Discurso comemorativo do 25 de Abril
Presidente contra "promessas fáceis"

O Presidente da República, Cavaco Silva, alertou este sábado as forças políticas para que não façam promessas que depois não podem cumprir e pediu contenção nos gastos com as campanhas eleitorais. Para os portugueses, o chefe de Estado deixou ainda um apelo:"Participem activamente nas três eleições que irão realizar-se este ano".

O Presidente da República, Cavaco Silva, alertou as forças políticas para que não façam promessas que depois não podem cumprir e pediu contenção nos gastos com as campanhas eleitorais. Para os portugueses, o chefe de Estado deixou ainda um apelo:'Participem activamente nas três eleições que irão realizar-se este ano'.

'Este não é, seguramente, o tempo das propostas ilusórias. Este não é o tempo de promessas fáceis, que depois se deixarão por cumprir. A crise cria a obrigação acrescida de prometer apenas aquilo que se pode fazer, com os recursos que temos e no País que somos e iremos ser', afirmou Cavaco Silva, na sessão solene comemorativa do 35º aniversário do 25 de Abril, na Assembleia da República.

Após apelar aos portugueses para que participem nos três actos eleitorais que irão decorrer este ano, o Presidente da República fez um pedido aos partidos: 'Que sejam discutidos os problemas reais das pessoas e do País. Que não se perca tempo com questões artificiais, que haja sobriedade nas despesas, que não se gaste o dinheiro dos contribuintes em acções de propaganda demasiado dispensiosas para o momento que atravessamos'.

Para o chefe de Estado, 'o emprego, a segurança, a justiça, a saúde, a educação, a protecção social, o combate à corrupção são questões básicas que devem marcar a agenda política e em torno das quais deve ser possível estabelecer consensos entre os partidos estruturantes da nossa democracia'. E frisou: 'Os portugueses estão cansados de querelas político-partidárias que em nada resolvem as dificuldades que têm de enfrentar no seu dia-a-dia'.

'CRISE NÃO PODE SER ILUDIDA'

Preocupado com a grave crise económica, Cavaco Silva que avisou 'crise não pode ser iludida' e que esta poderá não ser passageira. 'A crise que vivemos tornou mais nítidas as vulnerabilidades estruturais que o País ainda manifesta. Não há, assim, a certeza de que este seja um momento meramente transitório de recessão da actividade económica'.

O Chefe de Estado, sublinhando que 'vivemos tempos difíceis, muito difíceis', lembrou as centenas de trabalhadores que são lançados no desemprego, num tempo em que Portugal está dominado pelas notícias de encerramento de empresas, 'apesar dos esforços para combater a crise'.

Por outro lado, continuou Cavaco Silva, as previsões económicas nacionais e internacionais 'estão à vista de todos e não é possível negá-las'. 'Devemos, por isso, compreender que esta crise leve muitos portugueses a interrogarem-se sobre aquilo que o futuro nos reserva', disse, considerando essas interrogações tanto mais pertinentes, 'quando a crise que vivemos tornou mais nítidas as vulnerabilidades estruturais que o país ainda manifesta'.

'Não há, assim, a certeza de que este seja um momento meramente transitório de recessão da actividade económica, a que se seguirão melhorias dias num prazo mais ou menos próximo', considerou.

Cavaco insistiu na necessidade de 'a dimensão ética e a responsabilidade social' passarem a ocupar um papel central no controlo e supervisão das instituições financeiros, já que, considerou, 'seria condenável e imoral que os países mais pobres fossem obrigados a suportar os custos de uma crise para a qual em nada contribuíram'.

REACÇÕES:

APELO À "RESPONSABILIDADE COLECTIVA E AO REALISMO": Manuela Ferreira Leite, presidente do PSD

"Aquilo que se espera do Presidente da República é exactamente aquilo que ele disse, um sinal da nossa responsabilidade colectiva", afirmou a líder social-democrata, que subscreveu a ideia de que "todos somos precisos para resolver e ultrapassar o problemas que estamos a enfrentar e que é absolutamente necessário que isso seja feito com realismo e verdade".

"O que fundamentalmente eu retenho da mensagem do senhor Presidente da República é uma responsabilização colectiva das decisões e das propostas. Essa responsabilização colectiva pertence não só aos políticos, mas a toda a sociedade civil", sublinhou.

PRESIDENTE "ESTENDEU MÃO AO BLOCO CENTRAL": Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP

Para Jerónimo de Sousa, Cavaco Silva fez "um certo estender de mão à retoma da ideia do Bloco Central, na medida em que fala dos partidos estruturantes" e foi "mesmo muito superficial em relação à análise da própria crise". "Aquilo que impunha era de facto uma ruptura com esta política e essa palavra não ficou", disse o dirigente comunista.

"DISCURO TEM DOIS ASPECTOS IMPORTANTES": Francisco Louçã, líder do BE

"O discurso do Presidente da República tem dois aspectos importantes: um apelo à participação e reconhece a profundidade da crise", disse o dirigente bloquista.

"A nossa preocupação é uma resposta por direitos sociais, por compromissos, pela proibição de despedimentos em empresas que têm lucros, pela restrição da especulação e pelo combate às privatizações e às grandes opções que estruturam a economia desagregada", disse.

"FALTOU FALAR EM RUPTURA COM ESTA POLÍTICA": Heloísa Apolónia, deputada do PEV

"O problema do país tem sido a alternância entre PS e PSD, praticando o mesmo rumo político, e ao senhor Presidente da República faltou ter coragem de dizer que é preciso criar um ruptura com esta política", disse.

Para Heloísa Apolónia faltou ainda a Cavaco Silva "ser mais acutilante no apontar do caminho a seguir" e a defesa de "uma mais justa distribuição da riqueza".