"A DOR DA GENTE NÃO SAI NO JORNAL"

Artigo de Opinião


Chico Buarque tem uma letra que diz: “a dor da gente não sai no jornal”. Lembrei-me disto após a trágica morte do Leandro que pôs termo à vida após muito tempo de violência na escola (o famoso bullying).
A sua dor deve agora ser a nossa dor, que infelizmente vem nos jornais tarde de mais. A Maddie (que não nos é nada) desapareceu. Parou o país, correu o mundo. O Leandro morreu, deverá fazer parar as nossas consciências e activar as nossas atitudes. A passividade perante a violência tornou-se tão habitual que já faz parte do nosso dia-a-dia como “normal”. Isto nunca poderá ser normal.
A violência nas escolas é uma realidade, não vale a pena negá-lo. Desvalorização da função educativa, poucas perspectivas de emprego, famílias com pouca cultura escolar, professores desmotivados, professores crispados com as políticas educativas, you name it. Não falta quase nada nas nossas escolas para que sejam autênticos cocktails de instabilidade onde aqui e ali tudo vai acontecendo. Infelizmente com poucas soluções à vista.
Falo ainda de outra violência. A violência doméstica. Continuam a morrer mulheres porque amam demais. Continuamos ainda com números que nos envergonham, se bem que qualquer número diferente de zero será sempre dizer demais.
Morreram o ano passado 26 mulheres nesta condição. Na aproximação de mais um dia internacional da mulher gostaria de lembrar estas. Porque igualdade também começa no respeito.
Há uns anos escrevi um texto por esta altura que começava assim:”Ser mulher, estar na política”. Tinha pouco mais de 20 anos, não conhecia nem marido nem filhos. Estava na política de fresco, começava a conhecer os seus caminhos, num percurso com poucas outras mulheres, que basicamente são as mesmas hoje. Descrevia as etapas e barreiras que as mulheres tinham vindo a ultrapassar ao longo dos anos. Com datas, números e estatísticas. Dizia na altura que não conseguia compreender porque não há mais mulheres na política.
Hoje pensei actualizar este texto e concluir que estamos mais ou menos na mesma, mais umas décimas de estatística, mais umas coisas conseguidas aqui e ali. E descubro que há um plano nacional e coiso e tal, com muitas folhas e assim.
O texto podia ser escrito hoje que ninguém dava pela diferença.
Para mim hoje, ser mulher é estar na política, mas é escrever este texto com o sentimento de impotência de quem vê o filho de outra desaparecer só porque é mais franzino que os outros. E ter a dor de tentar perceber que país é este…
É assim o nosso mundo? Umas vezes gira ao contrário. Outras mesmo de pernas para o ar. Pode ser melhor? Terá mesmo que ser. A política é um meio para que isso aconteça. As eleições instrumentos. Mas o fim último terá sempre que ser construir este cantinho melhor para quem fica.
Por: Carina João, Deputada do PSD na Assembleia da República e colaboradora do "Jornal Alpiarcense"
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