De pequena em pequena alteração se chega à mudança de fundo no novo Acordo Ortográfico. No Brasil, o maior país de língua portuguesa, está-se a preparar um decreto presidencial para adiar a vigência do documento só para 31 de Dezembro de 2015, em vez de 2014. A medida deixou Portugal, que segue todos os prazos, na expectativa. Se de um lado ainda se aguarda que a presidente Dilma Rousseff assine o documento que atrasa o acordo, a Academia Brasileira de Letras já apresentou, nesta semana, propostas de mudança e ampliação.

Apesar de os brasileiros defenderem que se trata de "coisa muito pequena" face ao acordo, há mudanças e a procura por se contornar as excepções às regras.

Uma das ideias sugeridas é a perda do hífen duplo quando a palavra hifenizada está partida no fim de uma linha. Ou seja, defende-se que não é preciso repeti-lo – por exemplo, em ‘guarda-chuva’, a palavra é escrita ‘guarda-’ e depois apenas ‘chuva’.

Outra sugestão passa pela regra dos ‘porquês’. No Brasil, ainda está muito presente a distinção entre ‘porque’ quando é conjugação de causa ou explicação, e ‘por que’, nas perguntas. Algo que, para a academia, já não é tão vulgar em Portugal, que usa ‘porque’ em ambos os casos. Ora, a ideia é universalizar este uso.

Apesar de querer mudanças, Evanildo Bechara, o académico que participa no debate, disse à Agência Brasil que alterar só faz sentido após haver acordo: "É importante que o acordo seja implantado sem demora, para que daqui a um ou dois anos, quando todas as dúvidas e dificuldades aflorarem pelo uso, os governos se reúnam mais uma vez".

ALGUNS A FAVOR PARA MUITOS CONTRA

"A língua portuguesa não é património de Portugal." A frase é curta e não deixa margem para dúvidas quanto à posição do seu autor. Fernando Cristóvão, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, é um dos defensores da nova grafia, que defende como essencial para a internacionalização do português.

Porém, são talvez mais as vozes discordantes, ou pelo menos cépticas quanto ao novo Acordo Ortográfico. Entre pensadores como Óscar Lopes, Eduardo Lourenço e Manuel Alegre, também o escritor, ensaísta e presidente do CCB Vasco Graça Moura é das vozes de oposição mais veementes desde o início. Quanto a Alegre, o poeta diz que "[o acordo] abrasileirou a língua portuguesa" e "é uma capitulação e descaracterização do idioma".

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