Poeta nicaraguense Ernesto Cardenal condenado por «injúria»

O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal, de 83 anos, enfrenta actualmente a justiça da Nicarágua e o governo do presidente Daniel Ortega, ao ter sido condenado por injuriar um empresário alemão numa disputa de terras.

O intelectual nicaragüense, dissidente sandinista e considerado um dos mais importantes poetas vivos da América Latina, recebeu já o apoio de dezenas de escritores, entre os quais o português José Saramago, o chileno Antonio Skarmeta e o uruguaio Eduardo Galeano.

«Ernesto Cardenal, um dos mais extraordinários homens que o sol aquece, foi vítima da má consciência de um Daniel Ortega indigno do seu próprio passado, incapaz agora de reconhecer a grandeza de alguém a quem até um Papa (João Paulo II), em vão, tentou humilhar» em 1983, escreveu Saramago.

Numa alusão a Ortega, o escritor português acrescentou: «Uma vez mais, uma revolução foi atraiçoada por dentro».

Cardenal foi condenado no passado dia 22 a pagar uma multa de 20.000 córdobas (1.025 dólares), sob a acusação de injuriar o empresário alemão Inmanuel Zerger.

A sentença foi aplicada pelo juiz David Rojas, de Manágua, de tendência sandinista.

poeta, que entretanto denunciou perante o Centro Nicaraguense de Dereitos Humanos (Cenidh), não-governamental, estar a ser vítima de perseguição, recusa acatar a sentença, que diz ser «injusta e ilegal» e uma «vingança» de Daniel Ortega por ele, Cardenal, ter sido recebido com honras durante a tomada de posse do presidente paraguaio Fernando Lugo, à qual o governante sandinista decidiu não assistir.

O caso remonta a 2003, quando Cardenal publicou uma carta, em defesa própria, contra Zerger.

Segundo o advogado do poeta, Boanerges Ojeda, foi nessa carta que o empresário alemão se baseou para denunciar Cardenal por injúrias, porque assinalou «uma série de actos ilícitos» num litígio de propriedade no Arquipélago Solentiname, no Grande Lago de Nicarágua.

Ernesto Cardenal, ministro da Cultura no primeiro governo sandinista (1979-1990), lembrou que o juiz Rojas foi membro da extinta Segurança do Estado sandinista e que o advogado de Zerger é Ramón Rojas, o mesmo que defendeu Ortega quando este foi acusado pelo delito de violação da afilhada, Zoilamérica Narváez, em 1998.

Nascido em 20 de Janeiro de 1925 em Granada (Nicarágua), Cardenal foi ordenado padre em 1965 e em 1979, com a chegada dos sandinistas ao poder, integrou a Junta de Governo como ministro de Cultura. Seis anos depois, em 1985, foi suspenso «ad divinis» pelo Vaticano, que considerou incompatível a sua missão sacerdotal com o seu novo cargo político.

Durante a sua visita a Manágua em Março de 1983, o papa João Paulo II recriminou-o em público e intimou-o a regularizar os seus «assuntos» com a igreja.

A sua ruptura com o sandinismo ocorreu em 25 de Outubro de 1994, quando acusou o partido de manipulação por excluir, nas suas eleições internas, os militantes que apoiavam os «sergistas», como ficaram conhecidos os militantes do Movimento de Renovação Sandinista, do ex-vice-presidente Sergio Ramírez.

O partido dividiu-se então em dois sectores: os renovadores, seguidores do «sandinismo ilustrado» de Ramírez, que Cardenal apoiou, e os ortodoxos, de Daniel Ortega.

Em 2005, Cardenal foi candidato ao Prémio Nobel de Literatura e, entre outras distinções, recebeu o Prémio Rubén Darío, o mais importante das letras nicaraguenses (em 1965), a Ordem cubana «Haydeé Santamaría» (1990) e o Prémio da Paz dos livreiros alemães (1980).

Da sua obra poética destacam-se «La ciudad deshabitada» (1946), «Hora 0» (1960), «Getsemany KY» (1961), «Salmos» (1964), «Oración por Marilyn Monroe y otros poemas» (1965), «Vida en el amor» (1970), «Homenaje a los indios americanos» (1971) e «Cristianismo y Revolución» (1974).

Em 1990, publicou «Cántico Cósmico», um poema de 600 páginas.

Mais recentemente, deu à estampa «Epigramas» (2001), «Thomas Merton, Ernesto Candeal: Correspondencia (1959-1968)» (2003), «El verso del pluriverso» (2005) e «El evangelio en Solentiname» (2006).


Diário Digital / Lusa