'Não gosto de me ver como uma referência'

Canta desde os 10 anos, mas só agora lança a primeira compilação, intitulada O Melhor de Camané 1995/2013.
O disco reúne os temas mais importantes da sua discografia e celebra uma carreira que já influencia jovens cantores. Muitos procuram o fadista para lhe pedir conselhos.Melhor de Camané 1995/2013 celebra 18 anos de edição. Foi difícil fazer a selecção dos fados a incluir?
Este formato é interessante porque até eu, quando quero ouvir a obra de um músico que não conheço, compro o best of. Como acontece sempre neste tipo de discos, a ideia foi juntar os temas mais importantes da minha carreira, mas preferi que fosse outra pessoa a fazer essa escolha. Quis que houvesse uma visão de fora e o alinhamento foi feito pelo David Ferreira.
Não consegue olhar com distância para a sua obra?
Não oiço muito os meus discos que estão para trás. Prefiro essa visão de fora, de alguém que conhece bem o meu trabalho. Também foi uma maneira de não stressar muito porque há sempre temas que ficam de fora.
Por que não ouve os seus discos?
Estou sempre a olhar para os defeitos. Não consigo ter prazer em me estar sempre a ouvir. Só oiço quando gravo coisas novas, como os três inéditos que incluí neste disco. Mas também já parei de os ouvir porque já percebi que não há mais nada a fazer... Não posso ir lá gravar outra vez.
É perfeccionista?
Sou. Por um lado é bom, mas acaba por ser chato porque tenho dificuldade em ter paz. Encontro sempre um defeito que me incomoda e espero sempre que as pessoas não o percebam.
Então nunca atinge a satisfação plena?
A insatisfação é permanente em relação ao meu trabalho. Não consigo descansar. Onde me sinto mais à vontade é no palco porque os temas depois de cantados várias vezes ganham outra dimensão, vão melhorando. Às vezes a interpretação é melhor, outras pior, mas há sempre a possibilidade de fazer emendas. De fazer e descobrir coisas diferentes.
Apesar de não ouvir os discos, permite-se olhar para trás?
Sim, olho muito, e agora, quando começar a preparar os concertos de amanhã, em Guimarães, de terça no CCB e de dia 29 de Junho na Casa da Música, vou ser obrigado a ouvir temas que já não cantava há imensos anos.
Incluiu três inéditos. Eram temas que queria gravar há muito?
O ‘Ai Margarida’, com música do Mário Laginha e poema de Álvaro de Campos, surgiu num projecto que tivemos há uns anos, que se chamava Os Vadios, com o Bernardo Sassetti. Na altura, foi combinado que cada um deles faria uma música para mim e o Laginha fez esta. Nunca houve a oportunidade de a gravar antes, mas surgiu agora.
Não houve a tentação de trazer o tema do Sassetti?
Esse tema não ficou totalmente pronto e por isso achei que não fazia sentido neste enquadramento. Quem sabe num disco futuro. Também gravei um tema inédito do Alain Oulman, ‘Ai Silvina, Silvininha’, que o filho dele me ofereceu, e o ‘Gola Alta’, de um poeta que gosto muito, o Henrique Segurado. A música é adaptada de um fado do Alfredo Marceneiro, a ‘Senhora do Monte’.
Estão assinalados cento e tal fados. Tem isso tudo na cabeça?
Está tudo cá dentro, interiorizado. Conheço as músicas todas e quando, às vezes, não me lembro de uma melodia qualquer basta trautearem-me um bocadinho da primeira frase e já não precisam de dizer mais nada. Conheço a lógica, as posições... Isso era o que o meu pai me fazia quando eu tinha 10 anos. Lembrava-me as primeiras notas e eu apanhava logo aquilo. Quando ele começava a cantar, dizia-lhe logo para se calar para não me influenciar.
Conta também com a participação dos Dead Combo. São amigos de longa data?
Há uns anos houve um disco em que me juntei com o Pedro Gonçalves e o Tó Trips e cantámos um fado do António de Matos. Há um grupo de meus amigos, malta que não tem nada a ver com o fado, que é fã do Tony de Matos. É engraçado perceber como, passados muitos anos, me reencontrei com a minha geração através do fado. Quando comecei a cantar, os meus amigos gozavam comigo na rua. Era considerado o esquisito e comecei a esconder-me em casa a ouvir os discos de fados, bossa nova e jazz. Hoje até organizo jantares só para ouvirmos o Tony de Matos.
Esse preconceito está ultrapassado?
Os grandes intérpretes da música portuguesa sempre foram fadistas. Cantavam poemas fantásticos, mas as pessoas gostavam mais de música ligeira. Havia muitos preconceitos, uma coisa ridícula.
É raro vê-lo gravar temas de outros fadistas...
Sempre achei que não tenho muito a acrescentar aos fados de outras pessoas. Em vez disso procurei construir o meu repertório. Há situações em que gosto tanto de certos fados que os canto em palco, mas nos discos nunca.
Esse respeito que tem pelos fadistas mais velhos é-lhe retribuído pelos jovens cantores que começam a surgir?
Não gosto de me ver assim, como uma referência. Mas é verdade que me procuram e pedem conselhos. Nestes anos todos conheci muitos miúdos que me dizem que começaram a ouvir fado comigo, da mesma maneira que eu comecei com o Marceneiro, o Carlos do Carmo, a Amália...
Já escreveram que se tivesse nascido mulher era o natural sucessor de Amália. Concorda?
A Amália não precisa de sucessores e eu não quero ser o segundo ninguém. Quero é ser o primeiro de mim. Sei que dizerem isso é elogioso, mas ainda bem que sou homem.

Fonte: SOL