Detidos por burlas negociaram com ex-líder do Benfica

As garantias usadas nos empréstimos que lesaram o BPN em milhões de euros foram arquitectadas por Vale e Azevedo. O ex-líder do Benfica foi investigado pela PJ noutro inquérito em que arguidos do novo caso BPN tentaram obter créditos com os mesmos documentos.

Vale e Azevedo forjou garantias que serviram para enganar o BPN

O ex-dirigente conhece e efectuou negócios com Carlos Marques e Diamantino Morais, ambos arguidos num processo em que se investiga uma fraude de 100 milhões de euros de que é vítima o banco nacionalizado pelo Estado.

A primeira vez que Marques, Morais, Vale e Azevedo e as garantias bancárias foram associados pelas autoridades a esquemas de fraude com empréstimos foi em 2006, no BPN (35 milhões) e na Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo (CCCAM) (também 35 milhões). Mas já antes, nesse mesmo ano, uma empresa da família Vale tinha tentado usá-las, num pedido de empréstimo de 25 milhões de euros ao BCP. O crédito foi recusado quando o banco descobriu que os documentos eram falsos.

Segundo dados recolhidos pela PJ numa investigação concluída no ano passado, em causa estão documentos intitulados "garantia autónoma", passados por uma empresa de "resseguros" francesa, designada "PM RE", que, por sua vez, actuaria supostamente como delegação de uma prestigiada firma suíça - a "Swiss RE".

Este esquema de garantias e respectiva documentação foram introduzidos em Portugal pelo próprio Vale e Azevedo que, inclusivamente, para credibilizar as garantias, apresentou os dois donos da "PM RE", Richard Botella e Eric Guyon.

Só que, na verdade, a Swiss RE nunca autorizou a "PM RE" a passar garantias destinadas a avalizar empréstimos bancários. Isto mesmo foi reconhecido, em carta rogatória solicitada pelo Ministério Público, pelos próprios responsáveis da Swiss RE: após analisarem um documento apresentado como "procuração", revelaram que as assinaturas dos administradores foram digitalizadas desde um relatório e contas. Depois, confrontados Botella e Guyon, através de cartas rogatórias, estes disseram conhecer Vale mas negaram ter passado tais garantias.

No caso do BPN e da CCCAM, intervieram como requerentes de empréstimos de 35 milhões de euros cada a "Futurbelas" e a "Vencimo" - ambas controladas por Diamantino Morais e Carlos Marques. "Futurbelas" é a empresa já declarada falida e que ficou a dever 35 milhões ao BPN; já a "Vencimo" foi uma das empresas que, a 18 de Março passado, fundiram-se com a "Futurbelas".

Mas, afinal, nos dois casos, foi usada a mesma garantia da "PM RE". E só o empréstimo da CCCAM foi pago. Confrontados, à época, pela PJ, Marques e Diamantino disseram que foi Vale e Azevedo quem arranjou as garantias e que, até, recebeu três milhões de euros de comissões.

A ligação entre aqueles suspeitos do novo caso BPN e o ex-presidente do Benfica surge ainda no contexto da estadia em Inglaterra, local escolhido para a fuga à Justiça portuguesa. É que foi a "Vencimo" que pagou, durante um ano, a renda de uma casa de luxo em que Vale viveu, em Londres.

JN