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"A Minha Guerra"

  1. #1
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    Inf "A Minha Guerra"

    "A Minha Guerra" retrata e relata a vivência real de alguns militares que passaram pelo teatro da guerra colonial nas três frentes.
    Este contributo do referido diário, tem como particularidade não deixar esmorecer as recordações,boas e más, de uma juventude que passou uma boa parte da mesma em cenários de guerra, e que deixaram de forma indelével, marcas na grande maioria dos intervenientes.
    Fonte: correiodamanha
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  2. #2
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    Inf "Abertura de estrada parecia o Inferno"

    Buba: Aldeia formosa


    Tristeza. No dia em que a via foi inaugurada houve três emboscadas e morreram dois soldados. Eram de uma companhia de regresso à metrópole.

    O desembarque na Guiné aconteceu a 12 de Maio de 1969 no cais do Pidjiquiti. Um dia triste e desolador: apenas se viam viaturas militares, soldados e estivadores. Depois, fomos para Brá, seguimos com destino a Buba e partimos para Mampatá, no Sul, com a missão de proteger os trabalhos de engenharia na nova estrada que ligava Buba a Aldeia Formosa, perto da fronteira com a Guiné-Conacri. O meu baptismo de fogo deu-se logo na primeira deslocação da companhia para Mampatá.

    A deslocação foi muito penosa, pois – a acrescentar ao primeiro contacto com o inimigo – tivemos de contar com o imenso calor que se fazia sentir e a falta de água, que bem cedo acabou. Chegámos ao destino descia o Sol no horizonte e fomos surpreendidos com a inexistência de instalações militares. Por isso, montaram-se tendas de lona, cada uma para albergar uns 20 militares. Íamos começar a guerra sem o mínimo de condições. Alguns nativos, apercebendo-se do que estava a acontecer, convidaram soldados para se instalarem nas suas tabancas, contrariando Aliu, o chefe, que receava a junção dos militares com os nativos. Mas foi surpreendente a convivência que se gerou logo no primeiro dia entre ambos. Após algum tempo a dormir no chão, cada um construiu a sua própria tabanca.

    O rasgar da floresta iniciou-se a partir de Sare Usso e a minha companhia começou a sua actividade operacional. Todos os dias, grupos de combate picavam a estrada nas deslocações para os trabalhos, seguidos das máquinas de engenharia. Só em Maio houve várias flagelações, bem como rebentamentos e levantamentos de minas. Houve mortos e feridos em emboscadas. Na primeira coluna de reabastecimento, na inauguração da via, registaram-se três emboscadas. Foi um dia triste, havendo a lamentar a morte de dois soldados e vários feridos numa companhia que estava de regresso à Metrópole. Ficámos tão afectados que nunca mais se fizeram colunas naquela estrada.

    Durante a desmatação, efectuada por 700 trabalhadores Balantas e a protecção efectuada no flanco Sul, onde diariamente havia flagelações, tombou, fulminado por um tiro, o soldado Caetano e outros sofreram ferimentos graves. Estávamos com um mês de actividade e o inimigo não dava tréguas, aumentando o número de emboscadas, tanto às colunas como em flagelações a Mampatá. No tempo que durou a comissão, o inimigo atacou inúmeras vezes, com armas ligeiras, morteiros e roquetes, a tabanca de Mampatá, bem como procedeu à colocação de muitas minas na estrada para Buba. É difícil resumir o Inferno que vivemos dentro e fora do arame farpado.

    Além de outras missões, realizávamos operações de dois e três dias. Mesmo assim, com tantos contactos com o inimigo, acabámos por ter sorte, pois tanto no levantamento como na colocação de minas quase sempre tudo correu bem. Mas não me esqueço do dinheiro que ganhei no levantamento de minas e ofereci ao cabo enfermeiro Alves, que ficou sem um pé no rebentamento de uma, colocada por mim, numa picada utilizada pela companhia.

    Um dia, após a picagem da estrada para o início de uma coluna, quando só faltavam passar duas viaturas para regressarmos a Mampatá, chamei o Nobre para verificarmos, num trilho, se as cinco minas antipessoais montadas por mim já tinham ou não rebentado. Percorridos 20 metros, ouvimos um grande estrondo e de imediato verificámos a destruição de uma viatura, a morte de três nativos e ferimentos em nove camaradas. Uma vez mais fui protegido pela sorte, pois estive ali sentado durante mais de duas horas à espera que a coluna passasse.

    Não me esqueço ainda do levantamento de uma mina anticarro e de outras que se seguiram, colocadas nas bermas da picada. Recordo o alerta dos soldados: ‘furriel não se mexa porque tem uma mina a centímetros do pé!’ Lembro ainda um contacto directo com o inimigo em que sofremos um ferido. Por estarmos perto de Mampatá, saiu em nosso socorro uma força que teve de enfrentar dois combates e deixou três mortos no terreno. As nossas tropas registaram cinco militares com tiros nos braços e pernas.

    Regressámos à Metrópole a 11 de Março de 1971, deixando a funcionar uma escola, um heliporto, uma cantina, uma cozinha, um depósito de géneros e um balneário, entre outras infra-estruturas. n

    DEPOIS DA GUERRA O KARATÉ

    A Companhia de Artilharia 2519, formada em Évora e comandada pelo capitão Jacinto Barrelas, partiu para a Guiné a 5 de Maio de 1969, no paquete Niassa. Sempre foi motivo de preocupação do capitão trazer de volta todos os seus homens com vida. Infelizmente tal não se verificou. Arlindo Tadeu começou a praticar karaté após regressar de África, há mais de 30 anos, no Judo Club de Portugal. Hoje é 2.º dan. Aposentado como técnico superior na área da Segurança Social, é casado e natural de Folgosinho, Gouveia, no coração da Serra da Estrela.

    Arlindo Tadeu - Guiné 1969/1971
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  3. #3
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    Inf “Fizemos funeral de camarada sem corpo"

    A urna estava vazia


    Insólito. Recebi dinheiro para ir no lugar de outro militar. Nunca estive em combates directos mas vivi algumas situações do arco-da-velha, incríveis.

    A minha guerra começou no Campo Militar de Santa Margarida, quando – farto da rotina e das viagens até à minha terra – propus a outro escriturário, de Amarante, mobilizado para Moçambique, ir no seu lugar. Foi num momento de grande desânimo. Disse-lhe que, se pagasse bem, aceitava fazer a troca, pensando que não levaria a proposta a sério. Mas a verdade é que, passadas duas semanas, apresentou-se na minha unidade com um familiar, pedindo para eu assinar o documento a pedir a troca. Fiquei para morrer mas, para não faltar à palavra dada, assinei e recebi um envelope com notas. Já não sei quanto, mas para a altura era uma importância razoável.

    Assim, a 30 de Novembro de 1970, embarquei no navio ‘Pátria’ rumo a Moçambique. Passei o NATAL a bordo e desembarquei em Nacala a 28 de Dezembro. Segui depois até Nampula, onde fiquei colocado no quartel-general liderado por Kaúlza de Arriaga. Um dia, o sargento da minha secção pediu dois voluntários para o Batalhão de Caçadores 14, em Porto Amélia. Eu e um amigo de Aveiro oferecemo-nos e lá fomos no ‘machimbombo’ do Caminho-de-Ferro de Moçambique. Passei 28 meses nesta unidade.

    A guerra é fértil em histórias do arco-da--velha, algumas tão mirabolantes que até custam a acreditar. Esta passou-se no Norte de Moçambique, em Cabo Delgado, em 1971. Entre outras actividades, tinha como triste missão proceder aos funerais dos militares falecidos na zona que, diga--se, foram muitos. A dada altura faleceu com hepatite o soldado condutor-auto Irá Jaime Jones, que prestava serviço na messe dos sargentos. O corpo foi levado para a casa mortuária do Hospital Regional de Porto Amélia para ser autopsiado e preparado para o funeral. Enquanto isso decorreu, eu requisitei um caixão ao serviço de Intendência e fui preparando a documentação. Aconteceu que o caixão não foi entregue nesse dia e o corpo ficou na casa mortuária, em cima de uma das mesas, coberto com um lençol.

    De regresso ao batalhão, fiz o ponto da situação ao alferes Ventura – que comandava a secção – para que no dia seguinte mandasse levantar o corpo, já que o funeral estava marcado para esse dia e eu, estando de cabo de dia, não poderia acompanhar as diligências. No dia do funeral, o 1º cabo Pires foi à casa mortuária buscar o caixão – onde o pessoal da Intendência o tinha deixado – e mandou-o carregar numa Unimog. Antes, ainda questionou o capitão Lencastre, comandante da Companhia de Comando e Serviços, por a urna não estar fechada com um cadeado, como era habitual. 'Tens medo que ele fuja?', foi a resposta que obteve.

    A Bandeira Nacional foi colocada em cima do caixão, que seguiu para o talhão militar do cemitério, transportado por dois oficiais, dois sargentos e dois praças que, embora dando conta do seu pouco peso, pensaram estar distribuído por cada um deles. Realizadas as orações habituais pelo tenente capelão, ao som de uma salva de tiros de espingarda Mauser, o caixão baixou à terra. Tudo parecia terminado.

