Igreja congratula-se com detenção de 'falso padre'

O pároco de Alvarelhos, Trofa, congratulou-se hoje com a detenção do «falso padre» Agostinho Caridade, mas lamentou a morosidade da Justiça, que deixou «à solta, uma enormidade de tempo, um homem que burlou tanta gente de boa-fé».
«Com esta detenção, finalmente faz-se alguma justiça», disse José Ramos, à Lusa.
Natural de Aguiar, Barcelos, Agostinho Caridade tinha para cumprir uma pena de dois anos e meio de prisão, mas «andava fugido», tendo sido detido na terça-feira pela GNR e conduzido ao Estabelecimento Prisional de Viana do Castelo.
Alvarelhos foi uma das paróquias na qual Agostinho Caridade, actualmente com 39 anos, se fez passar por padre, tendo celebrado várias missas, dois casamentos e um baptizado.
Durante quatro anos, o «falso padre» presidiu a cerimónias religiosas em todo o país, inclusive na Sé de Braga.
Em Outubro de 2011, o Tribunal de Santo Tirso condenou-o a dois anos e meio de prisão, com pena suspensa, pelos crimes de usurpação de funções e de burla qualificada.
Para a suspensão da pena, o arguido ficava obrigado a indemnizar, no prazo de dois anos, 4.727 euros a três pessoas que burlou, bem como a pedir desculpa, no prazo de 15 dias, à Arquidiocese de Braga, às paróquias onde exerceu ilegalmente e aos respectivos paroquianos.
«À Paróquia de Alvarelhos não pediu desculpa nenhuma. Sempre brincou com a justiça, deu-se ao luxo de nem sequer comparecer ao julgamento, porque a GNR não o conseguia apanhar, mas logo depois aparecia a falar para os jornais», criticou José Ramos.
Agostinho Caridade foi ainda condenado, a título de danos não patrimoniais, a pagar 3.000 euros por ter «lesado a fé» dos queixosos.
O tribunal deu como provado que, em 2004, o arguido conseguiu «penetrar» na Igreja, quando contactou o pároco de Santiago de Bougado, na Trofa, então já num estado de saúde muito debilitado, e se ofereceu para o ajudar.
Apresentou-se como João Luís e como sendo um padre missionário, pertencente à Ordem dos Camilianos.
O pároco de Bougado foi passando a palavra a outros sacerdotes e a fama «de bom padre» do burlão foi-se espalhando, pelo que começou a ser contactado para vários serviços, sobretudo nas dioceses de Braga, Porto e Algarve.
Como ia «recomendado» por um colega de ofício, nunca ninguém se lembrou de lhe pedir a identificação.
Entretanto, o pároco de Alvarelhos começou a desconfiar, por causa de alguns comportamentos, palavras e contradições do arguido, e encetou uma investigação, tendo concluído que ele não era nem nunca foi padre.
O arguido foi detido em Junho de 2007, quando se preparava para presidir a um baptizado em Areias, Santo Tirso, e responsáveis da diocese de Braga e a PSP irromperam pela igreja dentro, desmascarando-o.
Foi constituído arguido e ficou a aguardar julgamento em liberdade, tendo até encenado um eventual suicídio, quando abandonou a sua viatura numa praia de Viana do Castelo.
Usando a sua alegada condição de padre, o arguido praticou várias burlas, pedindo dinheiro para falsas missões em África, para festas e até para se livrar da prisão, dizendo que tinha atropelado mortalmente uma pessoa e precisava urgentemente de uma elevada quantia para não ser preso.
Segundo o pároco de Alvarelhos, o arguido, com o seu «conto do vigário», terá conseguido «muitos milhares de contos».

Lusa/SOL