Biomas – o nível superior das comunidades

Nuno Leitão



As comunidades de seres vivos podem ser caracterizadas a vários níveis. Os biomas correspondem a grandes biossistemas regionais, representados por um tipo principal de vegetação, que é o reflexo das condições climáticas dessa região.

Todos os organismos estão adaptados a viver num determinado tipo de ecossistema (numa determinada comunidade que interage com o ambiente físico). A adequação de cada ecossistema a uma região depende da presença da fauna e flora aí adaptadas e de factores ambientais críticos, como a altitude, a precipitação e a temperatura. Os climas regionais interagem, portanto, com o biota e o substrato, para formar comunidades amplas ou Biomas. Esta é a unidade de comunidade terrestre mais ampla que interessa reconhecer. Cada Bioma é caracterizado por uma determinada comunidade vegetal “climax”, que se mantém relativamente estável nas condições climáticas típicas de uma determinada região. Desta forma, a vegetação proporciona uma base sólida de classificação ecológica, reflectindo o clima e a fauna de cada região. Os Biomas não devem ser confundidas com as regiões ou subregiões biogeográficas (regiões caracterizadas pela presença de determinadas plantas ou de animais).

Em todo o nosso planeta existem vários Biomas, que definem um complexo de comunidades existentes numa determinada gama de condições. Os Biomas são definidos a uma grande escala, pelo que um determinado Bioma pode conter ecossistemas que não lhe são característicos, ou pode mesmo surgir dentro de outros Biomas, devido, por exemplo, a alterações de altitude.

Apenas considerando o Paleárctico Ocidental (região zoogeográfica que engloba a Europa, a Ásia Ocidental e o Norte de África), podem ser encontrados os seguintes Biomas:


- Tundra

- Floresta Boreal

- Floresta Caducifólia Temperada

- Mediterrâneo

- Estepe

- Deserto


Tundra (Árctico)

Esta região encontra-se entre o limite Norte da Floresta Boreal e o limite Sul do gelo permanente. Aqui a temperatura média no Verão nunca excede os 10ºC, e esta estação, com dois meses sucessivos em que não há noite, corresponde ao curto período de crescimento das plantas, quando a superfície do solo não está gelada. No Inverno, a noite está presente durante os dois meses desta estação, e tudo fica congelado, registando-se uma contínua cobertura de neve. As médias anuais de precipitação rondam os 250 mm.

A vegetação desta região é muito distinta, correspondendo a uma pradaria húmida árctica, composta por líquenes, gramíneas, ciperáceas e plantas lenhosas anãs.


Fotografias de José Romão

Floresta Boreal ou Floresta de Coníferas do Norte (Taiga)

Esta região forma uma banda quase contínua (com a largura de 1500 km) ao longo do hemisfério Norte. No Norte faz fronteira com a Tundra e a Sul com a Floresta Temperada. O clima é fortemente influenciado pelas massas de ar frio polares. Os Invernos são muito frios, com temperaturas médias abaixo do – 7ºC. A cobertura de neve pode durar mais de 6 meses pelos dias curtos de Inverno. Os pequenos Verões são mais quentes, com temperaturas acima dos 15ºC. As precipitações anuais raramente excedem os 500 mm.

O período de crescimento das plantas varia entre 100 a 160 dias.

A vegetação é dominada por resinosas, como as píceas, abetos e pinheiros. Nalgumas áreas domina apenas uma espécie, sendo a Picea picea o melhor exemplo, cedendo a dominância para o Pinus sylvestris nas zonas mais secas. Determinadas manchas e ao longo dos rios surgem folhosas, como a Betula pubescens. Como arbustos surgem várias espécies do género Salix e da família Ericaceae.

Floresta Caducifólia Temperada

Mais a Sul, com a humidade e os ventos marítimos a atenuarem os climas continentais mais severos, a monótona Floresta Boreal começa gradualmente a dar origem a este Bioma, com maior riqueza de espécies. Com precipitação abundante (com mínimos de 750 – 1500 mm até 3000 mm nalgumas montanhas) e temperaturas moderadas.

No Paleárctico a vegetação característica deste Bioma ocupa uma área muito limitada e fragmentada, devido às últimas glaciações e desflorestações. Verifica-se um grande contraste entre o Inverno e o Verão no coberto vegetal, devido à queda de folhas na época fria. Na Europa distinguem-se dois Sub-biomas, ocorrendo um na zona de clima Atlântico e o segundo na zona de clima continental da Europa Central. Na zona de clima Atlântico verifica-se uma maior nebulosidade e maior humidade. Não há uma distinção definida entre as estações de chuva, que se distribui por todo o ano. A cobertura pela neve pode durar até 3 meses.

Como o seu nome sugere, este Bioma é dominado por folhosas caducifólias, apesar de se encontrarem várias massas dominadas por árvores do género Pinus. De entre as folhosas salientam-se várias espécies de Quercus, Fagus, Tilia, Acer, Ulmus, Castanea e Fraxinus.


Fotografias de José Romão

Mediterrâneo ou Chaparral

Este é o Bioma mais distinto do Paleárctico Ocidental e Portugal encontra-se nesta região. Os Invernos são moderados e chuvosos, enquanto os Verões são quentes e secos. A quantidade de precipitação depende muito da proximidade da costa, da altitude e da presença de sistemas montanhosos e dos ventos dominantes, podendo variar entre cerca de 500 a 4000 mm por ano.

A vegetação é dominada por árvores e arbustos esclerófitos, com as suas folhas espessas e perenifólias. A vegetação herbácea característica morre no Verão, enquanto a Primavera caracteriza-se por uma grande diversidade de plantas anuais.

Estepe ou Temperado de Pradaria

Esta zona temperada tem precipitações baixas (400-500 mm), pelo que as árvores apenas se apresentam nas imediações de massas de água, proporcionando as típicas pastagens naturais.

A vegetação é composta por várias espécies herbáceas, principalmente da família Fabaceae e da família Asteraceae.


Deserto

No Sul da região do Paleárctico Ocidental, os Biomas do Mediterrâneo e de Estepe convergem para o Deserto. A precipitação aqui raramente excede os 200 mm por ano, e ocorre normalmente no Inverno. No Verão as temperaturas médias são acima dos 30ºC. Os ventos são muito fortes e a evapotranspiração muito elevada mantém os solos geralmente degradados.

A maioria das plantas é anual, com um ciclo de vida muito rápido. Durante um curto período do ano, os desertos apresentam uma cobertura vegetal, a não ser que as condições edáficas (do solo) não o permitam. Aparecem ainda as plantas suculentas, como os cactos, e arbustos muito ramificados devido aos seus curtos troncos.

Montanha


As regiões montanhosas não são verdadeiros Biomas, mas têm um efeito considerável no clima, vegetação e fauna da região. Nestas zonas existe uma tendência para haver uma rápida sucessão de comunidades, à medida que a altitude aumenta. A altitude tem um efeito semelhante ao da latitude, definindo bandas de comunidades idênticas, mas mais estreitas. Assim, por exemplo, a Tundra ou a Floresta Boreal podem ser encontradas na região de Floresta Temperada.


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