As viagens do comerciante chinês dos Açores a Lisboa eram uma constante, à média de duas vezes por mês. E ficava sempre no mesmo quarto da Residencial Ipanema, na rua Actor Taborda, a mesma onde o namorado, travesti, vivia a tempo inteiro. Anteontem, a discussão estalou entre os dois e só acabou à porta do prédio, quando o travesti regou o companheiro chinês com gasolina e ateou fogo, matando-o.

"Foi uma imagem que nunca vou esquecer. O homem estava totalmente coberto de chamas, aos gritos. O meu colega ainda atirou um balde de água e apagou o fogo, mas era tarde de mais. Ficou todo desfigurado, com a roupa colada ao corpo", relatou ao CM um trabalhador de uma empresa de construção civil que está a recuperar o edifício.

A dimensão das chamas atingiu proporções tão grandes que alguns moradores chegaram a pensar que era o prédio que estava a arder. A vítima ainda foi transportada pelo INEM para o Hospital de São José, mas acabou por não resistir aos ferimentos.

O homem vitimado pelo ataque, de 40 anos, era proprietário de uma loja de produtos chineses nos Açores e, apurou o CM, vinha frequentemente a Lisboa com a justificação de comprar produtos para o estabelecimento. Os funcionários da residencial ficaram ontem a saber que o homem era casado, quando a mulher lá foi buscar os bens deixados no quarto pelo marido.

O agressor, conhecido pelos vizinhos apenas como ‘Zé’, tem 37 anos e, "para lá de gostar de se vestir de mulher, também tinha perturbações mentais". "Andava sempre a subir e a descer as escadas. Metade das vezes vestido de mulher, as outras vestido de homem. Parecia que tinha dupla personalidade", disse um morador do prédio. Ninguém lhe conhecia uma profissão, mas todos garantem que "não ganhava a vida a vender o corpo no Conde Redondo", zona de Lisboa conhecida pela prostituição de travestis".

PORMENORES

ESPEROU NO QUARTO

Depois de ter ateado fogo ao namorado, ‘Zé’ voltou ao seu quarto na Residencial Ipanema, onde foi detido pela PJ.

APANHADO DE SURPRESA

De acordo com a PJ, a vítima foi surpreendida ao sair do edifício. O namorado tinha deixado o quarto momentos antes e esperou que o cidadão chinês saísse para o regar com gasolina.

EM PREVENTIVA

O agressor foi ontem presente a tribunal e vai aguardar julgamento em prisão preventiva.
João C. Rodrigues