"Entrou-me um mar em casa". O relato é de Alberto Vieira, 51 anos, que devido às fortes chuvadas da madrugada de ontem viveu momentos de aflição com os seus seis filhos, mulher e sogra, em Vale Judeu, Loulé.



Depois de várias horas de pânico, a resgatar os animais da inundação e a tentar tirar água da habitação com baldes, a família acabou mesmo por ser retirada para o Quartel dos Bombeiros de Quarteira, com excepção da idosa, que foi encaminhada para o Centro de Saúde de Loulé.

"Foi um pandemónio, as crianças gritavam, perdemos a electricidade, a fossa séptica transbordou e o sustento da minha família esteve em risco", conta o homem, que é um imitador de Elvis Presley no Algarve e foi o único a recusar abandonar o local para salvar o que podia e proteger o sistema de som e as roupas.

Este foi apenas um dos 94 casos de inundação registados no concelho de Loulé, o mais fustigado pelo temporal no País, e onde, devido às cheias, 24 pessoas ficaram desalojadas, várias lojas de Quarteira contabilizaram prejuízos avultados e algumas vias ficaram condicionadas. O mau tempo obrigou ainda à suspensão do comboio em Boliqueime.

Ainda em Vale Judeu, Vitalina Aragão, de 85 anos, garante que nunca viu chover assim. "Quando fui espreitar a rua, mal tirei o pé da cama, já tinha água pela canela", lembra a idosa que vive sozinha. "Estava tudo alagado, móveis e electrodomésticos, e eu quase que caía com a enxurrada" descreve. "Então, peguei no meu cão e fugi para o sótão, à espera do meu filho", acrescentou.

O temporal que se fez sentir no Algarve e Alentejo "ainda é vestígio do mau tempo que assolou a encosta norte da Madeira", revelou ao CM o meteorologista Manuel Costa Alves. "Trata-se de uma depressão gerada no Atlântico que evoluiu em direcção ao Continente, perdendo força e intensidade com a aproximação", explicou o meteorologista, dando conta de que as condições vão melhorar: "A depressão passou no Continente já em fim de linha. No fim-de-semana o tempo melhora".

COMBOIOS OBRIGADOS A PARAR

A forte enxurrada arrastou a base de sustentação da linha férrea que atravessa o Algarve, entre as estações de Boliqueime e Loulé, e deixou os carris suspensos, obrigando os comboios a pararem logo pela manhã. A circulação ferroviária esteve suspensa e os passageiros foram obrigados a fazer transbordo através de autocarro. Durante a tarde, o problema foi resolvido por técnicos da Refer.

ESTRAGOS "BASTANTE GRAVES" NAS LOJAS DA BAIXA DE QUARTEIRA

Os estragos foram "bastante graves" nos estabelecimentos comerciais da Baixa de Quarteira, concelho de Loulé, revelou o presidente da junta de freguesia, José Mendes, sobre as inundações da madrugada de ontem. Vários lojistas garantem que a água atingiu dezenas de centímetros de altura.

José Carmo, 65 anos, que tem uma loja instalada na rua Vasco da Gama há 38, conta que a chuva era tanta que se tornou "incontrolável" e inundou a loja de imediato, mesmo com placas a tapar a porta.

Segundo o presidente da Câmara de Loulé, Seruca Emídio, as inundações na Baixa de Quarteira resultaram de uma combinação entre "a chuva, que caiu durante muito tempo e em muita quantidade, e a maré alta, que não permitiu que a água escorresse para o mar".

FIM-DE-SEMANA COM POUCA CHUVA NO CONTINENTE

As previsões do Instituto de Meteorologia para hoje apontam para a ocorrência de chuva, moderada a fraca, em todo o território continental. Ao longo do dia, as condições meteorológicas vão melhorar, prevendo-se que o fim-de-semana seja seco. No domingo, Dia de São Martinho, o sol já se fará notar, prolongando-se pelos primeiros dias da próxima semana, com ligeira diminuição da temperatura.

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