A declaração de Vítor Gaspar, na segunda-feira, dizendo que não conhecia qualquer intenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) para moderar os esforços de austeridade nos países sob assistência financeira, causou estragos em Belém.Dois dias antes, o Presidente da República tinha dado um sinal claro que era isso que tinha retirado das palavras da chefe do FMI, Christine Lagarde, numa reunião em Tóquio, na semana anterior. A intervenção da francesa estava transcrita na Presidência, com passagens devidamente sublinhadas. «Achamos que é muito mais apropriado aplicar as medidas [de consolidação] e deixar os estabilizadores funcionar», sem se fixarem nos objectivos nominais de redução do défice, disse. «Isso aplica-se a quase todos os países, particularmente na zona euro».

Um desafio


Foi essa disponibilidade que Cavaco usou, numa mensagem no Facebook, para colocar toda a pressão sobre a Europa.
«Esperemos que [essa orientação] chegue aos ouvidos dos políticos europeus dos chamados países credores e de outras organizações internacionais. [...] Nas presentes circunstâncias, não é correcto exigir a um país sujeito a um processo de ajustamento orçamental que cumpra a todo o custo um objectivo de défice público fixado em termos nominais» – escreveu o Presidente.
Na direcção do PSD – e na ala mais próxima de Passos e Gaspar, dentro do Governo –, as palavras de Cavaco Silva foram lidas como um desafio, sobretudo sendo feitas a dois dias do Orçamento do Estado. A resposta de Vítor Gaspar, que esteve também em Tóquio, foi dura: garantiu não ter retirado esse entendimento do FMI.
Mais: se Gaspar disse que não tinha lido o comentário do Presidente, um dia depois Jorge Moreira da Silva ironizou com o facto de Cavaco ter usado as redes sociais para marcar posição. E reiterou que, no entendimento do PSD, o FMI não quer flexibilizar a austeridade.
Mas essa é mais uma matéria que divide o PSD e o CDS. «A janela aberta por Lagarde devia ser aproveitada com as duas mãos. Um país exemplarmente cumpridor deve tentar modificar as exigências dos seus credores, nomeadamente na política de juros», diz ao SOL o eurodeputado centrista Diogo Feio. No próprio PSD há também quem o defenda – na Assembleia e em Estrasburgo, como Paulo Rangel.

FMI dá a mão a Gaspar


Mas, na madrugada de quarta-feira, o chefe de missão do FMI, Abebe Selassie, veio pôr um travão nestas pretensões.
Dizendo que a troika já aceitou um pedido expresso do Governo português para dilatar os prazos da consolidação, o responsável do FMI sublinhou: «A dívida do país ainda é elevada e precisa de ser contida para assegurar a plena recuperação. Portugal também precisa de restaurar a sua capacidade de se autofinanciar a taxas razoáveis. Isto significa que o ajustamento orçamental é imperativo, e tem de prosseguir».
A declaração de Selassie caiu bem nas Finanças e em São Bento, que vêem no elevado montante da dívida – mais de 120% do PIB – uma fasquia que não pode ser ultrapassada e proíbe novos desvios.
Na Presidência, porém, o SOL sabe que não ficou diminuída a forte convicção de que as regras do jogo vão mudar em breve.
Cavaco não acredita que o modelo de consolidação a todo o custo traga proveitos – pelo con_trário. E na Presidência anota-se positivamente as palavras de François Hollande, esta semana, dando esperança a uma flexibilização de metas para Portugal. Assim como se elogia a persistência do líder do PS, António José Seguro, em pressionar os socialistas europeus nesse sentido.

Fonte: SOL