Tejo: Nascente tem pouca água para assegurar transvaze

O governo da região espanhola de Castela La Mancha revelou quarta-feira que a nascente do rio Tejo tem, actualmente, menos água que a do Segura, num momento em que o transvaze entre os dois cursos é objecto de polémica.

Os dados foram divulgados pela porta-voz do governo regional, Isabel Rodríguez, salientando que os embalses na cabeceira do Tejo têm, actualmente, 42 hectómetros cúbicos menos que no ano passado, enquanto no Segura há 21 hectómetros cúbicos mais que há um ano.

Em termos percentuais, a cabeceira do Tejo tem as reservas a 12,7% da sua capacidade, enquanto as do Segura atingem os 15%. Dados que justificam, na sua opinião, a defesa que Castela La Mancha tem feito do fim do transvaze, uma questão que chegou a incluir na proposta de novo estatuto de autonomia, um documento que por isso causou polémica e que está actualmente em debate parlamentar.

Isabel Rodriguez criticou o facto da posição de Castela La Mancha ter sido tão contestada, considerando que «parece nunca ser o momento adequado para se falar da água» dos habitantes da região. A porta-voz afirmou que o seu governo continua a acreditar que todos têm direito ao acesso à água, mas os habitantes de Castela La Mancha devem ter interesses prioritários nos recursos da sua própria região.

A polémica proposta de terminar o transvaze entre o Tejo e o Segura em 2015, contida no Estatuto de Autonomia de Castela La Mancha deve ser chumbada devido a um acordo político. Os dois maiores partidos, PP e PSOE, terão já chegado a acordo para retirar esse tema do estatuto, argumento que a água é uma competência nacional e que, por isso, transcende textos regionais, como os estatutos de autonomia.

O estatuto de autonomia de Castela La Mancha foi aceite para tramitação parlamentar na passada semana, relançado a polémica sobre a gestão da água em Espanha e sobre o transvaze Tejo-Segura em particular. O presidente do governo de Castela La Mancha, José Maria Barreda, chegou mesmo a ameaçar retirar o estatuto do parlamento se o texto fosse alterado.

«Água para todos sim, água para tudo não», insistiu Barreda, reiterando que a reforma proposta «não é contra ninguém» nem contra «nenhuma região». Segundo este responsável, no Tejo «não há água suficiente para todos e tudo e haverá menos no futuro», uma opinião «unânime» do parlamento regional, que votou e aprovou a reforma do estatuto.

Contestado e polémico, o transvaze é alimentado por duas das 14 barragens que o Tejo tem em território espanhol - nomeadamente as de Entrepeñas e Buendia, na província de Guadalajara. O projecto, concluído em 1979, insere-se no Plano Nacional de Obras Hidráulicas, com as autoridades a considerarem-no vital para as populações do sudeste de Espanha, «uma região ideal para a agricultura», mas marcada pela «escassez da água».

Hoje, dezenas de milhares de hectares de produção agrícola (regadios) são abastecidos directamente pela água do transvaze. Organizações ambientais, como o World Wild Found for Nature (WWF), sugerem porém que a água vai mais para o abastecimento de cidades e urbanizações turísticas que zonas de regadio.

Para a Confederação Hidrográfica do Tejo o transvaze continua a ser «um elemento fundamental» do desenvolvimento da região mediterrânea do sudeste espanhol». No entanto, a possibilidade do transvaze garantir a transferência de 600 hectómetros cúbicos por ano «considera-se hoje inalcançável».

Desde o início da década de 80 e em média, o Segura recebe anualmente 350 hectómetros cúbicos. O transvaze é hoje contestado pela região de Castela La Mancha e por associações ambientalistas, tanto de Espanha como de Portugal, que exigem novos critérios para cálculos de desvios de água. Ao mesmo tempo, argumenta que o Tejo vive uma situação «insustentável» e que nem sequer estão a ser respeitados os caudais mínimos ambientais, naquele que é o rio mais importante da Península Ibérica.


Diário Digital / Lusa