    Mas não estava. Pelas 12h00 fui abordado por um militar, informando-me que o corpo do soldado Irá Jaime Jones aguardava na morgue que o levantassem. Fiquei incrédulo e atordoado, já que o funeral decorrera às 10 horas. Depois de alguma perplexidade, desvalorizei a informação porque acontecia militares ‘apanhados’ dizerem coisas sem nexo. E havia-os aos centos por aquelas bandas. O certo é que aquilo não me saía da cabeça. Seria possível que o corpo do soldado continuasse na morgue depois do enterro? Por isso, pedi a um colega que me substituísse como cabo de dia e fui de jipe até à cidade averiguar o sucedido. Qual não foi o meu espanto quando, ao entrar na morgue, vi o corpo que deixara na véspera no mesmo sítio. Destapei-o e dei de caras com o Irá. Corri para a messe dos oficiais e contei o sucedido ao alferes. O homem deu um salto da cadeira como se estivesse sentado em cima de um porco-espinho. Fomos ao batalhão buscar uma ambulância e levantámos o corpo. Partimos para o cemitério e, feitos coveiros, abrimos a campa. O caixão estava vazio. Dentro só tinha o cadeado que o deveria ter fechado.

    Colocámos no interior o corpo do nosso camarada de armas para que pudesse descansar em paz. Fez-se silêncio absoluto sobre o sucedido para evitar males maiores, mas na tropa ninguém guarda segredo. Em pouco tempo toda a gente sabia do ocorrido, o que levou o brigadeiro a mandar instaurar um inquérito, arquivado face à forma como a situação foi resolvida.

    FAZ CONTAS E AGRICULTURA

    Depois de regressar de África, Custódio Freitas continuou a trabalhar na União de Bancos. Foi bancário até 1998, quando se reformou. Casou em São Pedro do Sul e teve duas filhas. Uma morreu poucos dias depois de nascer e a outra, hoje com 32 anos, licenciou-se em Direito e estagia num escritório de advogados. Actualmente, o ex-combatente passa os dias a colaborar numa empresa de venda de materiais de construção, onde faz a contabilidade, e na agricultura. Desde que regressou de África, há 35 anos, deixou bem claro que um dia voltaria. Regressará em Setembro.

    Custódio Simão Freitas - Moçambique 1970 - 1973
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  4. #4
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    Inf "Punham orelhas e dedos em frascos"

    A Minha Guerra: Cadáveres mutilados


    Memórias. Ainda hoje, passados 46 anos, revejo muitas vezes os militares cavando a sepultura e deitando o caixão à cova. Foram dias terríveis.

    Estava uma tarde cinzenta e triste, como outras no Outono. Mas mais tristes ainda estavam os familiares que foram despedir-se de nós, sem qualquer certeza de voltarem a ver-nos. No Cais da Rocha do Conde de Óbidos só havia tristeza e lágrimas, em mais uma partida do navio ‘Vera Cruz’ para Angola. Chegámos a Luanda a 9 de Dezembro de 1962, ainda de noite. Tudo nos parecia escuro, mas o dia rompeu com os movimentos próprios de uma cidade em grande desenvolvimento.

    Estivemos três dias no Grafanil, um quartel a 10 km de Luanda, onde os mosquitos gigantes pareciam apostados em sugar-nos o sangue. Dali para o Norte foi um salto. O batalhão foi ocupar a zona da Pedra Verde, a 120 km da capital, ficando uma companhia em Piri (a 389), outra no Pango Aluquém (a minha) e as outras duas (companhias de Caçadores 388 e de Serviços) em Úcua.

    O primeiro mês foi passado em acções de reconhecimento, de fazenda em fazenda, algumas delas abandonadas. Em meados de Janeiro de 1963 sofremos a primeira baixa, num acidente de viação. A inexperiência do condutor – mal preparado durante a instrução –, o terreno acidentado e o piso escorregadio levaram à morte de um soldado. Sendo alferes, fui nomeado oficial comandante da coluna que acompanhou o funeral até Quibaxe. Ainda hoje, passados 46 anos, revejo muitas vezes os militares cavando a sepultura e deitando o caixão à cova.

    Algumas semanas depois, sofremos a maior emboscada de toda a comissão e que se traduziu em cinco mortos (um furriel e quatro soldados), um ferido (furriel) e dois desaparecidos (cabos). Notícias posteriores, que não conseguimos confirmar, davam conta de que um deles tinha sido morto e o outro estaria a dar instrução a soldados negros, no Congo.

    Foi uma manhã horrível, com fogo durante uma hora. Os turras deixaram vários mortos no terreno e muitos rastos de sangue. O capim, mais alto do que um homem, dava até à picada. Quando saltaram para a mata, os dois cabos foram logo capturados e feitos prisioneiros – a coisa que mais temíamos, por sabermos as torturas que nos esperavam. Perdemos ainda seis armas mas o inimigo não conseguiu levar a metralhadora, montada numa viatura Unimog.

    Este ataque foi comandado pelo célebre António Fernandes, que veio a ser morto pelas tropas portuguesas e que era conhecido por ‘Mata-Alferes’. Ao primeiro tiro matava sempre um graduado. A sua arma de guerra era uma carabina que havia ganho num concurso de tiro em Portugal.

    Na nossa zona havia outro mulato, filho de um fazendeiro branco e de uma negra, do mesmo género (ambos usavam carabinas de caça). Este tinha a cabeça a prémio, por ordem do pai.

    Os meses foram passando, com várias emboscadas nas picadas e nas matas, com mortos e feridos de ambos os lados. Recordo, entre outros, o cabo Baptista e o soldado ‘Feio’. No triângulo Piri-Úcua-Pango, numa operação em que capturámos vários inimigos, um soldado veio ter comigo e mostrou-me um frasco com orelhas e dedos de guerrilheiros conservados em álcool. 'É para levar de presente ao nosso comandante', explicou.

    Na zona de Úcua, perto do rio Dange, fizemos uma operação em que esteve o então capitão Jaime Neves – oficial valente e querido dos seus homens. O calor era muito e não havia água. Fomos sobrevoados por duas ou três avionetas, que nos atiraram bidões com água. A maior parte rebentou ao tocar o solo.

    Noutra operação, na região de Bula Atumba, ao anoitecer, estávamos no cimo de um morro, prontos para pernoitar, quando apareceu um guerrilheiro com um preto bailundo de mãos amarradas. Transportava uma caçadeira e pretendia matar o bailundo. O rapaz atirou-se para o meio dos militares e gritou: 'Menino amigo! Menino amigo!' Um cabo do pelotão caiu--lhe em cima e dominou-o com facilidade. Acabou por ficar connosco e, mais tarde, foi enviado para a sua terra, na zona de Nova Lisboa.

    Depois de um ano de guerra no Norte de Angola, fomos para o Leste, onde fizemos patrulhamentos apeados e em viaturas, na zona em volta do Marco 25, reconhecimentos e reconstrução de pontões. O inimigo projectava abrir uma nova frente de batalha, e nós sabíamo-lo. Foi por isso que apareceu no destacamento do Marco 25 o então tenente-coronel Spínola. Só com o condutor, andava em missão de reconhecimento, pois havia a possibilidade de o seu batalhão entrar em acção de sobreposição ao nosso.

    PASSA O TEMPO A PESCAR E A LER

    Carlos Venâncio Domingues Bilro é natural e residente em Montemor-o-Novo. Ingressou na Faculdade de Letras mas viu-se forçado a interromper os estudos – que nunca mais retomou – por causa da vida militar. Casou seis meses depois de regressar do Ultramar e teve dois filhos. Em termos profissionais, foi quadro administrativo da CUF, em Lisboa e Beja. Hoje que está reformado e viúvo, divide o seu tempo entre as leituras e a pesca com os amigos. Guarda muitas recordações da guerra, cujos episódios mais duros –como reconhece – nunca mais conseguiu esquecer.

    Carlos Bilro
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    Inf "A minha mãe deu dois filhos à guerra"

    Irmãos juntos na Guiné


    Choque. Estive envolvido num dos maiores acidentes no Ultramar e fiquei inconsolável quando soube que o meu irmão estava para chegar.

    Estava a meio da minha comissão na Guiné, em Galomaro, quando recebi um aerograma da minha mãe a dizer que o meu irmão estava mobilizado para a guerra e ia numa companhia de transportes para o mesmo país onde eu me encontrava há mais de um ano. Naquele momento fiquei em estado de choque, depois decidi escrever à minha mãe e disse-lhe: ‘Mãe, Deus deu-lhe dois filhos, mandou--os para a Guerra, também os há-de devolver com vida. O meu irmão que venha’. Felizmente, a minha mãe teve a grande alegria de rever os seus dois filhos vivos e de os poder voltar a abraçar.

    O meu irmão – o cabo mecânico António Coelho – embarcou para a Guiné no navio ‘Uige’, no cais de Alcântara, no dia 15 de Novembro de 1969, chegando seis dias depois a Bissau com os camaradas da Companhia de Transportes 2642, de que fazia parte. Quando soube o dia da sua chegada e que a companhia que ele ia render estava em Galomaro, falei com o meu capitão e pedi-lhe autorização para ir a Bissau esperar o meu irmão. Não foi fácil, mas lá segui viagem numa viatura GMC em direcção ao quartel general em Bissau.

    Quando nos vimos demos aquele abraço, falámos sobre muita coisa, das saudades de quem tínhamos deixado na Metrópole, dos perigos que o esperavam na guerra, da nossa mãe que ficara com o coração despedaçado.

    Fomos os dois ter com os restantes camaradas ao quartel general. A companhia era independente, tinha o seu bar e refeitório próprios. O comandante autorizou--me a dormir e a comer com eles, e assim pude passar o NATAL e o Ano Novo com o meu irmão. Telefonámos para a Metrópole e a maior prenda que pudemos dar à nossa mãe foi ela ouvir-nos e saber que, embora na guerra, estávamos juntos naquela quadra e bem de saúde. Mas as saudades eram muitas!

    Ainda me recordo do nosso almoço de NATAL: leitão recheado, servido no restaurante da Irene. Éramos uns oito todos à civil, só o fuzileiro Lage é que estava fardado. Foi ele que cortou o leitão. Destes dias, que passei com a companhia do meu irmão, só guardo boas memórias. Mas os dois anos de guerra não foram sempre assim.

