Um médico alemão, Gero Hütter, descobriu uma possível solução para a infecção do VIH, ao transplantar medula usando um dador com uma mutação rara que bloqueia a proteína CCR5. O doente não tem sinais do vírus há 600 dias



Muitas descobertas são feitas por acaso e o exemplo de um homem que deixou de estar infectado com o vírus VIH pode ser uma dessas situações. O doente foi submetido a um transplante da medula e deixou de mostrar sinal do vírus. A notícia surgiu pela primeira vez no início do ano, mas a passagem da barreira dos 600 dias sem infecção mereceu um artigo de fôlego num jornal importante, o Wall Street Journal.

O doente americano, de 42 anos, tratado em Berlim pelo hematologista Gero Hütter, era VIH positivo e tinha leucemia. O médico alemão usou, no transplante, medula óssea de um dador com uma mutação que impede a proteína CCR5 de aparecer na superfície das células, algo que trava a propagação do vírus VIH, o qual se liga à proteína para estabelecer contacto com as células onde se irá reproduzir.

Investigações anteriores tinham determinado que cerca de 1% dos europeus possuem a referida mutação de ambos os pais, o que os torna imunes à infecção. Em outras populações, a mutação é extremamente rara ou inexistente.

O caso do doente do dr. Hütter, a medicação para a sida foi interrompida após o transplante, pois temia-se que os remédios levassem à rejeição da nova medula. O caso está ainda sob discussão científica, pois a doença não voltou a manifestar-se, o que também se poderá explicar pelo tratamento anterior, que envolveu radiação para matar as células infectadas.

Mesmo que a radiação anterior não explique a cura, o potencial tratamento mata um terço dos doentes e não haveria dadores em número suficiente. Alguns críticos sustentam que o vírus estará no corpo do paciente, embora sem capacidade para atacar células que se tornaram resistentes.

Pode ter ocorrido outro exemplo, em 1989, mas não se sabe se o transplante tinha a mutação que inibia a CCR5. Esse doente deixou de ter VIH, mas morreu de cancro 47 dias depois da operação. Alguns cientistas acreditam que os dois casos indicam esperança e esperam reavivar técnicas de terapia genética, desenvolvendo vírus modificados que podem bloquear a CCR5.



DN