A Polícia começou este ano a contabilizar um fenómeno que não pára de aumentar. A GNR registou 759 casos e a PSP 259.
Ladrões revendem gasóleo e gasolina a 50 cêntimos por litro.Uns abastecem e fogem sem pagar, outros especializam-se em extrair gasóleo de camiões. O elevado preço dos combustíveis está a fazer aumentar o número de furtos de combustível em todo o país.
Os casos sucedem-se a um ritmo de quatro por dia em todo o país. Só a GNR, entre Janeiro e Agosto deste ano, registou 759 situações, isto é, três por dia. Já a PSP recebeu, de Janeiro a Setembro, um total de 259 denúncias – uma média de um caso diário.
O fenómeno atingiu tamanha dimensão que, por decisão da Direcção-geral de Política de Justiça, foi criada este ano uma notação estatística para que a GNR e a PSP possam contabilizar estas ocorrências de forma isolada.
«A maior parte dos casos têm acontecido em instalações de empresas de construção civil (estaleiros e locais de obras) e em explorações agrícolas (máquinas)» – disse ao SOL fonte oficial da GNR, explicando: «Depois de arrombarem as portas de acesso, os ladrões furtam todo o combustível armazenado nos depósitos de armazenamento e nas próprias máquinas».

GNR detecta novo método


Há, no entanto, outro método recentemente descoberto pelas autoridades. «Começámos a identificar suspeitos que furtam cartões frota deixados no interior de veículos estacionados na via pública». Estes cartões são usados por algumas empresas e permitem que os funcionários façam abastecimentos automáticos nos postos das marcas, evitando o uso de dinheiro (o combustível é depois facturado no final do mês).
«Muitos dos cartões que têm sido furtados tinham na mesma bolsa o respectivo código, o que facilita a tarefa aos ladrões. Depois, há uns que abastecem carros para fazerem corridas ilegais; outros enchem recipientes que depois revendem a preços mais baixos», explica a mesma fonte da GNR, adiantando que os preços de revenda no mercado negro oscilam «entre 50 cêntimos e um euro por litro».
Estes casos, quase todos ainda em investigação, têm sido detectado com maior incidência na Margem Sul, nomeadamente em Setúbal. É, aliás, neste distrito que a GNR regista a maioria dos furtos de combustível (100 casos), seguido do Porto (78), Aveiro (57), Coimbra (56), Lisboa (54). Leiria (50), Beja (47), Braga (41) e Santarém (41).

Casal de namorados apanhado pela PSP


Nos grandes centros urbanos, o panorama não é melhor. Muitos casos são protagonizados por pessoas que começaram por abastecer e fugir sem pagar, mas que depois se especializam noutros métodos. Foi o aconteceu a um homem de 27 anos, apanhado em flagrante delito a furtar combustível de um camião estacionado num descampado, na Póvoa de Santa Iria.
O caso ocorreu na madrugada do passado dia 16 de Maio: depois de receber uma denúncia telefónica na esquadra, uma patrulha da PSP deslocou-se ao local e deparou-se com um carro – já referenciado por abastecimento ilícito em bombas de gasolina. Assim que viu a Polícia, o suspeito, que não tinha carta de condução, iniciou uma fuga mirabolante, com várias manobras perigosas, até ser encurralado pela PSP. Ele e a namorada, menor de idade, que seguia no banco do lado.
O assaltante acabou por confessar que, durante uma hora, extraiu o combustível do depósito do camião. No interior do carro, os agentes apreenderam uma chave de fendas e três bidões, cada um com 50 litros, que teriam um valor aproximado de 220 euros.

Recupera centenas de litros de gasóleo


Francisco Gameiro conhece bem estes esquemas. Este industrial de 64 anos, dono de uma fábrica que produz terra para jardins, no concelho de Cascais, foi vítima de cerca de 30 assaltos no último ano e meio. Os assaltantes cortam a rede que envolve o estaleiro e, aí dentro, extraem o combustível dos depósitos dos seus quatro camiões.
«Eu já deixo os tampões abertos de propósito para não correr o risco de me furarem os depósitos, que custam 10 mil euros», conta o empresário, que contabiliza prejuízos na ordem dos oito a dez mil euros. «Conseguem fazer tudo muito rápido. Tiram a tampa, metem mangueiras e enchem bidões de 30 litros. Alguns usam uma bomba-relógio que, em dois minutos, extrai essa quantidade. Em cada assalto levam-me entre 100 a 300 litros de gasóleo».
Cansado de remediar a situação, com queixas constantes na GNR que não têm dado resultados, Francisco optou por outra solução. Este Verão, aderiu a um sistema anti-furto desenvolvido pela empresa Cartrack – especializada em equipamento anti-roubo para automóveis – que permite detectar roubos de combustível em viaturas com a ignição desligada.
O dispositivo, lançado há três meses, funciona como uma espécie de sensor que detecta variações do nível de combustível da viatura e envia um alerta em tempo real para a sala de controlo da empresa, que por sua vez emite o alerta às autoridades.
«Já instalámos este sistema em cerca de 100 veículos pesados», disse ao SOL fonte oficial da Cartrack, adiantando que até agora foram emitidos oito alertas de furtos.
Uma semana depois de ter instalado o sistema nos seus quatro camiões, Francisco recebeu o alerta. No dia 28 de Agosto, pouco passava da meia-noite, quando o funcionário da Cartrack lhe ligou a ele e à GNR.
Mas quando a patrulha chegou ao estaleiro, a dupla de assaltantes já tinha fugido. Na precipitação da fuga, porém, deixaram para trás quatro bidões cheios de gasóleo, cada um com mais de 50 litros.
«Este aparelho foi uma aposta ganha para mim. Da primeira vez que foi necessário, funcionou a 100%», diz o empresário, preocupado com a escalada destes roubos. «As coisas não vão melhorar, pelo contrário. Sempre que vou à Margem Sul buscar areia, quando páro para almoçar num restaurante, tenho de estar com um olho no prato e outro no camião. É que já têm acontecido muitos furtos nestas situações».

Fonte: SOL