    Parti para a Guiné pelas 11h00 do dia 24 de Julho de 1968 e embarquei, no cais de Alcântara, com a Companhia de Caçadores 2405 no navio ‘Uige’. Nesse dia, no comboio que nos levou de Santa Margarida até Alcântara, foram-me dadas as divisas de 1º cabo, que tinham o símbolo da Escola Prática do Serviço de Material, bem como na boina.

    Chegámos a Bissau, ao cais do Pidjiguiti, a 29 de Julho de 1968. Uns dias depois seguimos para Galomaro, onde já estávamos quando soubemos que iríamos fazer parte da evacuação de Madina do Boé.

    A nossa companhia foi a última a partir. Foi mais uma penosa caminhada até à margem Sul do rio Corubal. A Companhia de Caçadores que estava em Madina do Boé era a 1790 e quase todos os dias era atacada. Fazia parte dela o filho do sacristão da Igreja dos Jerónimos, que era meu amigo, e quando nos vimos foi uma alegria.

    Aqui começa a história vivida na trágica jangada que se afundou. Era puxada a pulso e auxiliada por um barco rígido com o motor situado do lado esquerdo. Era formada por três canoas, onde assentava um estrado em madeira. Por causa do excesso de peso, as canoas meteram água e quando a jangada chegou mais ou menos a dois terços do rio adornou para o lado direito, caindo alguns camaradas. Depois, com a força do peso, adornou para o lado esquerdo, caindo mais camaradas à água. Eu vinha no meio, tinha a caixa da ferramenta, a espingarda G3 e o cinturão em cima da caixa. Como usava sempre uma faca de mato presa ao cinto das calças, peguei nela e cortei os cordões das botas, descalcei-as e tirei as meias, emprestei a faca ao filho do sacristão e lá nos salvámos os dois. Mas à nossa volta morreram 52 camaradas (45 brancos e sete milícias), 20 da minha companhia. Isto passou-se pelas 09h30 do dia 5 de Fevereiro de 1969.

    Depois desta tragédia seguimos para Nova Lamego, onde o nosso comandante, o general Spínola – que durante a evacuação andou a pé nas picadas com os picadores – chorou os seus soldados mortos. Eu vi o general Spínola limpar as lágrimas que lhe caiam da cara e também chorei. Regressei à Metrópole no dia 28 de Maio de 1970, no navio ‘Carvalho Araújo’. Passámos pela Madeira e desembarcámos em Lisboa, no cais de Alcântara, a 4 de Junho de 1970. Faltaram ao desembarque os camaradas que sucumbiram no rio.

    SOFRIMENTO E PRIVAÇÕES

    Carlos Manuel Rodrigues Coelho casou em 1984 com Rosa Nunes. Após o serviço militar emigrou para a Alemanha, onde esteve até 1976. Hoje reside em Algés e está reformado por invalidez. Quando recorda os dias da guerra, vem-lhe sempre à memória o sofrimento e as privações da mãe, que faleceu há seis anos. 'A minha mãe sofreu muito, mas aguentou a nossa separação. Que Deus a tenha em paz, com as mães e pais já falecidos de todos os ex-combatentes da 2405, que lutaram pela Pátria na longínqua Guiné Bissau', diz o militar, com a voz embargada pela emoção.

    Carlos Coelho - Guiné, 1968/1970
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    Inf “O grande medo eram as doenças venéreas”

    Um motorista em Bissau


    Militares chegavam às enfermarias “feridos pela falta de cuidado e desleixo”, reparou um coronel. Pior era ver chegar do mato os mortos.

    Parti para a Guiné numa sexta-feira 13 – em Fevereiro de 1970 –, a bordo do barco cargueiro ‘Índia’. Ainda tenho presente as palavras de alguém que, do meio da multidão, no cais, nos acenava com os braços e lenços: 'Coitadinhos, vão para o sítio pior da guerra e logo numa sexta-feira, 13.'

    A viagem decorreu sem grandes atropelos. Foi a primeira vez que vi golfinhos e peixes-voadores, que eu pensava serem andorinhas. A 21 de Fevereiro atracámos no porto de Bissau. Era tal a diferença de clima que me custava respirar.

    Nos primeiros oito dias andei como clandestino. Não entreguei, como previsto, os documentos. Um certo dia, ia descansado pela parada, alguém numa carrinha parou a meu lado, pedindo-me os papéis. Eu, com uma normal descontracção, mostrei-lhos. Reacção dele: 'Seu sacana, ainda vais preso. Já percorremos tudo à tua procura, salta cá para dentro.' Um deles era o que eu deveria substituir.

    Foi uma vida de tropa sem problemas, não fosse a guerra. Eu tinha de ir todas as semanas com um capitão visitar os doentes e feridos ao hospital militar. Esse oficial, virando-se para mim, disse: 'Guimarães,' – como eu era conhecido – 'a grande parte dos feridos que temos aqui são originados pela falta de cuidado e desleixo.' Guardei esse reparo, mas fiquei com outra perspectiva da guerra quando via os mortos a chegar do mato.

    Existia também uma vida lúdica que me fazia sentir bastante feliz. O povo da Guiné é excelente em termos humanos. Os 23 meses foram vividos intensamente.

    Fui motorista do tenente coronel Carlos Pinto Vilela, do coronel Matos Duque e do major Mota Freitas. Mas outros oficiais, como o general Ramalho Eanes, fizeram parte do meu tempo de serviço.

    Outro grande militar, que merecia a minha admiração como homem de Estado, era o general Spínola. De tanto o ouvir discursar, na partida e chegada de militares, em início e fim de missão, já conhecia o seu discurso de cor.

    Uma das tarefas que fazia habitualmente era a de passear as senhoras de alguns oficiais, que em férias visitavam os maridos.

    Levei uma dessas senhoras a um amigo que presenteava as visitas com um copo de vinho de caju. Mas ela acabou por não se sentir bem. Mastigou um fruto desse mesmo caju, e tal foi o amargo que sentiu, originando uma cara muito feia e as pinturas correram pela cara abaixo. Ela não gostou do meu sorriso e repreendeu-me.

    A tropa também me ensinou a desenrascar. Eu conduzia um Volkswagen preto. Ao estacionar fiz um pequeno risco sobre o guarda-lamas. Com medo de que o meu chefe me chamasse a atenção, resolvi o problema com um pouco de graxa.

    Funcionou durante dias, mas uma chuvada torrencial deixou o risco à mostra. Tive de lhe explicar, ao que ele respondeu: 'Tenho 20 e tal anos de tropa e nunca me tentaram enganar desta maneira!'

    O grande medo de muitos jovens que estavam em Bissau eram as doenças venéreas. As enfermarias e os hospitais estavam cheios. Alguns ficaram impotentes e acabaram por se suicidar.

    Medo que talvez me tenha refreado os impulsos. Só por duas vezes estive perto de correr o risco. Um dia, fui convidado por amigos para uma visita ao pilão, local frequentado por prostitutas. Embora renitente, lá fui. Minutos antes, disse para os amigos: 'Desculpem, mas tenho que ser o primeiro.' Gerou-se uma discussão e acabei por regressar ao quartel sem dar o gosto ao corpo. Da segunda vez, o imprevisto acontece: caiu a cama, uma criança começou a chorar e perdi a oportunidade.

    A 20 de Janeiro de 1972 regressei a Lisboa num avião da Força Aérea. Ainda tenho presente o levantar voo sobre a pista de Bissalanca. Foi a primeira e última vez até hoje que viajei em tal transporte.

    Voltei a Lacete, Guimarães, onde nasci e me viria a estabelecer por conta própria. Antes trabalhei numa fábrica de cutelaria, mas percebi que o que ganhava – 2500 escudos – só dava para as despesas. Então decidi estabelecer-me. Comprava mercadorias e fornecia o comércio. Num desses contactos conheci a minha mulher. Casámos em 1973 e passei a viver na Lousã. Temos três filhos. Fui presidente do Clube Desportivo Lousanense, vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia e presidente da Associação Comercial, Industrial e Agrícola Serra da Lousã. Sou sócio-fundador da Associação de Defesa do Idoso e das Crianças da freguesia de Vilarinho.

    UM ESCRITOR DE POESIA

    Manuel Fernandes da Silva, 61 anos, nasceu em Lacete, Guimarães, e quando se casou foi morar para a Lousã, até hoje. Desde sempre que teve gosto pela escrita. Tem um livro de poesia editado – ‘Coisas da Vida’ – e está agora a trabalhar em mais dois: um sobre a sua própria experiência em Bissau, na guerra, e outro sobre Fátima. Estabeleceu-se por conta própria mas chegou a ocupar diversos cargos sociais na terra onde decidiu viver com a mulher e, chegados depois, os três filhos. Neste percurso foi mesmo vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia.

    Manuel Fernandes da Silva - Guiné 1970/72
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    Inf "Fiz parte do conhecido pelotão com sorte"

    Combateu em Angola


    No meu grupo não houve baixas mas sofremos muitas emboscadas. Numa deslocação encontramos camaradas mortos devido à explosão de uma mina.

    Estávamos no final de 1973 e já não ia passar o fim-de-ano com a família. A partida para Angola estava marcada para 28 de Dezembro. Já namorava com aquela que viria a ser a minha esposa. Custou a ir mas tinha de ser, não se podia dizer que não à Pátria. Eu era apontador de morteiro, uma arma de tiro curvo e fogo potente capaz de abater alvos desenfiados ou em contra-encosta. Tinha de regular onde a granada iria cair e mandar tudo pelos ares.

