Vai ser possível, a partir do próximo sábado, voltar a ver "Braga por um canudo". O famoso monóculo do Bom Jesus está reparado e volta para dar boas as vistas, volvidos 12 anos.

"Estava fora de serviço desde há doze anos para cá. Em princípio vai ficar à disposição da população no próximo sábado se o tempo assim o permitir", refere João Varanda, presidente da Confraria do Bom Jesus do Monte (CBJM), em declarações ao JN.

Depois de encontrado um fornecedor indiano, pois estava difícil arranjar um sistema de lentes que fosse compatível com o "canudo" que os responsáveis julgam ser "praticamente centenário", o monóculo está pronto. Para João Varanda, em fim de mandato como responsável máximo da CBJM, esta é uma nova fase da vida do "canudo", que nos primeiros tempos será gratuita.

O monóculo foi alvo de tertúlias de café e motivo de conversa na "blogosfera" bracarense. Muitos questionavam-se quanto ao desaparecimento do "canudo" e no facebook até foi criada uma página: "Queremos volta a ver Braga por um canudo", uma das frases emblemáticas que ultrapassa a fronteira geográfica do concelho de Braga.

Não é "tão velho como a Sé de Braga" mas, para muitos, "ver Braga por um canudo" faz parte do ex-libiris bracarense. "É um acto conhecido nacionalmente. O importante é salvaguardar e potenciar o património imaterial e a tradição de ver Braga por um canudo", destaca Carlos Jerónimo, engenheiro responsável pelo restauro.

Muitos foram os que subiram os escadórios do Bom Jesus para ver e espreitar pelo famoso "canudo". Na década de oitenta, a estância, que prepara uma candidatura a Património da Humanidade, era um dos primeiros destinos turísticos em Portugal.

O monóculo do Bom Jesus foi um dos primeiros telescópios panorâmicos de Portugal e nos anos 80 usar o engenho custava 20 escudos. Deste local, onde está o miradouro, a vista consegue alcançar um vasto território até à costa litoral.

"Do telescópio do Bom Jesus é possível alcançar o contexto regional do entorno da cidade, a partir de uma visão de cima - de pássaro, para não dizer do céu - suficientemente distante para vislumbrar o mar nos dias límpidos e as principais serras e vales da bacia do Cávado", afirma Miguel Bandeira, professor na Universidade do Minho, no estudo "Três mitos visuais de Braga - Um ensaio em geografia cultural".

Segundo este professor universitário, conta-se mesmo que o conhecido Nicolas Soult (1769-1851), ficou encantado com a vista, aquando da entrada das tropas napoleónicas na cidade (1809). E enquanto os seus soldados, lá em baixo, chacinavam e pilhavam a cidade, este "Maréchal d"Empire" de Napoleão, tendo-se instalado com o seu Estado Maior no Bom Jesus, maravilhado com a paisagem exclamou: "Que lindo país têm estes bárbaros!"








JN