Estudo conclui que afinal a culpa pelo aumento das temperaturas nos Pólos é nossa


Até há pouco tempo não havia resposta para a pergunta: por que estão a subir as temperaturas na Antárctica e no Árctico? Se havia candidatos a culpados, como o aumento da intensidade do Sol, não existiam certezas científicas. Um estudo publicado ontem na revista “Nature Geoscience” garante que, afinal, as actividades humanas são a origem do problema.

A equipa internacional de oito investigadores – do Canadá, EUA, Reino Unido, Japão e Irlanda - diz ter preenchido o vazio no conhecimento científico sobre este aspecto das alterações climáticas, depois de uma análise detalhada das variações de temperatura nos dois Pólos. Pela primeira vez a culpa é atribuída, directamente, às actividades humanas.

Os cientistas compararam os dados com dois modelos climáticos: um assumiu que não tinha existido nenhuma influência humana e o outro assumiu o contrário. O modelo que funcionou mais perto da realidade foi o segundo, que incluiu a queima de combustíveis fósseis e a destruição da camada do ozono. “Descobrimos que as alterações observadas nas temperaturas [dos dois pólos] não são consistentes com a variabilidade climática natural”.

“Conseguimos identificar claramente uma impressão digital humana nos dados observados. Já não podemos continuar a dizer que foram as variações naturais que originaram as mudanças que estamos a ver no sistema climático”, acrescentou. As consequências são de vária ordem: alterações na biologia polar, nas comunidades indígenas, no equilíbrio das plataformas geladas e no nível do mar.

“No mais recente relatório do IPCC [Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, estrutura científica de referência], por exemplo, não era possível fazer uma constatação sobre a Antárctica porque ainda não havia estudos feitos nessa altura”, explicou à BBC online Peter Stott, um dos cientistas envolvidos no estudo e investigador no britânico Met Office.

“O nosso estudo está a fechar algumas lacunas no último relatório do IPCC”, comentou Phil Jones, director da Unidade de Investigação Climática na Universidade de East Anglia. “Mas penso que continua a haver um grupo de pessoas, incluindo alguns políticos, que está relutante em aceitar as evidências e fazer alguma coisa até que nós digamos que um determinado acontecimento, como umas inundações ou uma vaga de calor, foi especificamente causado pelos humanos”, desabafou.

“Enquanto não descermos a uma escala de acontecimentos menor, tanto no tempo como no espaço, haverá quem continue a questionar as provas”.

No ano passado, o IPCC apresentou provas de que o aumento médio das temperaturas globais do planeta se devia, principalmente, às actividades humanas e não a processos naturais como o aumento da intensidade do Sol. Mas na altura ainda não existiam dados suficientes para aplicar esta tese às regiões polares. Os cientistas já suspeitavam que fosse isto o que estava por detrás do degelo no Árctico mas as variações de temperatura na Antárctica ainda eram difíceis de interpretar. De facto, o relatório do IPCC concluiu que a Antárctica era o único continente onde a origem antropogénica das alterações climáticas ainda não tinha sido detectada.



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