    Utilizávamos morteiros 10,7 e as principais preocupações começavam por ter uma boa posição de tiro, com facilidade de camuflagem para não denunciar a nossa posição e com rápida actuação. Era um trabalho de equipa entre o apontador e o municiador, para dar a um morteiro os correctos elementos de tiro, como ponto de pontaria, direcção, ângulo de tiro, número de tipo de granadas a preparar, espoleta a usar, carga a empregar e desencadeamento de velocidade do tiro. Disparei centenas de vezes e não sei se provoquei mortos, mas causei muita mossa.

    Éramos 33 homens no meu pelotão. Da minha região havia dois, o Avelino Brites, de Fervença, Alcobaça, e o José António, de Peniche. Entre outros, lembro-me do Abaças (Trás-os-Montes), do Elvira, que guiava as Berliers, do Cristóvão, do José Ferreira (Entroncamento), do José Serrenho (Algarve), do Freitas (Aveiro), todos soldados. Os graduados eram os furriéis Teixeira e João de Deus, e o alferes Luís era quem comandava o pelotão

    Partimos de Lisboa num avião Boeing 747 e depois de aterrarmos no aeroporto em Luanda as primeiras imagens eram de um cenário diferente ao que estava habituado – vegetação abundante, da qual sobressaíam as árvores de copa abundante. Pelas ruas sem passeios, corriam atrás de nós miúdos pretinhos, quase todos iguais.

    O calor apertava e nas camaratas enfiámo-nos debaixo dos chuveiros de água fria. O fardamento de Inverno foi trocado por calções e camisa de manga curta, que em cuecas não se podia andar.

    Os primeiros quinze dias em Angola foram passados no Grafanil, até sermos destacados para Sanza Pombo, no Uíje, no extremo norte do país. Era mesmo mato, onde tivemos guerra a sério. Todos os dias ouvíamos tiros e estávamos à coca nas casernas. Fazíamos patrulhas e vigias, e escoltávamos as viaturas de reabastecimento aos camaradas de outros postos.

    Em finais de Março de 1974 sofremos um ataque quando estávamos em Quicua. Vigiávamos um aquartelamento e de repente, do outro lado do rio Cuango, no Zaire, começaram a disparar morteiros. A maior parte caiu dentro de água e os outros causaram alguns estragos, mas ninguém ficou ferido. Ripostámos também com morteiros, sem saber se acertávamos.

    Trocávamos a cada duas semanas de sítio, entre Sanza Pombo, Quicua e Quimariamba. Numa das deslocações encontrámos camaradas nossos de uma companhia de cavalaria que tinham sido alvo de uma emboscada. Vi, pelo menos, dois soldados mortos. Foi o resultado da explosão de uma mina.

    Ao nosso pelotão nunca aconteceu nada. Não tivemos baixa nenhuma. Fiz parte do conhecido ‘pelotão com sorte’, como nos designávamos. Já estávamos saturados de estar no meio do calor, a comer todos os dias massa e arroz e cheios de saudades da Metrópole. Receber uma carta era uma alegria e dava-nos mais ânimo.

    No mato não sabíamos o que se passava em Portugal, mas ficámos logo a saber que tinha havido a Revolução dos Cravos. Os turras, que dantes eram o nosso inimigo, já não eram os nossos adversários, mas ainda andámos alguns tempos com a espingarda aos ombros e com olhos de desconfiança.

    Depois do 25 de Abril de 1974, as operações cingiam-se a acções de reconhecimento e uma das ocorrências mais marcante foi quando caiu uma avioneta que transportava o correio, que aterrou mal na areia e partiu uma roda, em Quimariamba. O piloto, que ia sozinho, ficou ferido.

    Os últimos seis meses em Angola foram passados em Luanda, na Fortaleza de São Miguel. No penúltimo dia de permanência fomos apanhados no meio de um tiroteio entre o Movimento Popular de Libertação de Angola e a Frente Nacional de Libertação de Angola. Não era nada connosco mas tivemos de andar debaixo de carros para escapar aos tiros.

    Estava a ver que era na despedida que as coisas iam correr mal. Mas todo o pelotão, tal qual como chegou a Angola, regressou à Metrópole, são e salvo. Desta vez de barco. Partimos a 9 de Maio de 1975 e chegámos a Lisboa a 22 do mesmo mês.

    DE SOLDADO A CAMIONISTA

    António da Fonseca Garcia é natural das Caldas da Rainha. Fez a quarta classe e antes de ingressar na vida militar era empregado de balcão, tarefa que desempenhava desde os 13 anos. Quando regressou de Angola, tornou-se motorista de pesados na empresa de produção de cimento Cimpor, até se reformar. É dono do café Favo de Mel, nas Caldas da Rainha. Casou-se com 24 anos e tem dois filhos, de 19 e 31 anos, e uma neta de 16 meses. Na guerra cruzou-se com António Feliciano, que viria a ser seu cunhado. Na altura namorava com a irmã da sua futura esposa.

    António Garcia - Angola 1973/75
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    Inf "Chegámos a usar mais o sabre do que as balas"

    Queriam roubar armas


    Ataque. Uma emboscada a caminho de Nanbuangongo terminou com vários mortos e feridos. A defesa da artilharia pesada foi feita corpo a corpo.

    Apresentei-me no Regime de Infantaria número 5, nas Caldas da Rainha, a 3 de Outubro de 1960. Depois de terminada a recruta, em Abril de 1961, fui mobilizado para a Índia, assim como outros conterrâneos e um companheiro, o ‘Zé’ Carvalho, de Sever do Vouga. Ainda antes, frequentei a Escola de Cabos para Escriturário e aí o primeiro-sargento Coelho, amanuense do regimento, disse-me que se tivesse boa classificação era capaz de não ser obrigado a ir para a Índia. E assim foi. Fui o melhor do regimento com uma pontuação de 17, 6 valores. Mas, não sabendo ainda da nota, e após o curso, fui a casa passar oito dias de férias para me despedir da família. De regresso às Caldas, eu e o Carvalho fomos chamados ao Comandante do Regimento, o coronel Fernando Viotti de Carvalho, que nos informou que já não íamos para a Índia porque tínhamos sido os melhores do curso. Nesse dia foi uma alegria: bebemos e comemos até não poder mais! O entusiasmo durou pouco. Uns dias depois estávamos de novo com a farda amarela, a velha Mauser e o sabre, preparados para partir para Angola.

    Fomos motivados, com a noção de que íamos cumprir um dever. Em Lisboa, integrámos o Batalhão de Caçadores número 114, Companhia 116, comandada pelo capitão Fernando Franco Bélico de Velasco, sendo o comandante do batalhão o tenente-coronel Oliveira Rodrigues e o segundo-comandante o major Balula Cid. Subimos as escadas do navio ‘Niassa’ a 28 de Maio de 1961. Era o dia 9 de Junho de 1961 quando o velho barco atracou no cais de Luanda.

    Instalámo-nos no liceu feminino que estava em construção. Dali partimos para Mabubas. A 22 de Junho seguimos rumo ao rio Lifune. Quando chegámos, a ponte estava destruída e, enquanto o pelotão de engenharia ficou a remediar a situação, nós tivemos que passar o rio a pé (por sorte havia pouca água). Na outra margem, deparámo-nos com um enorme laranjal, comemos e levámos tantas laranjas quantas cabiam nos sacos. Prosseguimos marcha com destino à povoação de Quicabo, mas como a chegada da noite estacionámos em Quanda Maua. Na manhã seguinte, a Companhia 117 passou a ponte entretanto reparada, e veio trazer-nos café e pão com bife. Quando demos a primeira dentada na carcaça, as lágrimas caíram-nos pela cara abaixo porque tínhamos os dentes talhados de tantas laranjas termos comido. Foi nesse momento que um soldado da 117 foi atingido de surpresa. Gerou-se a confusão. Os turras saíam do capim como se fossem formigas. O combate durou umas horas, mas, felizmente, só perdemos aquele camarada.

    A 7 de Agosto sofremos o maior ataque de toda a comissão, quando seguíamos viagem rumo a Nanbuangongo, poucos metros antes da fazenda Quissacala. Foi de tal modo que chegámos a usar mais a Mauser com o seu sabre do que com balas. A preocupação dos turras era saltarem para dentro dos carros e apoderarem-se das armas pesadas. Foi uma luta corpo a corpo que nos custou vários mortos e muitos feridos. Passado este doloroso momento, acampámos na fazenda de Quissacala. Foi o tenente Zilhão que, ao fazer o reconhecimento do local, se deparou com uma chacina incalculável: havia corpos espalhados por todas as trincheiras. Escolheu o corpo de um superior e gritou: 'Um voluntário que corte a cabeça a este terrorista que avance!' Devido ao ódio e à raiva de tudo aquilo que estávamos a passar e a viver, eu dei o passo em frente para cumprir o desejo do tenente. Usei a minha catana, só que o corte não era famoso. Foi então que vi uma catana parecida com uma navalha de fazer a barba de tão bem que cortava. Tive que a usar e acabei por ficar com ela. Deixámos Quissacala e seguimos rumo a Quipetelo onde fomos recebidos com um ataque. Morreram três dos nossos camaradas de luta, os últimos que perdemos na guerra porque daqui partimos para o Sul de Angola onde tivemos como missão manter a ordem. Regressámos no ‘Vera Cruz’ e a 14 de Julho de 1963 chegámos a Lisboa.

    PREPARA LIVROS DE MEMÓRIAS

    Arlindo Gomes é natural de Castelões, Vale de Cambra. Como o pai era proprietário de um dos maiores talhos da região, entrou no negócio aos 11 anos. Foi aí que se tornou exímio cortador de carnes. Casou três meses depois de regressar do Ultramar e teve três filhos. Hoje vive no centro de Vale de Cambra e passa grande parte do tempo numa garrafeira, pertença dos filhos. Dedica-se também aos dois netos, de dois e oito anos, e à escrita. Além de colaborar com vários jornais, está a preparar dois livros: um de memórias de guerra e uma biografia.

