O 'estrangeiro maluco' que de bicicleta ajuda famílias carenciadas em Lisboa


Montado numa bicicleta, Hunter Halder começou há um ano a distribuir por famílias carenciadas de uma freguesia lisboeta as sobras de alimentos que recolhia em restaurantes. Hoje, o projecto do «estrangeiro maluco» conta com mais de cem voluntários.

A viver há 20 anos em Portugal, o norte-americano Hunter Halder, de 60 anos, teve há dois anos que «lidar com uma nova realidade» e mudar de carreira. «Vítima da crise», quando se viu sem trabalho começou a pensar na realização de acções humanitárias.

«Foram sete acções. O Re-Food foi a última a ser concebida e a primeira a ser lançada», contou Hunter Halder à Lusa no centro operacional do projecto, situado num anexo da igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Mas recuemos a 9 de Março de 2011. «Naquela altura era só um estrangeiro maluco e as pessoas a olharem para mim e a pensarem: ‘o que é isto?’», lembrou.

Quem o via passar começou a abordá-lo e a perguntar o que fazia montado numa bicicleta munida de cestos à frente e atrás, carregados de embalagens. Ao fim de 30 dias, tinham aderido ao Re-Food 30 restaurantes e 30 voluntários, como atesta a fotografia pregada num placard do centro de operações.

Cerca de um mês foi também o tempo que o centro de operações esteve situado em casa do norte-americano.

Nessa altura, o Re-Food passou para uma antiga loja de congelados, na Avenida Conde Valbom, que hoje serve de «estação de lavagem [das embalagens] e escritório». Há cerca de um mês, o centro passou para o anexo da igreja.

Um ano depois do arranque, os voluntários «são bem mais do que cem» e os restaurantes e pastelarias 54, número que Hunter Halder garante «vai aumentar».

As pessoas que recebem «reforço alimentar», de acordo com o último relatório do projecto, são mais de 160 - fora os sem-abrigo, a quem a paróquia de Nossa Senhora de Fátima já fornecia diariamente refeições.

Numa das paredes do centro de operações está um quadro em que estão registados os dados das famílias ajudadas, quantas pessoas constituem o agregado, se há crianças e quais as alergias alimentares ou gostos especiais. Noutra parede, outro quadro explica quem faz o quê e a que horas.

O dia começa pelas 13 horas, quando decorre a primeira acção, com distribuição de comida no local. As famílias «trazem um saco com 'tupperwares' lavados e levam um saco com outros cheios de comida», contou.

Pelas 15 horas, é servido um almoço quente aos sem-abrigo. Uma hora depois é altura da primeira ronda por pastelarias situadas numa área de 21 quarteirões das Avenidas Novas. As equipas de dois ou três voluntários dividem-se em duas rotas para recolherem pão, bolos e outros alimentos do dia.

Terminada a recolha, perto das 20h30, os voluntários regressam ao centro, onde está desde as 18 horas outra equipa a preparar os sacos que serão entregues às famílias carenciadas da freguesia de Nossa Senhora de Fátima.

Cada saco tem uma «combinação» de comida recolhida nos restaurantes na noite anterior e que ficou guardada num dos vários frigoríficos instalados no centro com a comida que chega das pastelarias.

Entre as 20h45 e as 21h45 entra em acção a equipa de transporte e distribuição. Esta semana, a frota do projecto foi reforçada com cinco bicicletas, oferecidas por uma empresa.

Os voluntários desta equipa encontram-se com as famílias num «ponto de distribuição» e é aí que sacos com ‘tupperwares’ vazios são trocados por outros cheios. Para quem não se pode deslocar há entregas ao domicílio.

O dia termina com as duas últimas rondas de recolha. Entre as 21h45 e as 23h30, os voluntários deslocam-se aos restaurantes aderentes para recolher a comida que sobrou.

A primeira meta de Hunter Halder é «implantar o projecto a 100%» na freguesia - um terço já está coberto e os outros dois serão «conquistados logo depois da Páscoa».

Apenas numa freguesia, em várias, numa cidade ou em todo o mundo, o objectivo é «parar o desperdício a 100%».

«Quem faz desperdício, que não é possível evitar, é confrontado com uma opção e vai ser levado a perceber que existe de facto uma alternativa», disse. E essa é a missão do Re-Food: «Criar uma alternativa».


Lusa/SOL