Era o único britânico no lote de eleitores do próximo papa, mas uma denúncia de comportamento inapropriado levou o cardeal Keith O’Brien a deixar o governo da arquidiocese de Saint Andrews e Edimburgo, na Escócia, e a resignar da participação no conclave.

Uma semana antes do anúncio da resignação de Bento XVI, três padres e um antigo seminarista apresentaram, na Nunciatura Apostólica do Reino Unido, uma denúncia de "atos impróprios" praticados há 33 anos pelo agora cardeal.

Um dos sacerdotes alegou ter sido vítima de atenções não desejadas do cardeal e outro denunciou que Keith O’Brien aproveitava orações noturnas para ter "contactos inapropriados".

O cardeal, que há uma semana dissera que teria imenso orgulho em participar na escolha do próximo líder da Igreja, optou agora por não se deslocar a Roma, "para não ser o centro das atenções".

"Pelos meus anos de ministério, agradeço a Deus por todo o bem que pude fazer. Pelos meus fracassos, peço perdão a todos os que ofendi", disse, em comunicado.

Os escândalos sexuais na Igreja têm ensombrado este período de pré-conclave. Já o antigo arcebispo de Los Angeles tinha sido pressionado a não se deslocar a Roma, por, alegadamente, ter encoberto casos de pedofilia, mas Roger Mahony não acatou essas recomendações e já está no Vaticano, onde participará nas cerimónias de despedida de Bento XVI.

INÍCIO DA ELEIÇÃO PODE SER ANTECIPADO

A Santa Sé anunciou ontem que, através de um "motu proprio", o papa Bento XVI autorizou a antecipação ou adiamento, por alguns dias, do início do próximo conclave. Desta forma, o papa atribuiu maior liberdade aos cardeais, permitindo que organizem o processo de escolha do seu sucessor sem ter em conta a regra dos 15 a 20 dias após a resignação.

OPINIÃO: JOÃO CÉSAR DAS NEVES

UM GRANDE PAPADO

O balanço do papado é espantoso: Bento XVI começou numa posição muito difícil, mas desempenhou funções com serenidade, certeza e segurança, a maioria das resoluções pouco visíveis, mas muito importantes, como a forma como lidou com os problemas da pedofilia ou do banco do Vaticano. Foi um dos grandes papados, apesar de curtinho. Sobre o novo papa: não é muito importante para a Igreja as questões da quota e da geografia. Os cardeais estão a rezar para serem iluminados para escolher o melhor representante. João Paulo II e Bento XVI foram surpresas, o que prova que as especulações não se concretizam.

O principal desafio: a continuidade. Este papa foi quase indicado por João Paulo II. A situação da Igreja é sempre difícil, mas há um rumo muito claro. A questão da pedofilia já é um problema antigo, mas este papa deu uma resposta muito clara; também os problemas financeiros ficaram resolvidos e há hoje regras que determinam muito mais transparência. Mas uma vez resolvidos uns problemas, surgem outros e a casa nunca está arrumada.

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