Estudo publicado na revista "Palaios"

Descoberto um oásis do Jurássico com mil trilhos de dinossauros


A superfície acidentada está coberta de pegadas de dinossauros

A valsa não nasceu no Jurássico, mas é fácil aludir a um salão de dança com 190 milhões de anos quando se vê tantas pegadas de dinossauros juntas. Nos Desfiladeiros de Vermillion, no Norte do Arizona, já perto da fronteira com o Utah, nos Estados Unidos, geólogos e geofísicos da Universidade de Utah descobriram muitos trilhos de dinossauros, alguns deles acompanhados de marcas de caudas. O estudo foi hoje publicado na revista "Palaios".

“Terá que ter havido mais do que um tipo de dinossauro aqui”, disse Marjorie Chan, professora de geologia e geofísica na Universidade de Utah. “Era um local que atraia uma multidão, tal como as pistas de dança”, exemplifica a cientista.

Os investigadores acreditam que a atracção daquele local era a água. Há 190 milhões de anos, a Terra só tinha um super-continente chamado Pangeia. O território actualmente definido pelos Estados de Utah, Wyoming, Colorado, Novo México, Arizona e Nevada, formava um deserto maior do que o Sahara. Devido ao tamanho do continente, os investigadores acreditam que existiam ventos muito fortes que formavam dunas maiores do que as do deserto africano.

“As áreas entre estas dunas de areia podiam ter poças de água – um oásis”, explica o primeiro autor do estudo, Winston Seiler, que na altura da descoberta estava a tirar o mestrado. “Para sustentar grandes dinossauros, é provável que não houvesse só uma poça de água, mas muitas. Eles caminhavam numa rede de oásis para se alimentarem e beberem água”, diz o investigador.

A área tem mais de 3000 mil metros quadrados. Já foram estimados mais de mil trilhos de dinossauros. Pensa-se que existam quatro espécies diferentes, com vários tamanhos. “Os trilhos de tamanhos diferentes [de 2,5 centímetros a meio metro] podem querer dizer que estamos a ver mães a caminharem com os seus bebés”, refere Seiler.

Não é produto da erosão

Marjorie Chan visitou pela primeira vez o local em 2005 e pensou que as marcas deixadas na rocha arenítica tinham sido formadas a partir da erosão do vento. Mas na altura a investigadora suspeitou de algo mais, “eu sabia que isto não era toda a história, havia uma alta concentração de marcas e não existiam em mais local nenhum na região”.

Quando em 2006 Winston Seiler visitou o local, o investigador percebeu do que se tratava. “Depois de caminhar pelo local durante cinco minutos, percebi que eram pegadas de dinossauro”, disse.

Vários argumentos deram força à teoria: o tamanho dos trilhos é o indicado para animais grandes e as pegadas estão limitadas a uma única camada rochosa; encontraram-se quatro tipos diferentes de trilhos que incluíam marcas de garras, dedos e calcanhares; as marcas tinham uma orientação, o que indica uma direcção na caminhada.

Os trilhos de cauda que a dupla encontrou tornam o local ainda mais especial, porque não se conhecem muitas marcas destas no mundo. “Os dinossauros não costumavam andar a arrastar as caudas”, diz Seiler. As marcas têm cerca de seis centímetros de largura e prolongam-se até mais de sete metros. Segundo os investigadores, foram feitas por dinossauros do tipo dos saurópodes – os que se movem em quatro patas, são herbívoros e têm pescoços e caudas enormes.

Os trilhos não deram informação suficiente para se conseguir identificar as espécies certas de dinossauros. Um do tipo de pegadas pertencia a um animal parecido com o carnívoro Tyrannosaurus rex, mas mais pequeno, com o comprimento entre 4,8 e seis metros. Outro trilho seria de um dinossauro que não ultrapassava os 30 centímetros de altura e um terceiro trilho de outro dinossauro que não chegava aos quatro metros de comprimento.

Depois de os dinossauros terem “dançado” naquela região, a superfície foi coberta pelas dunas que estavam em constante movimento. Posteriormente as rochas que se formaram foram sendo erodidas até que as pegadas ficaram visiveis. Eventualmente, a erosão também vai apagar as pegadas.

Esta descoberta alterou a concepção que Marjorie Chan tinha deste local. Em vez do deserto "vasto, seco e inabitável” que a geóloga julgava existir, agora compreende que existiram "muitas variações, e houve períodos em que os dinossauros viveram aqui”.


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