Há cerca de um ano, Manuela, vamos chamar-lhe assim, experimentou a primeira de duas gravidezes ectópicas. Tentava ter o primeiro filho – e ainda hoje continua –, mas já pensa seriamente em recorrer à fertilização in vitro.Tudo começou quando três ou quatro dias após o teste de gravidez positivo, Manuela, 27 anos, reparou que estava com perdas ligeiras de sangue. Deslocou-se à Maternidade Alfredo da Costa. «Disseram-me que era uma situação normal».

Uma posterior visita à médica de família veio a confirmar uma gravidez ectópica, difícil de detectar, segundo a própria Manuela. A médica assegurou--lhe que era preferível o internamento imediato.

«Acabei por saber que a trompa poderia rebentar a qualquer momento, ao mínimo esforço, por exemplo, apenas pelo movimento de andar», conta esta jovem.

No total, permaneceu internada nove dias no Hospital de Santa Maria, quando estava cumprido um mês de gestação. «Ao quarto dia, fui operada de urgência e permaneci mais quatro dias em repouso total», diz. Retiraram--lhe a trompa direita que apresentava deformações.

Em Abril do ano passado, Manuela soube de novo que estava grávida. Novamente surge uma gravidez ectópica. Voltou a ser internada, desta vez com um aborto tubário. O produto da concepção foi expulso espontaneamente. Tinha três semanas de gestação.

Agora quer assegurar-se que não vai correr mais riscos ao engravidar novamente. Manuela sustenta que, provavelmente, estará «mais à-vontade» para tentar a fertilização in vitro.



A gravidez não se desenvolve no útero

Os dados mais recentes apontam para que em 100 ou 200 gravidezes, uma seja ectópica. Este fenómeno tem vindo a ter um aumento gradual e coloca em risco a vida da mulher.

Este problema de saúde acontece quando a gravidez não se desenvolve no útero, mas, por razões diversas, noutros locais do aparelho reprodutor feminino. Na grande maioria das vezes, o óvulo já fecundado pelo espermatozóide fixa-se numa das trompas de Falópio e aí vai crescer. Mais raramente, também pode acontecer no ovário, no ***** uterino ou até no abdómen.

O perigo de repercussões graves aumenta à medida que o tempo passa. O feto aumenta de volume, aumentando, portanto, as probabilidades de lesões graves nos tecidos envolventes, ou seja, rompimento e posterior hemorragia.
É também certo que o produto da concepção não evolui, sem haver crescimento que suscite grandes problemas. O Dr. Mário Almeida, do Serviço de Ginecologia do Hospital de Santa Maria confirma que em Lisboa, «cerca de 30% das mulheres têm aborto espontâneo».

No entanto, as complicações, quando existem, têm consequências graves. Por isso, convém ter especial atenção. «Uma gravidez deste tipo, obviamente, não tem condições para ir em frente», afirma peremptório Mário Almeida.

«As causas podem variar», diz o médico, «desde infecções pélvicas silenciosas como a chlamydia tracomatis, até às sequelas deixadas por cirurgias abdominais pélvicas, como a intervenção a uma apendicite, uma cirurgia de reconstrução tubária ou endometriose – implante de tecido similar ao endométrio fora do útero».