    Arlindo Gomes - Angola, 1961/1963
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    Inf "Se demos um tiro foi apenas para caçar"

    Em Angola sem combater


    Sorte. Passámos por muitas dificuldades mas nunca estivemos frente a frente com o inimigo. Regressaram todos os camaradas da companhia.

    Numa travessia pelo meio da mata, desde o nosso aquartelamento até à Companhia de Comando e Serviços (CCS), a uns 30 quilómetros, perdemo-nos e ficámos sem comida – tínhamos atirado fora as rações de combate, porque não gostávamos delas. Chegámos a um ponto em que nem sequer havia comunicações, o nosso rádio não funcionava, e dissemos uns aos outros que se o inimigo aparecesse até à mão nos agarrava. Alguns camaradas nem reacção teriam para puxar pela espingarda, quanto mais disparar.

    Fartámo-nos de andar às voltas até que, mais tarde, já cheios de fome, demos com o caminho, mas o objectivo – ir ter com a CCS –, já só eu e poucos mais conseguimos cumprir. Os outros ficaram na berma da estrada, encostados à espera de ser recolhidos, a desfalecer e com fome, para regressarem ao nosso aquartelamento, em Luvaca. Éramos uns 30 soldados e todos sobreviveram. Naquele dia tinha-se sabido do 25 de Abril de 1974.

    Este episódio aconteceu passado mais de um ano sobre a nossa chegada a Angola, em Fevereiro de 1973. Nesse dia subimos para as viaturas Mercedes e também fizemos muitos quilómetros. Enchemo--nos de andar. Ficámos no meio da mata, em Luvaca, a 60 quilómetros de Maquela do Zombo e a 90 de São Salvador do Zaire. Estive em muitas zonas de Angola, porque andávamos a escoltar os carros civis que levavam mantimentos para as cidades e aquartelamentos (Lobito, Luanda, Nova Lisboa, Salazar e Carmona) e mais tarde chegámos a repatriar pessoas que estavam nas matas.

    Nós, os soldados, passávamos o tempo como podíamos, depois das horas de serviço, às vezes a jogar à lerpa – tal como os oficiais, mas houve um dia um destes que nos mandou de castigo para a mata. Fizemos aí uns dois quilómetros antes de o nosso alferes de grupo, o Rocha, nos mandar acampar. Só nos pediu para não fazermos fogo, nem grande barulho, para não sermos detectados. Castigos não era com ele, mas não havia ninguém melhor para cumprir as missões que lhe eram destinadas. Fazia tudo para as cumprir.

    Na mata, se demos um tiro, foi para caçar, ou, às vezes, para ver se as armas estavam operacionais – e, neste caso, íamos para uma barreira disparar. Nunca estivemos envolvidos em combates. Uma vez apareceu-nos um preto, mas para se entregar. Nós tínhamos informadores do Congo e, um dia, disseram-nos pelo rádio que o pessoal de Luvaca, que andava a escoltar os MBL – os carros civis –, ia ser atacado. O inimigo ameaçou fazer uma emboscada, mas, se lá estava, ficou caladinho. Nesse dia, as nossas viaturas eram em maior número do que o habitual e durante todo o percurso fomos acompanhados por dois bombardeiros.

    Portanto, frente a frente com o inimigo nunca estivemos, mas vivi um momento engraçado. Tínhamos dois voluntários [informadores] e íamos levá-los à fronteira do Congo, para recolherem informações, quando fomos surpreendidos por uma gazela que saltou à frente do primeiro carro – num reflexo do momento foi logo aberto fogo. O grupo que fomos render tinha-nos dito que já ali tinham sofrido várias emboscadas. Pensámos realmente que era um ataque e nem deixámos parar as viaturas, saltando logo de arma apontada. Um dos voluntários partiu uma perna e outro um braço, e ouviram-se gritos de que um estava morto e outro ferido.

    Uma cena dos diabos por causa de uma gazela! Em Angola não morreu nenhum camarada da minha companhia, viemos todos.

    Às vezes brincávamos com as crianças, fazendo como nas festas das nossas aldeias, quando se mandavam rebuçados e andávamos enrolados uns nos outros para os apanhar, a ver quem ficava com mais. Era assim também em Angola, quando lhes atirávamos as rações de combate, de que não precisávamos, porque não prestavam. Assim que viam passar os carros da tropa, elas já sabiam que nós lhas íamos mandar e pareciam gafanhotos a ver quem apanhava mais latas de comida.

    O serviço a partir do aquartelamento em Luvaca não era perigoso, mas em Luanda, onde passei uns dias, o terreno não era para brincadeiras. Chegávamos a sair a rastejar das casernas para a cantina, para ir tomar o pequeno-almoço. Viam-se as balas a passar por cima de nós. Um dia, também um Luanda, ia com um camarada a passear numa rua quando, de repente, vimos a montra de uma loja ser estilhaçada com um tiro que nos ia acertando. Mesmo assim, regressei sem nunca combater ou enfrentar o inimigo.

    REVOLUÇÃO ENCURTA COMISSÃO

    Após regressar, Duarte Silva Marques foi trabalhar para a Fábrica do Sabão, em Lisboa, e emigrou mais tarde para a Suíça, onde esteve vários anos. Casou e tem cinco filhos. Hoje dedica--se à agricultura. Todos os anos participa no encontro dos militares da 2.ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4214. Para recordar os 15 meses que esteve em Angola, entre Fevereiro de 1973 e Maio de 1975. A comissão era de dois anos, mas a Revolução dos Cravos fê-lo regressar mais cedo. Duarte Marques fez a recruta no Regimento de Infantaria de Viseu e a especialidade em Abrantes.

    Duarte Silva Marques, Angola (1973/75), Batalhão de Caçadores 4214
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    Inf “Camarada salvou-se ao pendurar o casaco"

    A minha guerra: Farda atingida a tiro


    Condutor. Seguia quase sempre a abrir ou a fechar as colunas militares. Eram lugares perigosos, mas conseguiu regressar sem ser ferido.

    Embarquei a 25 de Julho de 1968 no navio ‘Niassa’. Eu e os meus camaradas partimos a pensar que íamos no lugar dos 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea nº 1 de Queluz que morreram num incêndio da Serra de Sintra em 1966. Em Angola havia uma lápide em sua homenagem. Chegámos 2 de Agosto de 1967 e seguimos num comboio de vagões de transportar gado para o Grafanil, a 10 quilómetros de Luanda. Mais tarde, regressámos à cidade e ficámos seis meses na Bateria de Artilharia Antiaérea.

    O único incidente aconteceu uma semana depois num treino. Estávamos a receber instrução com tiro real junto dos Comandos e o 1º cabo Jorge, de Santa Iria da Azóia, da minha companhia, foi atingido por uma bala. Ficou ferido na virilha, durante um exercício de simulação de um ataque do inimigo: atrasou-se a saltar do carro e um disparo de espingarda G3 acertou-lhe. Teve de ser operado.

    Mas foi só após seis meses de comissão em Angola que começou a guerra para nós. Até então os patrulhamentos decorreram sem problemas. Mudou tudo com a substituição do capitão Carrapatoso pelo capitão Nelson Matos, da Marinha, que começou a oferecer o pessoal para integrar colunas e fazer centenas de quilómetros no meio do mato, onde estava o inimigo.

    Aí passámos a ser atacados e estive duas vezes debaixo de fogo inimigo, mas não fui ferido, apesar de ser condutor de auto-pesados, uma tarefa que me expunha bastante. Eu conduzia um Unimog 404, a gasolina, a que fora adaptado um grande rádio--transmissor e uma metralhadora ligeira. Também conduzia berliers e jipes. Por norma, andava na cabeça da coluna. Ou seguia em primeiro ou em último lugar.

    Em finais de Março de 1969, o capitão Nelson Matos foi pela primeira vez connosco para o mato, quando fomos buscar um grupo de negros das nossas tropas, destacado para uma região acima da Fazenda Margarido, a Norte de Luanda. A certa altura, na ida, houve um tirito numa fazenda e o capitão atirou-se do carro, partiu um pé e um helicóptero teve de ir buscá-lo. Nunca mais voltaria a sair connosco.

    No regresso fomos apanhados numa emboscada. Quem comandava agora a coluna era o alferes Gil. Já levávamos seis horas de viagem de regresso quando apanhei o maior susto em Angola. Era de dia e estávamos no meio da picada. Primeiro ouviu-se um tiro de pistola e depois um embondeiro caiu em cima do meu carro, cortado pelos turras com fio detonante. A minha G3 ficou com o cano torcido e o volante da viatura danificado.

    Estávamos a ser atacados e os disparos vinham da mata sem que nós pudéssemos ver o inimigo. Cheguei a recear pela vida. Estivemos meia hora debaixo de fogo. Apenas ficou ferido um 1º cabo apontador que seguia na minha viatura, de origem cabo-verdiana, queimado numa mão ao mudar o cano sobreaquecido de uma metralhadora ligeira sem usar luvas.

