Cabeça erguida e postura confiante, R.C. manteve-se firme ao passar por familiares e amigos das seis crianças, entre os 3 e os 10 anos, de que é acusado de ter abusado sexualmente, mais de sete mil vezes, na sua casa de Benfica. O informático, de 53 anos, começou a ser julgado em Lisboa – e fez ontem questão de olhar os antigos vizinhos nos olhos.

Responde, à porta fechada, por mais de 160 mil crimes de abuso sexual e pornografia de menores, entre 2007 e 2011. E na sessão que teve lugar na 2ª Vara criminal do Campus da Justiça, a primeira testemunha a ser ouvida foi a mãe de uma das vítimas. Segundo o CM apurou, a progenitora não conseguiu conter as lágrimas perante o colectivo de juízes – presidido por Clarisse Gonçalves –, na altura em que descreveu as semanas depois de o filho ter revelado os abusos de que foi vítima.

No exterior da sala de audiências, a mulher não escondeu a revolta face ao olhar intimidador do arguido, que está em prisão preventiva e ontem não depôs. "Estás a olhar? Vais pagar por tudo aquilo que nos fizeste", afirmou a mulher, em lágrimas.

Foram ouvidas cinco testemunhas de acusação: dois familiares directos, um psicólogo e dois amigos das famílias das vítimas – abusadas quando ficavam à guarda do vizinho, que se oferecia para brincar com elas enquanto os pais iam trabalhar. "Ele não mostra qualquer arrependimento e ouve-nos sempre de cabeça levantada", diziam.

A sessão baseou-se no testemunho dos familiares directos e, sobretudo, do psicólogo de um dos menores – três rapazes e três raparigas. O perito relatou o processo de recuperação do menor – este sentira-se envergonhado ao perceber os mais de 600 abusos de que fora alvo e receava a reacção dos seus colegas de escola, caso descobrissem. O julgamento prossegue hoje.

cm