O retrato do país em crise, na internet


A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) apresentou hoje um projecto para tentar fazer um retrato actual do país através de estatísticas e «lutar contra inimigos» que surgem em tempo de crise como os exageros e a indiferença.

«Estamos a atravessar um momento excepcionalmente difícil da história do país», altura em que se exagera em posições negativas – está tudo mal – ou positivas – está tudo bem – ou ainda a indiferença, como se nada se passasse, disse o presidente da fundação aos jornalistas na apresentação do projecto.

«Gostaria de combater o alarme, que vive do boato e do rumor», acentuou António Barreto, referindo-se a outro dos objectivos do projecto acessível pela Internet no endereço Conhecer a Crise - Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Para o sociólogo, o lema a seguir na actualidade é «mais razão, menos boatos e rumores», procurando «caminhos para resolver os problemas».

O alegado aumento de mortes devido à crise ou de pessoas que deixaram de poder ir ao médico por falta de dinheiro foram exemplos que deu e que já disse terem sido noticiados sem que exista sustentação para tais constatações.

Contudo, «é indispensável avaliar o que está a acontecer», defende, referindo-se às consequências da carestia económica que Portugal atravessa.

Embora a Fundação já tenha um projecto de tratamento de dados estatísticos a longo prazo – a PORDATA - com o 'Conhecer a crise' a ideia é fazer um retrato mais próximo da realidade actual, tratando a informação disponibilizada pelas instituições que a recolhem, o que exclui a própria FFMS, como salvaguardou António Barreto.

A autora do projecto, a investigadora do Instituto de Ciências Sociais Alice Ramos, referiu alguns exemplos estatísticos recentes, entre os quais que mais de metade das pessoas (51 por cento) limitam-se a viver o dia-a-dia e já não fazem planos para o futuro, no que considera ser uma estratégia de sobrevivência.

Questionado sobre quando poderá haver uma saída para a crise, António Barreto disse, com base na sua convicção pessoal, que «a estagnação deverá prolongar-se por mais seis a 12 meses».

«Os portugueses estão a reagir e a reorganizar-se», para conseguirem «sobreviver e não se deixarem a abater», acrescentou.

Acerca da ausência de convulsões sociais, realçou que tem havido grandes manifestações, mas as pessoas estarão com menos disponibilidade para a actividade política por se encontrarem demasiado ocupadas a resolver os seus problemas e os dos seus filhos.

Soma-se a esta realidade o fato de o acordo de assistência financeira com as entidades estrangeiras ter sido subscrito pelos três maiores partidos e por os sindicatos, mesmo os que não assinaram o acordo de concertação social, como foi o caso «do maior, a CGTP», terem «adoptado um comportamento racional», opinou.


Lusa/SOL