A Parada da antiga Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, vai ser palco esta sexta-feira à noite, de uma reconstituição histórica dos momentos que antecederam o 25 de Abril de 1974, através de um espectáculo multimédia.

Um enorme palco foi montado nos últimos dias na Parada da EPC para um espectáculo que o presidente da Câmara Municipal de Santarém, Francisco Moita Flores (independente eleito pelo PSD), promete ser "uma grande festa popular".

Embora ainda decorra o processo de aquisição das instalações da EPC pela autarquia ao Estado, o município está já na posse do espaço, pelo que decidiu centrar aí as comemorações do 25 de Abril.

"Este ano a celebração será mais forte e mais simbólica porque vamos usufruir do espaço da Escola Prática e devolver este pedaço de memória às pessoas, celebrando aqui o início do processo democrático", disse Moita Flores.

Depois do jantar que reunirá no refeitório da antiga EPC os oficiais do então Movimento das Forças Armadas, hoje reunidos na Associação 25 de Abril, vão ser recriadas, na Parada da EPC, cenas anteriores à Revolução de 1974 e as operações militares que levaram ao derrube do regime, numa inevitável evocação de Salgueiro Maia, que comandou "a força militar que entregou o poder ao povo".

Foi nesta parada que Salgueiro Maia comunicou aos 240 militares da EPC a operação em curso: "Há diversas modalidades de Estado: os Estados socialistas, os Estados corporativos e o Estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui".

Os militares da EPC participaram no cerco aos Ministérios, no Terreiro do Paço, e, já ao fim da tarde, forçaram a rendição do chefe do Governo, Marcelo Caetano, no quartel do Carmo, tendo sido recebidos em apoteose pela população no regresso a Santarém.

Com a mudança da EPC para Abrantes, em Novembro de 2006, as instalações do quartel de S. Francisco entraram na lista de património a alienar pelo Estado.

"Quando começaram as negociações Ota/Alcochete colocámos logo este dossier em cima da mesa para que fosse possível preservar os valores que tão intimamente estão ligados a este território", disse Moita Flores à Lusa.

O seu projecto é criar na antiga EPC a "Fundação da Liberdade", uma "articulação do Portugal dos Pequeninos com o Pavilhão Ciência Viva", criando, através das novas tecnologias, um espaço "dedicado aos valores essenciais da dignidade humana" que atraia "escolas de todo o país" para que os alunos do 5º ao 10º ano "aprendam aqui o valor das nossas Descobertas, da nossa História, da nossa memória e dos valores essenciais da nossa vida em comunidade", disse.

Nesse espaço haverá lugar para Salgueiro Maia e "alguma história da Arma da Cavalaria", num "testemunho de agradecimento" pelo que a EPC representou para a cidade, aproveitando, nomeadamente, os painéis de azulejos do edifício principal onde estão "plasmadas memórias de muitas gerações de oficiais", acrescentou.

Segundo disse, esta evocação da EPC e de Salgueiro Maia não visa sobrepor-se nem ao Museu da Cavalaria que acompanhou a EPC na mudança para Abrantes nem ao Museu dedicado a Salgueiro Maia que vai ser criado em Castelo de Vide, com o espólio doado pelo capitão de Abril à sua terra natal.

O vice-presidente da Câmara Municipal de Castelo de Vide, António Nobre Pita, disse à Lusa que a autarquia já adquiriu um edifício apalaçado para instalação do "museu da memória" a Salgueiro Maia e ao 25 de Abril, estando o projecto, que vai ser candidatado a fundos comunitários, a ser coordenado pelo historiador de arte António Baptista Pereira.


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