar.

Sabe-se, aliás, que o uso generalizado dos antiparasitários pode conduzir ao desenvolvimento de resistências, com redução da eficácia dos fármacos usados actualmente como primeira linha.



Use e abuse do aconselhamento farmacêutico




Há manifestações precoces que podem indiciar uma situação de parasitose intestinal na criança: a perda de peso, fadiga, alteração do apetite, os sintomas gastrointestinais, a prostração, o prurido anal, entre outras.

Em todos estes casos deve-se recorrer ao aconselhamento farmacêutico, pode haver vantagem em fazer-se um rápido encaminhamento médico. O regime alimentar da criança pode ser objecto dessa conversa, sem prejuízo do que está prescrito pelo pediatra.


Hoje em dia há antiparasitários não prescritos pelo médico, como é evidente para aqueles casos em que se detecta uma parasitose intestinal, aqui o aconselhamento farmacêutico é incontornável, compete a este profissional de saúde apurar junto dos pais que outra medicação a criança está a fazer.

Nos casos manifestos da disenteria ou gastroenterite, o seu farmacêutico pode ter um importante desempenho referindo-lhe as medidas de precaução que são essenciais e como prevenir ou tratar as eventuais complicações associadas a estes casos de diarreia nas crianças (não esquecer que uma diarreia abundante pode rapidamente provocar desidratação e uma perda de sais minerais e até pode haver casos em que seja necessário embeber compostos para rehidratação).

Não hesite em entrar na sua farmácia para saber mais como prevenir estas parasitoses e como actuar em casos de suspeita ou tratamento nas situações mais benignas.




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