Duzentos milhões de seres humanos poderão ser forçados a migrar por causa da desertificação e a degradação do solo que afectam um terço da Terra e ameaçam os meios de sobrevivência e o bem-estar de mil milhões de pessoas.

A Organização das Nações Unidas (ONU), que assinala hoje o Dia Mundial de Luta contra a Desertificação e a Seca estima o número de deslocados ambientais entre 17 milhões e 24 milhões, mas avisa que poderá chegar aos 200 milhões em 2050, se continuar o consumo excessivo de água, a desflorestação e práticas agrícolas e florestais erradas.

Em mensagem alusiva à jornada, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, nota que quase um terço das terras cultivadas tornaram-se improdutivas nos últimos 40 anos e cerca de três quartos das pastagens naturais apresentam sintomas de desertificação.

Em Portugal, a efeméride foi pretexto para nova querela entre especialistas. Ouvido pela agência Lusa, o investigador Eugénio Sequeira voltou a afirmar que o risco de desertificação atinge metade do país, agravando a situação caraterizada em 1994, quando afectava um terço do território.

No entanto, o presidente do Programa de Acção Nacional de Combate à Desertificação (PANCD), Lúcio do Rosário, disse à agência que "não existem grandes chagas de degradação", reconhecendo que as situações mais preocupantes se situam no Sul, nomeadamente na zona Castro Marim/Alcoutim e Mértola.

Só no concelho de Mértola, por exemplo, mais de 60% dos solos estão degradados e em metade nada cresce, segundo a investigadora Maria José Roxo (reportagem JN, 28/07/08).

Eugénio Sequeira critica a agricultura e a pecuária intensivas e a falta de investimento em floresta autóctone e acusa o Governo de ter cortado financiamentos à promoção de práticas de sementeira (de cereal) que não degradam o solo.

Lúcio do Rosário contesta. Também citado pela agência, diz que o combate à desertificação avança e destaca as medidas nos planos regionais de ordenamento do território, como as que visam a fixação de pessoas em zonas despovoadas.