    No meio do fogo inimigo, quis ser tão rápido a disparar que mudou o cano em brasa sem tomar precauções. Ficou com os ossos da palma da mão à vista, mas continuou a disparar. Foi hospitalizado em Luanda, recebeu um louvor e veio passar um mês à Metrópole, com viagem e hotel pagos. Ainda ficámos uma noite na picada, com os carros atascados. Foi ajudar-nos um pelotão de Engenharia, da Fazenda Maria Fernanda, com máquinas de lagartas. Em Úcua, em Novembro de 1970, o soldado Rebelo, um açoriano da minha companhia, teve uma sorte dos diabos! Estava num posto de controlo, na picada do Bom Jesus, uma zona problemática. Como fazia calor, despiu o dólmen e pendurou-o junto a um poço, e sentou-se nos degraus da capela à sombra. De repente, uma saraivada de balas atingiu o casaco. O inimigo pensava que era um militar, porque a farda dava a sensação de ser uma pessoa. Estávamos a almoçar no refeitório do quartel e fomos logo a correr quando ouvimos os tiros. Não vimos ninguém, mas o dólmen do Rebelo tinha dois tiros. Este camarada acabaria por morrer afogado, em Fevereiro de 1971, quando apanhava percebes.

    Cada dia parecia um ano. Tinha saudades da minha mulher e do meu filho, de quatro anos. Nos restantes sete meses de comissão integrei várias colunas de transportes entre Nova Lisboa e o Grafanil, mas tudo decorreu com calma. Chegou, finalmente, a ordem para voltar para a Metrópole. Regressei a bordo do navio ‘Vera Cruz, a 6 de Setembro de 1971.

    MULHER E FILHO COM 18 MESES

    Salvador dos Santos Faria reside em Nadadouro, Caldas da Rainha. Fez a 4.ª classe e, antes de ingressar na tropa, deu serventia na construção civil. Mas aos 16 anos já era operário na fábrica Alberto Horta & Irmãos, naquela cidade. Tinha 19 anos quando foi para o serviço militar. Era casado e tinha um filho com 18 meses. Tem dois netos, de 8 e 17 anos. Quando regressou, voltou para a fábrica, onde permaneceu três anos, antes de se mudar para a firma de transportes Auto-Penafiel, nas Caldas da Rainha, onde foi motorista 33 anos, até se reformar, há dois anos.

    Salvador Faria, 61 anos, vive em Caldas da Rainha, esteve em Angola (1968/71), C.ª 2425 do RAF de Queluz
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    Inf "Dei muita alegria aos meus camaradas"

    A Minha Guerra: Serviço Postal Militar


    A minha vivência na Guerra Colonial começou a delinear-se no dia 20 de Outubro de 1969, quando iniciei a instrução militar básica no Campo de Tiro da Serra da Carregueira, na Venda Seca, Belas. Foi em casernas de estilo ‘bidonville’ que passei o Inverno e, enquanto lá estive, mudei o beliche de sítio sei lá quantas vezes para fugir às goteiras que eram mais do que muitas em dias de chuva. Mas os pormenores não se ficavam por aqui: as casas de banho ficavam ao meio da caserna e por terem sido mal construídas estavam mais tempo entupidas do que operacionais.

    No final da recruta fui para Leiria, para o Regimento de Artilharia (RAL4), tirar a especialidade de escriturário. Obtive 12,98 valores de classificação, o que considero um bom desempenho e passei a ser o cabo escriturário. Fiz o estágio na Escola Prática de Engenharia de Tancos, onde recebi a ordem de mobilização para integrar o Batalhão de Cavalaria 2923, com destino à província de Cabo Delgado, em Moçambique. Antes de partir para África, ainda fiz a instrução de aperfeiçoamento profissional no Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida.

    Saímos de Lisboa no navio ‘Pátria’, no dia 5 de Agosto de 1970. Chegámos a Lourenço Marques a 21 desse mês e desembarcámos em Porto Amélia no dia 1 de Setembro. Fomos mandados para Macomia, uma localidade com a categoria de vila, que fica no planalto da Serra de Mapé.

    Foi neste planalto que construíram o aeródromo onde, durante 18 meses, me deslocava com muita frequência, por ter o cargo de delegado do Serviço Postal Militar. Sempre que o avião ‘Piper’ aterrava, lá tinha de ir recepcionar as malas do correio, coisa que eu fazia sem nunca, ou quase nunca, temer a surpresa de uma emboscada. Na verdade, apesar da área estar sob vigilância permanente por parte das forças da administração civil, ainda tivemos de actuar uma ou duas vezes com umas rajadas, depois de o piloto ter alertado para o que estava a acontecer na pista, pois andavam indígenas em correria pela zona.

    Por outra vez, também fomos avisados pelo piloto que vinha aos comandos da aeronave para movimentos suspeitos num dos socalcos do planalto próximo do aquartelamento, sendo a situação resolvida com um obus da bateria de artilharia que estava de prevenção e num disparo directo acabou com a ameaça.

    Na consoada do NATAL de 1971, demos conta de um ataque de morteiro que visava o centro das nossas instalações. Dado o alarme, tudo correu para as posições de defesa: a minha era na base de um morteiro de 80 mm, como todos os elementos da Secretaria da Companhia de Comando e Serviços. Com dois ou três disparos conseguimos calar os nossos antagonistas. Embora em plena guerra, graças à função que me foi atribuída, não tive qualquer confronto directo com o inimigo. Estava ainda a fazer o estágio na Escola Prática de Engenharia de Tancos quando me foi atribuída a função de ir buscar o correio. Todos os dias havia sacadas e sacadas de ‘abraços e beijinhos’ para distribuir pelos meus camaradas e superiores.

    Na viagem para Moçambique, que se prolongou por 21 dias, no ‘Pátria’, o pessoal da escrita – em que eu me inseria – teve a sorte de ficar alojado em cabinas localizadas mesmo no vértice da proa, o que nos deu uma melhor qualidade de vida durante a permanência no navio.

    Hilariante foi o episódio com a duplicadora que recebemos no depósito geral de adidos e era peça de destaque numa secretaria, pois a ordem de serviço diária é um documento de importância vital para o bom funcionamento castrense. A peça onde era colocado o stencil, formada por uma tira de seda com terminais para aplicação nas rolagens, rasgou-se e a duplicadora ficou inoperacional. A situação viria a ser resolvida à passagem por Luanda, com a substituição da cerda danificada.

    Todo o meu tempo foi diluído na obrigação de assegurar o bom funcionamento do serviço postal militar, mesmo quando me custava fisicamente. Foi reconfortante ver a alegria estampada nos rostos daqueles que recebiam a notícia do nascimento de um filho ou sobrinho, ou a comunicação do casamento de um irmão ou irmã. Ou então quando recebiam os tão ansiados valores declarados que eram escrupulosamente vigiados e entregues na hora. Hoje estou satisfeito por ter trabalhado para o bem-estar e manutenção da moral dos meus camaradas.

    ATAQUE DEVIDO AO STRESS

    José Amadeu Pessoa de Almeida reside em Almargem do Bispo com a mulher, Rita – com quem casou em Outubro de 1982 – , e com os dois filhos. Regressou a Portugal em Outubro de 1972 e por ser lisboeta ficou pela capital, tendo arranjado trabalho na indústria gráfica, onde se profissionalizou. Já antes de ir para a tropa tinha trabalhado na área, como compositor manual numa empresa de artes gráficas. Está reformado por invalidez, na sequência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que sofreu em 1998, em parte motivado pelo stress que trouxe da guerra.

    José Almeida, Moçambique 1970/1972
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    Inf "Eu fiquei quando ia voltar pelo Natal"

    Revoltado na Guiné


    Triste. Estava para apanhar o avião a tempo de passar a quadra com a família, quando fui obrigado por um capitão a passar mais 15 dias no mato.


    Aminha guerra começou quando assentei praça na Escola Prática de Cavalaria em Santarém, para tirar o Curso de Sargentos Milicianos, no dia 6 de Abril de 1970. Após a recruta fui para a Escola Prática de Artilharia (EPA), em Vendas Novas, fazer a especialidade de atirador, a qual terminei em Setembro seguinte, no 5º lugar da classificação. Este resultado permitia-me alimentar a esperança de não ser mobilizado para a guerra. Mas acabei por partir e até vi o meu regresso ser atrasado, ao fim de quase dois anos, por causa de um capitão.

    Fiquei na EPA até Dezembro de 1970 a dar instrução a um Curso de Atiradores e, no final desse mês, fui transferido para a minha unidade, o Regimento de Artilharia Ligeira de Lisboa (RAL1). Em Janeiro de 1971, eu e 13 cabos milicianos ‘não mobilizáveis’ fomos colocados em Torres Novas, com funções administrativas, para organizarmos a documentação dos batalhões e companhias que seguiam para o Ultramar. Apesar de ir para mais longe de casa fiquei bastante satisfeito, porque era mais uma indicação de que não seria mobilizado. Pura ilusão. Em meados de Fevereiro de 1971 fui destacado para a Guiné em rendição individual, afim de substituir um furriel miliciano na Companhia de Caçadores 11 (Africana).

    Embarquei no navio Niassa a 31 de Março e cheguei a Bissau a 6 de Abril. O cenário não era nada animador, mas, felizmente, foi uma comissão de 21 meses sem grandes sobressaltos, embora logo à chegada a Nova Lamego (Gabu) – em trânsito para a minha companhia – tenha visto sete mortos, vítimas de uma emboscada a um pelotão da milícia africana. Mais tarde, quando seguia de Paunca para Paiama, integrado numa coluna auto de reabastecimento, pude perceber o perigo constante que corríamos: na noite anterior tinha chovido torrencialmente e uma mina anticarro ficou a descoberto, poupando-nos a dissabores.

    Os últimos quatro meses de comissão foram os piores, em especial ao nível psicológico. Vi partir para a Metrópole, por terem terminado a comissão, todos os brancos que faziam parte da companhia, ficando apenas eu com os seus substitutos. Nessa altura, e porque o novo comandante de companhia (o capitão Toucas) quis aproveitar a minha experiência de 17 meses, deixei de efectuar operações e dediquei-me a coadjuvá-lo na organização da companhia. Foi uma tarefa muito difícil, porque a generalidade dos meus novos camaradas não tinha vocação para integrar uma unidade africana, apesar de terem feito um estágio com esse objectivo em Bolama.

