'Gangue dos camiões' transforma-se em megaprocesso com 45 arguidos

O Ministério Público do Porto acusou 45 pessoas no âmbito de um mega processo por desvio de camiões carregados de mercadoria diversa, que acabava nas mãos de receptadores, a preços de saldo.
Eventuais ilícitos fiscais associados ao “gangue dos camiões” foram remetidos para inquéritos criminais autónomos, decidiu a 5.ª secção do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) do Porto.
Os 45 arguidos, sete dos quais presos preventivamente, estão acusados por um total de 390 crimes, de associação criminosa a furto qualificado e receptação.
Entre os acusados conta-se um empresário de Esmoriz, irmão do sucateiro Manuel Godinho, principal arguido do processo “Face Oculta”. Trata-se de Artur Ferreira Godinho, a quem o DIAP imputa a prática de sete crimes de receptação e um de detenção de arma proibida.
Segundo o despacho acusatório do processo, que a agência Lusa consultou, o esquema foi montado por um industrial têxtil de Vila Nova de Gaia, que recrutou outros empresários para a cúpula do grupo.
Para a parte operacional foram aliciados diversos motoristas, que recebiam 500 a 1.500 euros por cada acção e/ou comissões sobre o valor das vendas dos artigos aos receptadores.
Divergências no seio da rede, relacionadas precisamente com os pagamentos aos operacionais, levaram à constituição de vários subgrupos que se dedicaram às mesmas práticas, precisa a acusação.
Actuando a partir de 2010 em quatro dezenas de situações, a rede apoderava-se de camiões com semi-reboques, ou simplesmente dos semi-reboques, com o objectivo central de furtar toda a carga e de a encaminhar para receptadores a metade dos valores de mercado.
Depois de esvaziados, os camiões e/ou os semi-reboques eram abandonados mas, em alguns casos, a chamada "galera" também era vendida.
Ao desmantelar o grupo, há um ano, a PSP avaliou os furtos em mais de dois milhões de euros.
Na altura, foram apreendidos 10 tractores de semi-reboque e 14 semi-reboques, alguns dos quais furtados em áreas de serviço de auto-estradas como a A4 e a A17.
Em 72 buscas, a PSP recuperou ainda uma "quantidade muito significativa" de géneros alimentícios, incluindo toneladas de bacalhau, salsichas, farinha e bebidas.
O processo-crime agora concluído pelo DIAP tem mais de 60 volumes e só a acusação preenche 1.265 páginas.
A prova contra os 45 acusados alicerça-se basicamente em autos de busca, escutas telefónicas e dezenas de testemunhos, a maioria de polícias.
Nem todos os arguidos foram ainda notificados do despacho acusatório, uma vez que alguns se encontram em paradeiro desconhecido, um deles em território francês.
Embora aluda a facturas e vendas a dinheiro "fictícias", para "ocultar a origem ilícita dos bens", o despacho final de acusação defende que as suspeitas de crimes fiscais que recaem sobre alguns arguidos, incluindo o alegado mentor do esquema, "carecerão de melhor investigação".
Nesse contexto, optou por extrair certidões, a enviar a outros serviços do Ministério Público e, num caso que envolve um arguido de Badajoz, às autoridades judiciárias espanholas.

Fonte: Lusa/SOL