O segredo está na discrição e rapidez de execução, a roubar, escoar as carteiras com milhares de euros e desaparecer sem deixar rasto. À arte junta-se rigor e obediência, impostos às mulheres e crianças pelos cérebros da máfia bósnia que se instalou no nosso país há quatro anos. Os 23 carteiristas, ontem presos numa operação da GNR e SEF, roubaram mais de meio milhão de euros nas ruas de norte a sul.



A rede estava organizada por níveis hierárquicos – desde os chefes, que circulavam de BMW X5, X6 ou Porsche Cayenne, até às 33 crianças de tenra idade, aprendizes, que viviam fechadas em casas de recuo na Margem Sul do Tejo – Costa da Caparica, Almada, Feijó, Laranjeiro – e em Loures, onde os militares da Unidade de Intervenção da GNR e inspectores do SEF as foram encontrar e resgatar.

A operação de sucesso – que passou ainda pela apreensão de sete carros de alta cilindrada, documentos e objectos relacionados com os crimes – é resultado de uma investigação de meses, com recurso a vários meios de prova, sob coordenação da Unidade Especial de Combate ao Crime Especialmente Violento do DIAP de Lisboa, liderada pela procuradora Cândida Vilar.

Os 23 detidos estão indiciados por crimes como associação criminosa, furto, auxílio à imigração ilegal, tráfico de pessoas, branqueamento de capitais e maus tratos a menores ou falsificação de documentos – uma vez que a maioria usa nomes falsos.

Os menores passavam os dias com os homens da rede, enquanto as mulheres, sobretudo, iam roubar carteiras em toda a Grande Lisboa – em especial nas zonas do Castelo de S. Jorge, Belém, Baixa e Marquês de Pombal –, além do Santuário de Fátima, Algarve, Évora, Porto, Braga e Guimarães. Os adultos vão amanhã ser ouvidos pelo juiz.

PERMANENTE CIRCULAÇÃO POR TODA A EUROPA

A grande dificuldade da investigação da GNR e do SEF, liderada pela unidade especial do DIAP, foi, além da recolha de prova, manter os alvos fixos – a rede faz constantemente circular os seus operacionais entre Portugal, Espanha, França, Itália, Croácia, Letónia, Eslovénia, República Checa, Bulgária, Roménia, Suíça e Alemanha. Ontem, estavam marcados os 18 principais elementos – outros 5 foram apanhados nas buscas –, e a operação avançou, sobretudo na Margem Sul, onde vivia a maioria, com 33 crianças. O objectivo da investigação, agora, além de travar a vaga de furtos de que esta rede é responsável pelo menos há quatro anos, passa por apreender bens e congelar as contas bancárias milionárias dos chefes da rede.

TURISTA FICOU SEM 12 MIL EUROS EM FÁTIMA

Cada mulher da rede, por dia, facturava em média 500 euros. Só no Santuário de Fátima, uma carteira furtada chegava a render 500, 700, 1500 euros em dinheiro – muitas vezes em dólares ou outras moedas –, tirados a turistas. Num caso, esta rede furtou a uma mulher uma carteira com 12 mil euros, em Fátima. As mulheres carteiristas são controladas por superiores hierárquicos, que recolhem o dinheiro para a cúpula da rede bósnia – os homens permitem-se andar em carros e jipes topo de gama, viver em hotéis de luxo e ter fortunas no banco.

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