Bélgica: Jovem português agredido por nacionalistas flamengos
“Até tenho medo de sair sozinho”

"Aqui só se fala em neerlandês". Esta foi a única frase que Miguel Sequeira, de 21 anos, emigrante português na Bélgica, ouviu antes de ser selvaticamente agredido por sete nacionalistas flamengos nos arredores de Bruxelas, na passada sexta-feira. O caso está a dar que falar na Bélgica devido aos contornos racistas e ao momento politicamente delicado que o país atravessa, com a vitória dos nacionalistas flamengos nas legislativas.

"Fui levar a minha namorada a casa, por volta das 20h30. Ao lado de casa dela há um café e uns homens começaram a insultá-la. Saí do carro e perguntei-lhe, em francês, o que se passava. Um deles disse-me ‘aqui só se fala em neerlandês’ e vieram todos na minha direcção. Virei-me para entrar no carro e um deles partiu-me uma garrafa na cabeça. Caí, desmaiado, e eles começaram a dar-me pontapés na cara e na cabeça. Se não fosse um vizinho, que me ajudou, morria ali", contou ao CM.

Dois dentes partidos, o nariz fracturado, a testa aberta e os lábios rebentados foram o resultado da bárbara agressão, que ocorreu perto da casa onde Miguel vive com os pais, em Ruisbroek, localidade flamenga junto a Bruxelas. Um bairro pacato, onde moram vários portugueses e onde nunca se tinham registado problemas.

Miguel passou três dias no hospital e agora tem medo de sair de casa. "Só saio com amigos. Sozinho não", garante. Os agressores, tidos como nacionalistas flamengos, foram soltos hora e meia depois de serem detidos. As autoridades estão a investigar as motivações do ataque, mas Miguel não tem dúvidas: "Foi um acto de racismo. Sou moreno, tenho ar de marroquino e eles aqui não gostam de marroquinos", conta.

O jovem, que vive na Bélgica desde os quatros anos, só quer esquecer o que aconteceu. "Para o mês que vem vou de férias a Portugal para estar com a família, na Régua, e esquecer isto tudo", afirma.

COMUNIDADE PORTUGUESA ESTÁ TRANQUILA

A comunidade portuguesa em Bruxelas não parece recear novos incidentes como o da passada sexta-feira. José Matos, de 58 anos, que reside na capital belga há 36, declarou ao CM que "este foi um caso isolado". Segundo o emigrante luso, "ele teve azar. Generalizar seria um erro". E acrescenta: "Todos os dias há agressões, ou porque alguém bebeu vodka demais ou por outras razões. É um problema de comunicação, de formação humana", refere. "Há agressões contra cabo-verdianos e até entre portugueses", lamenta.

SAIBA MAIS

PRESENÇA ANTIGA

Portugueses chegaram à Bélgica no séc. XII, após o casamento de D. Teresa, filha de Afonso Henriques, com Filipe da Alsácia.

40 000 (20 000 oficialmente) é o número de portugueses na Bélgica. Em Bruxelas são 16 a 20 mil.

GARRETT EMBAIXADOR

Almeida Garrett foi o primeiro embaixador português na Bélgica, no séc. XIX.


Correio da Manha