Por André Balaio

Ainda lembro do dia em que nos mudamos para aquele apartamento. Fevereiro de 1988. O prédio era bonito, muito antigo, mas bem conservado, pintado de branco, com um quintal cheio de árvores na parte de trás. Eram apenas seis apartamentos. Nós éramos os únicos jovens a morar ali. De resto havia pessoas idosas, casais de meia-idade ou recém-casados. Minhas irmãs, mais comunicativas do que eu, logo fizeram amizade com um casal de velhinhos que moravam ao lado. O Espinheiro é um bairro tradicional do Recife, onde se concentram velhas casas e sobrados, e prédios de várias épocas em ruas arborizadas – que chegam às vezes a impedir a passagem do sol, deixando as ruas escuras mesmo com o sol a pino.


Após alguns meses de pura normalidade, aconteceu o primeiro fato estranho: ao entrar em casa vindo da faculdade, me deparei com minhas duas irmãs e uma amiga rezando na sala, abraçadas e tremendo de medo. Segundo elas me contaram, estavam vendo TV quando a amiga percebeu que havia mais uma pessoa na sala. Uma mulher jovem em pé perto do espelho de parede nada falava e observava as três garotas com ar solene e levemente risonho.


A amiga das minhas irmãs tentou avisá-las e ficou apontando para o canto da sala onde estava o mal-assombro, mas simplesmente as palavras não saíam. Depois de alguns minutos, a tal mulher desapareceu. Minhas irmãs não perceberam a inesperada visita. Elas lembram, porém que sentiram algo diferente na hora, como um vento frio que faz prender a respiração.


Comentamos este fato com os vizinhos. Os velhinhos não pareceram se assustar. Pelo contrário, sorriram e comentaram que de fato coisas estranhas aconteciam naquele edifício. Alguns anos antes, uma mulher que morava no andar térreo havia morrido num acidente de automóvel numa rua próxima, e seu fantasma às vezes era visto no prédio. Seria ela a nossa visitante?


Outra noite, minha irmã do meio chegou chorando em casa. Ofegante, ela mal conseguiu falar. Disse que havia visto um homem enforcado na garagem. Mas que a imagem desvanecera em segundos. Descemos correndo, eu e minha outra irmã, para ver se havia algum vestígio. Nada. Tudo aparentava a mais profunda normalidade. Fui ao apartamento dos simpáticos velhinhos, para contar o fato e saber se eles tinham alguma informação a respeito. O marido me contou que cerca de dez anos antes, um zelador havia se suicidado pendurando-se por um cinto na viga metálica da garagem. Exatamente como minha irmã havia visto!


O prédio tinha um vigia que passava a noite acordado, sentado na parte de trás próxima à garagem. Uma vez, noite alta, ele viu uma mulher de cabelos lisos e negros trajando um vestido branco e vagando pelo quintal. Depois o coitado me contou que pensara que fosse minha irmã! Mas achou estranho um morador por ali àquela hora. Por isso, chamou pelo nome dela, e se levantou para ir ao seu encontro. A mulher começou a andar em direção à entrada de serviço. O vigia percebeu então que não se tratava da minha irmã, apressou o passo, entrando também por aquela porta. Subiu as escadas, vasculhou toda a área e nada. Nem sinal, nem pegadas. Nada.


Uma vez de madrugada, quando minhas irmãs voltavam de uma festa, elas viram um homem saindo do prédio. A princípio, tiveram medo que fosse um ladrão. Mas os trajes antigos e a bengala que o cidadão usava indicaram que a figura podia não ser deste mundo. Elas ficaram observando-o sair pela calçada, até que, poucos metros adiante, o homem desapareceu.


O que me deixou ainda mais interessado nesta estranha particularidade do edifício, foi que pessoas que não sabiam desta "carga" também percebiam coisas estranhas. O irmão da nossa empregada foi visitá-la pela primeira vez, e viu uma mulher saindo do seu quarto. Perguntou: "Aqui mora gente morta, não é?”.


O assunto já me interessava na época, e marquei uma "reunião" com meus amigos no prédio. Ficamos acordados a noite inteira. Ouvimos ruídos, que podiam ser fruto da nossa excitadíssima imaginação, e só. Parece que as almas penadas escolhem as pessoas para quem vão aparecer. E por um motivo que eu não sei não nos escolheram.


Morei por cinco anos ali e nunca vi nada, é bom que se diga. Mas agora fico pensando naquele inocente casal de velhinhos. Seriam tão inocentes assim? O que aconteceu com eles depois? Será que, de uma forma ou de outra, eles ainda continuam a morar naquele prédio mal-assombrado?



o recife assombrado