A cultura de beterraba açucareira, iniciada há pouco mais de uma década em Portugal, tem este ano a sua última campanha, com o fim da produção de açúcar a partir deste tubérculo na fábrica de Coruche.
Manuel Campilho, presidente da Associação Nacional de Produtores de Beterraba (Anprobe), não esconde o inconformismo e repete as críticas ao ministro da Agricultura, «que aceitou que se liquidasse esta cultura» em Portugal.

No seu entender, só por «incompetência» Portugal pode ter saído penalizado na reforma encetada em 2006 pela União Europeia no sentido de reduzir a produção europeia de açúcar em 6 milhões de toneladas até à campanha 2009/2010.

«Portugal aceitou ser tratado como um grande produtor e colocado em pé de igualdade com países exportadores como a Alemanha e a França, quando na realidade produzimos apenas 20 por cento do açúcar que consumimos», disse Manuel Campilho à agência Lusa.


«Incapacidade de previsão»

Para o presidente da Anprobe, só a «incapacidade de previsão» não permite encarar este como um produto estratégico para o país, sobretudo numa altura em que a subida dos preços dos combustíveis obrigaria a encarar a regionalização da produção.

«A beterraba era uma cultura alternativa para os agricultores portugueses, por isso nos batemos pela fábrica» da DAI, Sociedade de Desenvolvimento Agro-Industrial, em Coruche, que começou a laborar em 1997 e que implicou um investimento da ordem dos 80 milhões de euros.

Quota reduzida de 70 mil toneladas para 34 mil e depois para 15 mil

A quota de 70 mil toneladas de açúcar de beterraba atribuída à DAI foi reduzida em 2007 para 34 mil e este ano para 15 mil, tendo a empresa decidido, após autorização da Comissão Europeia, dedicar-se exclusivamente à refinação de açúcar de cana, o que obrigou a investimentos de adaptação da ordem dos 12 milhões de euros.

Numa década, os produtores portugueses conseguiram atingir níveis recorde de produção (mais de 90 toneladas por hectare, o dobro dos obtidos na campanha de 1997), sublinhou Manuel Campilho.

Na sua Quinta da Lagoalva, em Alpiarça, a colheita nos 25 hectares semeados, que começou a semana passada, perspectiva valores da ordem das 100 toneladas por hectare.

Na sementeira do Outono, esta cultura será substituída por milho e ervilha ou por girassol, dado que a DAI decidiu renunciar à quota da próxima campanha.

«A beterraba provou ser uma alternativa muito interessante», disse Manuel Campilho à Lusa, lamentando que a Alemanha e a França tenham quebrado a solidariedade que desde 1968 reinava na confederação de produtores europeus.


Mercado desorganizado

No seu entender, a reforma do açúcar decidida «unilateralmente» pela Comissão veio «desorganizar o mercado» com a abertura à importação de ramas «sem limites».

O regime de reestruturação do açúcar adoptado em 2006 pela Comissão Europeia visa reduzir a produção na União, em 6 milhões de toneladas até à campanha de 2009/2010, para níveis considerados sustentáveis.

A Organização Comum de Mercado (OCM) do Açúcar é regida, desde 1968, por regulamentos da Comunidade Europeia, que estabelecem as regras no que diz respeito a preços, quotas e trocas comerciais com países terceiros.


Ministro da Agricultura: produtores de beterraba «não têm razões de queixa»

Para o ministro da Agricultura, Jaime Silva, os produtores de beterraba «não têm razões de queixa» da negociação feita pelo Governo português.

Sublinhando o montante significativo de ajudas ao abandono da produção até 2013, da ordem dos 6,4 milhões de euros, o ministro frisou, há um ano, o facto de Portugal ter conseguido garantir a continuação da laboração da DAI.


IOL