Américo Henriques denunciou o escândalo e diz que o caso já lhe mete “nojo”.



Correio da Manhã - Tem acompanhado o processo judicial do caso de pedofilia da Casa Pia?

Américo Henriques - Não, porque já me mete nojo. É de uma pessoa ficar revoltada com a maneira como a Justiça funciona. O que isto possibilita é aqueles jovens, com uma vida muito atribulada, destruída na maioria dos casos... Não podem exigir que aqueles jovens, que sofreram tudo e mais alguma coisa - foram violados, drogados, explorados - tenham uma vida normal. Claro que a troco de cinco ou 10 mil euros vêm dizer que tudo o que disseram é mentira. Agora, que o nosso sistema de Justiça permita isto... Já sofri bastante com este processo. Agora, quanto mais longe melhor.

- Refere-se a Ilídio Marques, que veio desmentir as acusações. Não tem então dúvidas de que ele está a mentir agora?

- Eu não tenho dúvidas de que os jovens disseram a verdade à Polícia Judiciária, na instrução e no julgamento.

- E como justifica a nova versão apresentada por Carlos Silvino?

- O esquema mental é exactamente o mesmo. E estou em crer que também está em má situação económica. É a única explicação para aquelas reviravoltas. Isto são manobras de diversão que só podem ser pagas.

- Como recorda este processo?

- Eu andei anos armado em D. Quixote a lutar contra moinhos de vento que eram poderosos. O Carlos Silvino era expulso e voltava à Casa Pia porque havia gente muito poderosa por trás, a quem ele levava meninos. Eu questionava-me: ‘Como é que o provedor sabe tudo o que se passa com o ‘Bibi' e não actua?'.

- Apesar de estar desiludido com a Justiça, arrepende-se de ter dado a cara pela denúncia dos abusos sexuais?

- Não me arrependo. De maneira nenhuma. Este País, de 2002 para cá, não olha para a pedofilia com os mesmos olhos. Não continua a ser conivente com estas situações como acontecia até então. A pedofilia era até então um vício dos senhores poderosos. Hoje já não é assim. O processo Casa Pia teve um efeito didáctico e moralizante para este País e para as mentalidades. Claro que me deixa muita mágoa ainda não termos soluções jurídicas definitivas dez anos depois do início do processo.

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