Sindicato não se revê na violência

A PSP já deteve cerca de 20 estivadores em protestos. Mas o sindicato condena a 'arruaça'.No dia anterior à greve geral de 14 Novembro, um grupo de estivadores organizou um protesto espontâneo perto do Tivoli do Parque das Nações, Lisboa, onde decorria uma conferência sobre o sector dos transportes. Com os ânimos mais exaltados, alguns dos estivadores começaram a apedrejar um automóvel, o que fez com que a PSP disparasse tiros para o ar para dispersar os manifestantes.

O ‘confronto’ ficou marcado por alguma tensão, mas o presidente do Sindicato do Estivadores, Vítor Dias, garante ao SOL que foi um «episódio localizado» e que a polícia reagiu com «muita precipitação». O dirigente sindical admite que os estivadores têm uma forma de protesto «mais irreverente do que é habitual», mas que o sindicato «não se revê na arruaça».

O facto de haver alguns elementos mais agitados no grupo dos estivadores fez soar os alarmes. Muitos empregadores e elementos do Governo encaram com reticências uma requisição civil nos portos, porque a última vez que tal ocorreu, nos anos 90, houve agitação e material danificado nas empresas.

O SOL sabe que a PSP mantém, há meses, esta classe profissional sob vigilância. E já deteve cerca de duas dezenas de estivadores, sempre por violência e distúrbios causados no contexto de manifestações. Nem todos são responsáveis por estes comportamentos, mas há, de facto, um grupo que tem um comportamento «arruaceiro, do tipo hooligan», recorrendo com frequência a petardos e a tochas de sinalização – à semelhança de membros radicais das claques que também contribuem para o caos das manifestações.

No último protesto em frente ao Parlamento, apesar de muitos estivadores terem marcado presença, não se deveu a eles a violência: afastaram-se quando os distúrbios se intensificaram, pouco depois do fim do discurso de Arménio Carlos.

«Temos uma forma diferente de nos manifestarmos. Rebentamos petardos e usamos uma linguagem mais vernácula, que é comum no nosso meio profissional e não é encarada como uma ofensa. Mas não é mandando pedras à polícia ou partindo montras que conseguimos que a lei deixe de ser aprovada». Os distúrbios não têm o aval do sindicato: «Não posso controlar os meus 350 associados no dia-a-dia. Não sei muito bem o que é que eles fazem extra-trabalho», diz Vítor Dias, que recusa qualquer ligação a claques ou a organizações políticas.

O Sindicato dos Estivadores é independente, não pertence à UGT nem à CTGP. «Não me revendo em nenhum partido ou movimento, sou de Esquerda. Mas nunca perguntei a um associado ou colega de direcção qual é a cor partidária. Todo o espectro político está aí».

Há três meses em greves e protestos contra a nova legislação de trabalho portuário, os estivadores são um dos poucos sindicatos no sector privado com uma militância quase total. Em período de austeridade, tornaram-se um símbolo de contestação no meio. Nos anos 80, no Reino Unido, Margaret Tatcher enfrentou uma onda de greves de mineiros contra a reforma do sector. Não raras vezes, implicaram confrontos com a polícia e episódios violentos. Em Portugal, os mineiros de Passos Coelho chamam-se estivadores? «Não estou minimamente preocupado com isso. Estamos a protestar devido a uma questão laboral. Sentimos, isso sim, que somos um pólo de resistência. Já havia o hábito de, perante qualquer lei ou medida, as pessoas fazerem uma greve ou um protesto, mas depois aceitarem pacificamente as coisas».

Conseguem manter-se em protesto, desde Agosto, porque têm um fundo de greve, alimentado por contribuições dos próprios trabalhadores. Ou seja, quem não trabalha recebe um subsídio, e como a paralisação não é total, apenas aos turnos extraordinários, é possível mitigar os efeitos monetários da greve.

Fonte: SOL