    Os militares brancos não tinham sensibilidade para lidar com os africanos, que se revoltaram com as atitudes de alguns oficiais portugueses. Nos casos mais graves chegaram a verificar-se ameaças de morte. Recordo-me de pelo menos duas situações em que fui obrigado a intervir, falando com os militares brancos e africanos para evitar consequências de grande gravidade. Mais tarde, já na Metrópole, tive conhecimento de que se verificaram problemas na companhia, precisamente pela falta de condições dos nossos militares para lidar com os africanos. Mesmo depois de terem sido os primeiros a fazer um curso de formação sobre a melhor forma de gerir estas relações.

    A poucos dias do regresso a Portugal, 23 de Dezembro de 1972, passei por uma situação que me deixou bastante revoltado. Estava em Bissau, preparado para apanhar um avião a tempo de passar o NATAL em família, quando fui abordado pelo meu capitão. Como só acabava a comissão em Janeiro, disse-me que ainda não podia abandonar a Guiné. Depois foi falar com o chefe do Estado-Maior e obrigou-me a voltar para o mato mais 15 dias. Na deslocação em coluna para a companhia, entre Paunca e Pirada, foram levantadas várias minas anticarro, o que me deixou ainda mais desvairado com a atitude do capitão, pois podia ter-me acontecido alguma fatalidade pelo caminho.

    Regressei, finalmente, à Metrópole no dia 6 de Janeiro de 1973, num avião comercial. A ansiedade do regresso era tão grande que paguei a viagem para não ter que esperar por um transporte militar.

    Passaram 37 anos. E gostava de rever alguns dos meus ex-camaradas com quem nunca mais tive a oportunidade de contactar, nomeadamente os ex-furriéis Teixeira, Freitas, Serafim, Abrantes, Barroso e Torres, o capitão Almeida, os ex-alferes Barbosa e Nelson Ribeiro e os ex-cabos Romeu, Tomás e Encarnação.

    AGORA DEDICA-SE AOS SEGUROS

    Zulmiro Vieira é natural e residente no Montijo. Completou o antigo Curso Comercial com 16 anos e empregou-se numa companhia de seguros de Lisboa, onde permaneceu até aos 44 anos. Em seguida, dedicou-se à mediação de seguros por conta própria, tendo constituído uma mediadora, em 1997, da qual ainda é sócio-gerente. Casou-se em 1974, um ano após regressar, e tem uma filha, com 27 anos. Nos tempos livres gosta de se dedicar à pesca no mar ou à caça. Aprecia também todo o tipo de publicações que estejam relacionadas com a Guerra no Ultramar.

    Zulmiro Vieira - Guiné 1971-1973
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    Inf "Casámos com duas irmãs após o regresso"

    A Minha Guerra: Cunhados em Angola


    Revolução. Soube do 25 de Abril por um camarada que ouviu na rádio. Era condutor e, apesar de ser uma função perigosa, não tive grandes problemas.

    Parti de avião para Luanda a 20 de Outubro de 1973. A minha companhia era liderada pelo capitão Manuel Pinho, de Ovar. Os quatro pelotões totalizavam 110 militares, a que se juntaram, em Angola, mais 40 africanos. Eu estava no terceiro pelotão, chefiado pelo alferes José Marques, de Loures. Seguimos para Grafanil, onde se concentrava a tropa quando chegava. Ali permanecemos uma semana até sermos enviados para Santa Eulália, uma zona de mato, onde a guerra começou em 1961.

    A minha missão, como condutor, era transportar os meus camaradas todos os dias ao mato. Partíamos do quartel para deixar um pelotão com 40 homens e regressávamos com uma escolta de 15 elementos. Também ia buscar mantimentos. Cada um dos quatro pelotões ficava um mês destacado num acampamento a 40 quilómetros de Santa Eulália. Normalmente, o alvo a atingir pelo inimigo era primeiro o condutor; por isso eu ganhava mais 500 escudos (2,5 euros), num vencimento de 1250 escudos (pouco mais de seis euros). Fui muitas vezes à frente. Se levava uma Berlier ia à frente, quando seguia numa Unimog ia ao meio ou atrás.

    Quando chegou o 25 de Abril de 1974, as notícias da Revolução foram-me dadas por um camarada do 4º pelotão, que tinha ouvido na rádio. Ninguém nos comunicou nada directamente. Mas isso não modificou em nada os nossos hábitos. Na altura já estávamos à espera da ordem para sairmos de lá, o que só se verificou quase um ano depois.

    As três baixas que tivemos na companhia deveram-se a acidentes de viação. Um dos que morreu até fazia anos no mesmo dia que eu – 3 de Julho – e tínhamos combinado ir a um bar civil para comemorar com outro camarada, que também fazia anos. O acidente aconteceu na véspera do aniversário, quando esse camarada regressava a Santa Eulália, vindo de Negage, onde tinha ido levar 40 africanos. Eu estava na escolta desde o Dange e numa curva, em Meconde, a Berlier que vinha à minha frente tombou, ficando de rodas para o ar. Um dos soldados que ia em cima teve morte imediata. Outro, o José Dionísio, da Covilhã, perdeu uma perna.

    Eu era para vir à Metrópole, mas sofri paludismo e fiquei três meses e mais uns dias de cama, fechado na caserna, em Santa Eulália. Um enfermeiro deu-me os comprimidos errados durante mais de um mês. Era só enfermeiro na tropa. A minha salvação foi um furriel que já era enfermeiro na vida civil. Porque o comprimido não fazia nada é que fiquei mais tempo de cama. Sentia frio e febre, não tinha reacção no corpo.

    Em Outubro, recebi a visita do meu amigo e futuro cunhado António Garcia. As nossas mulheres são irmãs e na altura já namorávamos com elas. Ele era soldado no Pelotão de Morteiros 5076 e estava em Angola desde Dezembro de 1973. Tinha como função apontador de morteiro e percorreu 400 quilómetros para estar duas vezes comigo, quando se encontrava em Sanza Pombo. Até mentiu às chefias dizendo que era meu irmão e foi-lhe disponibilizado um motorista. Com as namoradas só contactávamos por aerogramas. Enviei centenas – custavam dois tostões. Cartas é que eram só uma ou duas por mês, porque era mais caro.

    Em Novembro fui para Carmona. Falava-se que a tropa era só 18 meses e passávamos à disponibilidade. Havia um grupo que estava no meio do mato, todos africanos, que já tinham vinte meses de serviço e queriam passar à disponibilidade. Fecharam os graduados todos, inclusive a mulher do capitão deles, no quartel e puseram-se a caminho de Carmona para resolver o problema. Tivemos de cercar as entradas da cidade. Ninguém entrava ou saía sem autorização, mas eles aparecerem, não sei de onde, e chegaram até ao Comando 6005 , todos armados. Mas não houve nada. Passaram-se horas e conversaram com os graduados toda a madrugada, imperando o bom senso.

    Noutra altura, houve distúrbios provocados por uma companhia mobilizada de Moçambique. Havia um torneio de futebol de salão e nós tínhamos uma equipa. Armaram confusão no torneio e nos bares, e nós fomos apanhados de surpresa. A maior parte do pessoal estava à civil a ver o jogo, enquanto que eles estavam camuflados e armados com granadas. Os desacatos levaram o comércio em Carmona a fechar durante dois dias. Mas, no fim, tudo acabou por se resolver. Regressámos a 18 de Março de 1975.

    FUNDOU A SUA PRÓPRIA FIRMA

    António João Antunes Feliciano é natural de Reguengo Grande, na Lourinhã. Aos dois anos e meio foi morar para as Caldas da Rainha com os pais. Fez a 4.ª classe e, antes da tropa, foi empregado de balcão nos Grandes Armazéns do Chiado e na loja de ferragens J.L. Barros, nas Caldas da Rainha. Trabalhou na Recauchutagem Caldas, uma oficina de pneus. Foi para a tropa aos vinte anos. Quando regressou de Angola, voltou para aquela oficina, onde esteve mais oito anos, até fundar a sua própria empresa com outro sócio – a Machado & Feliciano, Lda, nas Caldas da Rainha.

    António Feliciano - Angola 1973/1975
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    Inf “Aguentei 40 pontos num braço a sangue frio”

    A Minha Guerra: Ferido em Angola


    Ainda hoje procuro o homem que me salvou de morrer quando o camião onde seguia se virou. Só sei que era um colono português.

    A recordação mais marcante que trouxe de África é de um grave acidente de viação, em serviço, que me deixou marcas para o resto da vida. Fui salvo por alguém que ainda hoje não sei quem foi, mas que gostava de voltar a encontrar, para lhe agradecer condignamente.

    O acidente ocorreu a 28 de Setembro de 1969. Tinha boas referências junto do comandante de pelotão e fui nomeado responsável pela bagagem de um transporte de mercadorias entre Nova Lisboa e Luanda. Durante a viagem, à passagem por Cela, a viatura Volvo despistou-se quando fazia uma ultrapassagem. Quando o camião capotou e se voltou, estive quase para morrer esmagado no interior, mas fui projectado pela janela para a rua. Ainda hoje acredito que sobrevivi por puro milagre.

    Fiquei gravemente ferido, com fracturas expostas e cortes profundos em todo o corpo, deitado numa barreira, à espera que alguém me ajudasse. Passaram vários civis, que me viram em agonia, mas nenhum foi em meu auxílio. Passou então um colono, com uma camioneta carregada de cimento, que, ao ver-me a esvair em sangue, colocou-me em cima das sacas e levou-me para o Hospital de Cela, onde estive internado durante um mês. Fui depois transportado para Luanda e nunca mais tive oportunidade de voltar a Cela para descobrir quem foi o homem que me salvou a vida, para lhe agradecer.

