Amigo de José Maria Ricciardi há vários anos, Passos Coelho foi peremptório quando o presidente do BES Investimento (BESI), lhe telefonou: «Desculpa, não posso falar contigo sobre esse assunto» , respondeu o primeiro-ministro.
Por outro lado, e segundo o SOL apurou, ao contrário do que tem afirmado o presidente do BESI, nesta sua abordagem ao primeiro-ministro não esteve em causa a Perella Weinberg – a consultora estrangeira que fora contratada meses antes, em Setembro de 2011, num ajuste directo que causou polémica, para prestar assessoria financeira nas duas privatizações à Parpública (a holding do Estado que formalmente era a proprietária das acções na EDP e na REN). E o mote da conversa também não passou pelas diligências que então se dizia que a Alemanha estava a desenvolver para que uma sua empresa nacional, a E.On, vencesse a corrida à privatização da EDP.
No telefonema, Ricciardi questionou Passos Coelho sobre um aspecto concreto e determinante das operações de venda das acções do Estado na EDP e na REN, nas vésperas de um dos conselhos de ministros em que estes dossiês foram discutidos.
Além desse telefonema, o banqueiro ainda haveria de fazer outro, para Miguel Relvas, ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares, igualmente considerado relevante pelos investigadores.
Em ambos os casos, as conversas foram interceptadas em escutas telefónicas realizadas entre finais de 2011 e princípios de 2012, no âmbito do inquérito Monte Branco, que corre termos no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).
Um dos telefones sob escuta era o de José Maria Ricciardi, suspeito de crimes de tráfico de influências e de abuso de informação privilegiada, relacionados com os processos de privatização da EDP e da REN. Nestes, o BESI efectuou a assessoria financeira à China Three Gorges e à State Grid, que acabou por vencer os respectivos concursos.
Apesar de o primeiro-ministro ter atalhado logo a conversa com Ricciardi, o DCIAP considerou o telefonema relevante para provar os indícios que já reunira contra o banqueiro.

Fonte: SOL