Espanha: Suicídio em acção de despejo reflecte estado da Europa

Secretário-geral da UGT espanhola, Candido Mendez (à esquerda) e o secretário-geral da Confederação Sindical de Comissões Operárias(CCOO), Ignacio Fernandez Toxo (à direita).
A greve geral agendada para amanhã une as várias undidades sindicais ©AP
O suicídio de uma mulher no País Basco quando estava a ser despejada de casa demonstra o «ponto de degradação» a que chegou a situação na Europa e exige uma mudança de política urgente, defendeu um líder sindical espanhol.«A desgraça de há uns dias, o suicídio da Amaia, quando a iam expulsar de sua casa, reflecte muito melhor que qualquer outra circunstância o ponto de degradação a que chegou a situação económica e democrática em Espanha, em particular, mas em toda a Europa em geral», disse em entrevista à Lusa Ignacio Fernández Toxo.
«Não é possível suster esta agenda que está a provocar um sofrimento tremendo à imensa maioria da população», disse o secretário-geral da CCOO (Confederación Sindical de Comisiones Obreras, de Espanha).
Para Toxo, o caso demonstra o falhanço de políticas de Governos que «foram a correr procurar medidas para salvar os bancos, ao mesmo tempo que se afundam os cidadãos» como «se não houvesse pessoas por detrás destes dramas que se estão a criar com a crise».
Toxo conversou com a Lusa, em antecipação da greve geral de quarta-feira, no Ateneo de Madrid, edifício que é considerado um dos símbolos do republicanismo em Espanha.
A conversa decorreu no antigo gabinete de Manuel Azaña, presidente de Espanha entre 1936 e 1939, no final da 2ª República, o que Toxo considerou «simbólico» de que hoje, na Europa, «um claro subproduto da crise económica é uma crise política de envergadura, com uma involução muito importante».
«A agenda europeia não é decidida por governos democráticos eleitos pelo voto dos cidadãos. Os Governo são meros intermediários (…) meros intérpretes dos ditos mercados financeiros, de interesses económicos poderosos, que representam de forma fiel o BCE e o FMI», afirmou.
«Talvez o único governo que tem hoje capacidade de decidir e que foi eleito, é o governo alemão, da senhora Merkel. Mas nós não votámos na senhora Merkel», afirmou.
Toxo rejeita a ‘mantra’ dos Governos de Espanha e de Portugal, entre outros, que usam o argumento de as medidas em curso serem a resposta ao facto de os cidadãos viverem acima das suas possibilidades, insistindo que isso não passa de «uma justificação para impor as políticas que estão a implementar».
«É mentira. Não é verdade que os cidadãos tenham vivido acima das duas possibilidades. Aqui quem esteve acima das suas possibilidades foram os gestores do sistema financeiro, as grandes corporações multinacionais que impuseram uma determina dinâmica económica na fase precedente à crise», afirmou.
Toxo recorda ainda as «vidas paralelas» de Portugal e Espanha e lamenta o que diz ser o recurso dos governos actuais a «fraseologias da ditadura» quando criticam as mobilizações nas ruas alegando que há uma «maioria silenciosa» que não protesta e aceita.
«É lamentável que governantes democráticos usem a mesma fraseologia que as ditaduras para justificar o injustificável», disse, insistindo que o actual Governo cometeu «fraude democrática» porque foi eleito com um programa «em tudo diferente» ao que está a implementar.
Sobre a esquerda europeia, Toxo diz que «não esteve à altura das circunstâncias (…) não soube interpretar o que vinha a caminho» e está, hoje, «a demorar muito tempo para construir uma alternativa».
«Por isso é muito importante que as cidadanias, as organizações da sociedade civil tomemos a palavra e a rua para dizer às pessoas que há esperança, outra forma de fazer as coisas e que se pode evitar tanto sofrimento como está sofrendo a população», afirmou.
Sobre a eficácia das greves gerais, Toxo admite que «de forma simples» se poderia dizer que nada mudou depois dos protestos já realizados, mas argumenta que isso ocorre porque Portugal, Espanha e a Grécia, entre outros, são hoje «laboratórios de provas e os poderes económicos e os seus intérpretes políticos sabem que se cedem num lugar o seu projecto para a Europa terá muito menos possibilidades de singrar».

Fonte: Lusa/SOL