'Segundo financiamento é inevitável'

O economista João Ferreira do Amaral afirmou hoje que Portugal vai ter que ter «um segundo financiamento» no âmbito do programa de assistência da 'troika' e que este deve ser aproveitado para ser dirigido para a reindustrialização do país.
O economista, que falava na apresentação dos resultados do 'Budget Watch', um relatório elaborado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e a consultora Deloitte, disse ser «inevitável» a necessidade de um segundo financiamento, «mas dirigido de outra forma, juntamente com os fundos estruturais, para a vertente que foi esquecida», ou seja, «a formação da estrutura produtiva».
João Ferreira do Amaral adiantou estar convencido que o actual programa de assistência «falha naquilo que é essencial», «está mal concebido» e tenta solucionar o que é conflituante: a redução do défice externo e a redução do défice orçamental.
Para o economista, o plano «tem dois objectivos que são inconsistentes» que é a redução do défice externo, «na tradição do que o FMI costuma fazer», e a redução do défice orçamental, «um objectivo da União Europeia que faz parte dos Tratados», sendo que «na ausência de desvalorização da moeda estes dois objectivos são conflituantes».
E João Ferreira do Amaral dá exemplo da consolidação orçamental conseguida este ano, que nas palavras do economista «foi um 'flop'» já que a redução do défice orçamental «podia ter sido atingida com medidas sem nenhuma dor».
«Retirou-se os subsídios aos funcionários públicos e aos reformados, aumentou-se a carga fiscal e o resultado do ponto de vista orçamental é quase ridículo», acrescentou.
O economista adiantou que o programa da 'troika' falha no essencial porque «um dos aspectos essenciais na nossa crise é o económico, ao contrário da Irlanda, com uma estrutura produtiva muito distorcida», já que durante cerca de 15 anos «temos tido uma perda de peso progressiva na produção de bens transaccionáveis».
João Ferreira do Amaral considera que existe por parte da 'troika' e do Governo um «falhanço inadmissível na compreensão da estrutura da economia portuguesa», sublinhando não ser «aceitável» que a 'troika' e o Governo «tenham ficado surpreendidos com o aumento do desemprego».
Para Ferreira do Amaral, é um «erro brutal» a 'troika' tentar substituir uma desvalorização da moeda por «uma desvalorização fiscal e salarial».

Fonte: Lusa/SOL