    Como sou cristão evangélico, acredito que o Deus Supremo não me deixou ficar esmagado debaixo do camião e usou este homem para me salvar a vida. Recordo--me que era magro, baixo, aparentava ter entre 40 e 50 anos, e penso que era do Norte, pois havia muitos colonos naquela parte de Angola. Ia acompanhado por alguém, penso que talvez um filho ou um empregado, mas não sei mais nada.

    Em consequência do acidente, a parte do meu corpo que ficou em pior estado foi o braço esquerdo. No hospital, fui amarrado a uma mesa enorme na sala de operações por duas freiras, uma portuguesa e outra espanhola. De seguida, veio o médico que me suturou com 40 pontos, desde a mão ao antebraço, a sangue frio, sem qualquer anestesia. A dor foi horrível. De Cela, fui transferido para o Hospital Militar de Luanda, onde recuperei e fiz fisioterapia, mas ainda fui sujeito a várias operações em Portugal, já depois da guerra. Sou deficiente das Forças Armadas, com 22% de incapacidade declarada.

    Nunca participei em acções de guerra, porque não era essa a minha função, nem a minha especialidade militar.

    Embarquei para Angola a 5 de Agosto de 1967, integrado no Pelotão de Apoio Directo (PAD) 1228, formado por 40 homens e colocado no Luso, na zona Leste do país. Como a minha especialidade era mecânica, fui encarregado de um carro-oficina que se deslocava ao mato sempre que era preciso arranjar outros veículos de combate que se tivessem avariado, ou dar apoio às colunas militares.

    Estive algumas vezes no mato, mas nunca em operações militares, e participei uma única vez num cerco, à cidade do Luso, à procura de inimigos que pertenciam aos movimentos de libertação. Nas oficinas do Luso, onde era conhecido como ‘Alcanhões’, chegaram a ocorrer rebentamentos de granadas que estavam nos porta-bagagens de veículos que vinham para reparação. Fizeram vários feridos, mas felizmente escapei sempre ileso. Embora a minha experiência de guerra se resuma a isto, ia lá deixando a minha vida.

    De Angola, onde estive até Dezembro de 1969, guardo boas e más recordações. Recordo com muita saudade a amizade e o convívio, tanto com os naturais como com famílias portuguesas que lá estavam há várias gerações. Pela minha formação cristã, contactei e conheci famílias inteiras que me receberam sempre de portas abertas. Eu frequentava as suas casas aos fins-de-semana e aproveitávamos para dar grandes passeios e conhecer todo o território, sobretudo as zonas Sul e Leste de Angola, que são lindíssimas. Ainda hoje conservo algumas amizades e o contacto é regular com camaradas ex-militares que estão um pouco por todo o País.

    Gostei tanto de África que regressei em 2000, de férias com a minha mulher. Ficámos desolados e desiludidos com o país que encontrámos. Fomos a Sá da Bandeira e Moçames – a Nova Lisboa não pudemos – e rapidamente percebemos que a guerra civil, que começou após a independência de Angola, destruiu totalmente aquilo que foi um verdadeiro paraíso.

    VINTE ANOS NA FOTOGRAFIA

    Fernando Conceição Gomes Ferra nasceu em Alcanhões, concelho de Santarém, onde cresceu e concluiu a escola primária. Antes da mobilização, trabalhou como torneiro mecânico na oficina de serralharia Barbosas, Lda, em Santarém. Devido ao acidente sofrido em Angola, esteve internado em Portugal até Agosto de 1970, tendo feito várias operações a um braço e fisioterapia. Depois tirou um curso de fotografia gráfica e trabalhou como fotógrafo durante vinte anos nas Páginas Amarelas, em Lisboa, até 2000, ano em que se reformou. É casado, tem três filhas e seis netos.

    PERFIL

    Nome: Fernando Ferra

    Comissão: Angola (1967/1969)

    Força: Pelotão de Apoio Directo 1228

    Actualidade: Hoje, aos 63 anos, em Santarém

    Fernando Ferra - Angola 1967/1969
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    Inf “Camarada ‘raptado’ perdeu-se nos copos”

    A Minha Guerra: Episódio em Moçambique


    Era radiotelegrafista e fui ameaçado de castigo por não conseguir um contacto. Mas tudo acabou em bem e com algumas histórias caricatas.

    Fui para Moçambique em 1964 à procura de melhores condições de vida. Aí fui incorporado em 1966 e fiz a recruta na Cidadela Militar de Boane, não muito longe de Lourenço Marques, hoje Maputo. Era uma vivência enorme pela quantidade de militares que ali se encontravam, havendo pessoas de todos os locais e estratos sociais.

    Em Maio, finda a recruta, fui colocado na Companhia de Transmissões em Lourenço Marques, no Agrupamento de Engenharia de Moçambique, onde tirei a especialidade de radiotelegrafista. Cinco meses depois, em Outubro, fui transferido para Vila Pery, actual Chimoio, e promovido a 1º cabo radiotelegrafista.

    Em Junho de 1967, por troca com um colega casado, fui colocado na Companhia de Caçadores de Vila de Manica, próximo da fronteira da Rodésia, hoje Zimbabué.

    Foi já em 1968 que tive os primeiros contactos com a guerra, quando a minha companhia, aquartelada no Vuende, sob o Comando de Sector do Furancungo, interveio na zona de Tete. Fizemos diversas operações, mas houve uma que me ficou na memória, que tinha por objectivo o monte Cacapante. Perdemo-nos e, ao fim da tarde, o meu comandante disse-me para contactar o comando para nos localizarem. Não fui capaz de fazer o contacto e o resultado foi a ameaça de que, se não o conseguisse fazer no dia seguinte às primeiras horas, ia ser castigado. No dia seguinte, mal o Sol se levantou, eu já estava a estender as antenas e na primeira tentativa obtive o contacto. Vieram os meios aéreos e, para surpresa geral, estávamos mesmo no objectivo. Foi rir até partir.

    Eu, como radiotelegrafista, era sempre o primeiro a saber quando havia correio em Furancungo para nós e voluntário para o ir buscar, sem nunca pensar no perigo que corria. Depois do nosso regresso a Manica, a companhia que lá ficou sofreu uma emboscada com algumas baixas e feridos nesse mesmo percurso.

    Quando cheguei a Manica tinha uma surpresa: estava mobilizado para ir mais para Norte e fui colocado em Nungo, entre Marrupa e Montepuez.

    Estive destacado em Tempué, um local muito húmido com uma vegetação luxuriante, mas todas as semanas íamos a Nungo fazer o reabastecimento de géneros alimentícios e do sempre saudoso correio. Seguíamos um percurso muito acidentado e uma das vezes levámos perto de uma semana para fazer pouco mais de uma centena de quilómetros devido às chuvas. Num local mais húmido, com uma espécie de areias movediças, uma das viaturas – um camião Berliet –, enterrou-se de tal forma que no dia seguinte de manhã só se via a parte de cima do cavalete. Quando chegámos ao destacamento já só havia grão-de-bico e atum.

    Entretanto, a companhia foi mudada para Nanlixa, na estrada de Marrupa para Mecula. Um local bastante agradável com alguma população em aldeamentos e onde havia uma única cantina – do sr. Sousa, um branco com vários filhos mestiços, que era um grande barbeiro e amigalhaço.

    Com a ajuda de uma secção de Sapadores, construímos um quartel de raiz, com boas instalações, se comparadas com o que havia. Um episódio que ficou para a história foi o chamado rapto do ‘fraca figura’, um dos sapadores. Uma noite, às tantas, chegou um camarada à parada aos berros a dizer que o tinham raptado, o que gerou um alvoroço, com toda a gente a correr para os abrigos. Um oficial, com alguns de nós, foi com uma lanterna passar a ‘pente fino’ a vedação do quartel e deu com o ‘fraca figura’ caído de bruços em cima do arame farpado. Afinal tinham estado nos copos e a bebedeira era tal que não deu com a entrada, caiu e desmaiou em cima do arame farpado.

    Nos últimos tempos em Nanlixa só fazíamos serviço ao posto de rádio. Passávamos noites inteiras a falar e a passar mensagens urgentes que colegas nossos não conseguiam transmitir. O nosso posto de rádio tinha um antiquado AN GRC-9 com amplificador, mas funcionava na perfeição, e em várias ocasiões conseguíamos falar com camaradas de norte a sul. Passámos à disponibilidade em Novembro de 1969 e fomos em coluna para Nampula. A pressa era tanta que apanhámos um voo comercial para Lourenço Marques à nossa custa, para não esperarmos por transporte militar. Apesar de tudo, foram momentos inesquecíveis e cheguei à conclusão que algo me protegeu sempre, a mim e às pessoas que estavam comigo.

    FAMÍLIA APAIXONADA POR ÁFRICA

    Manuel Costa Teixeira é natural de Castelo de Paiva, mas reside em Leiria com a mulher. Tem quatro filhos – dois rapazes e duas raparigas – o mais velho tem uma grande paixão por África e a mais velha vive em Angola. Ainda era solteiro quando emigrou para Moçambique, para trabalhar no departamento comercial de uma serração, em Lourenço Marques. Finda a tropa, continuou em Moçambique. Regressou a Portugal em finais de 1974, ficando a residir no Porto. Mais tarde mudou-se para Ourém e depois para Leiria, para gerir empresas de pavimentos de madeira.

    PERFIL

    Nome: Manuel Teixeira

    Comissão: Moçambique (1966/1969)

    Força: Diversas Companhias Mistas formadas em Moçambique

    Actualidade: Hoje, aos 63 anos, em Leiria

    Manuel Teixeira - Moçambique (1966/1969)
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