A escola de samba “Mocidade Alegre”, que no ano passado já vencera com um enredo sobre o centenário de nascimento do lendário escritor Jorge Amado, sagrou-se no final desta terça-feira bi-campeã dos desfiles de Carnaval de São Paulo, quando foram abertos os envelopes com as notas dos jurados. A escola, que empolgou o público no Sambódromo do Anhembi, na zona norte da capital paulista, ao desfilar na madrugada de sábado para domingo, venceu este ano com o enredo O poder da sedução me fez ceder à tentação. Da versão original, qual será o final”, que questionou com muito humor alguns dogmas da Humanidade.

A idéia, extremamente bem colocada na avenida, com o uso de muita criatividade, luxo e cor e, é claro, até por falar no pecado original, com muita sensualidade de inúmeras mulheres lindas e semi-nuas, foi questionar o quanto de verdade existe em tudo aquilo que é passado de geração em geração e de alguma forma limita as nossas acções. Foram invertidas até histórias inocentes que nos contam quando crianças, como a da pura e doce Branca de Neve, que no desfile da escola se transformou numa mulher horrível que se diverte a comer criancinhas como se fossem guloseimas.
Logo na abertura do desfile, uma serpente gigantesca convidava o público a morder uma enorme maçã, incitando todos ao pecado original, que, aliás, dava vontade de cometer mesmo, ante a beleza das destaques que enfeitavam o carro alegórico e as alas, entre elas várias modelos e actrizes. A escola questionou se os pecados, pelo menos alguns, como a luxúria e a gula, nos levam realmente ao inferno ou se, pelo contrário, nos podem mostrar o verdadeiro paraíso.

TERCEIRA COM GOSTO DE PRIMEIRA

A tradicional escola “Rosas de Ouro”, que desfilou de sexta para sábado e também empolgou o público com um luxuoso enredo sobre as maiores festas populares do planeta, como o Carnaval de Veneza, o Dia dos Mortos no México e o Festival de Máscaras nas Filipinas, obteve exactamente o mesmo número de pontos que a campeã, mas, pelo critério de desempate definido dias antes, ficou em segundo lugar, deixando toda a sua direcção inconformada. Este ano, para evitar tumultos como os ocorridos no ano passado, quando adeptos de uma escola que não concordaram com a votação invadiram o palco e destruiram parte das notas, a abertura dos envelopes foi feita sem público, podendo cada escola enviar apenas 10 representantes.

Em terceiro lugar, com um enredo evocando e homenageando grandes nomes do samba, ficou a “Águia de Ouro” que, apesar disso, comemorou como se tivesse sido a campeã. É que a escola foi punida com a perda de um ponto e um décimo por ter ultrapassado o tempo máximo de desfile e, se não tivesse sofrido essa punição, teria sido realmente campeã, pois somou mais votos que as duas que ficaram à sua frente.

“MANCHA VERDE” E “VILA MARIA” REBAIXADAS

As duas escolas rebaixadas para o grupo secundário do Carnaval paulista foram a “Mancha Verde”, ligada ao clube de futebol Palmeiras, que, curiosamente, também foi rebaixado no final do ano para a divisão inferior do campeonato brasileiro, e a “Unidos da Vila Maria”. Esta última desagradou aos jurados apresentando um enredo sobre a imigração coreana com muito luxo mas excesso de tecnologia, que fez a escola perder a irreverência e a alegria, ficando mais técnica que natural.

Já no caso da “Mancha Verde”, pode dizer-se que o rebaixamento foi uma surpresa, pois a escola foi um dos grandes destaques na primeira noite dos desfiles. Apresentando um enredo em homenagem ao saudoso compositor, escritor e actor Mário Lago, falecido em 2002 aos 91 anos e que os portugueses viram em dezenas de novelas da Tv Globo, a “Mancha Verde” foi uma das mais elogiadas e arrancou aplausos contínuos do público enquanto evoluía no sambódromo.

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