Prevenção e controlo de Mamites em vacas leiteiras

A Mamite é a doença mais frequente e com maior impacto económico negativo nas explorações produtoras de leite. As perdas económicas traduzem-se através do leite que não é utilizado para venda, das reduções ou perda total da produção, do aumento de custos com o veterinário, medicamentos e aumento de mão-de-obra. O custo do impacto de uma mamite cifra-se por volta dos 200 euros, não contabilizando os prejuízos causados pela baixa da qualidade do leite (células somáticas altas e elevado teor microbiano), pelo impacto negativo que tem na saúde pública e no abate prematuro de vacas com elevado potencial para produzir.

O termo Mamite refere-se á inflamação da glândula mamária como resposta a uma infecção (penetração de agentes infecciosos através do canal do teto). Sempre que existe Mamite pressupõe-se a existência de infecção e de inflamação.

As Mamites bovinas podem ser classificadas em três categorias diferentes de acordo com o seu grau de inflamação:

Mamite Subclínica - Trata-se de uma forma da doença na qual não são detectadas alterações físicas observáveis nem no úbere, nem no leite. No entanto, são responsáveis pelo aumento das células somáticas no leite e constituem um reservatório de microrganismos que leva a contaminação de outros animais do efectivo.

Mamite Clínica - Caracteriza-se por alterações observáveis no leite (grumos ou farrapos, coalhos ou aparência aquosa) e sinais clínicos tais como: aumento do volume do quarto infectado, vermelhidão, redução acentuada da produção, febre, perda de apetite, desidratação, podendo em algumas casos conduzir á morte. Consoante a gravidade dos sintomas podemos as considerar em sub-agudas, agudas ou hiper-agudas.

Mamite Crónica - Surge quando as Mamites clínicas ou subclínicas não foram tratadas, ou não responderam favorávelmente ao tratamento e prologaram-se no tempo. Verificam-se alterações consideráveis no úbere (permanece duro ou noduloso). Normalmente alternam entre a forma subclínica e clínica.

Para melhor compreender a etiologia das Mamites e fazer uma prevenção eficaz é necessário conhecer quais os factores predisponentes para a sua ocorrência.

Os factores ambientais e de maneio são os principais responsáveis pela variação da taxa de infecções observadas na maioria das explorações. O clima, a estação do ano, o tamanho do efectivo, o tipo de estabulação, a alimentação e o stress influenciam a incidência das Mamites. Estes factores também interagem com factores genéticos e fisiológicos, tais como: fase da lactação, o nível de produção de leite, o número de ordenhas e a gestação.

Grande parte das infecções ocorrem quando a vaca está deitada com os tetos em contacto com camas sujas, húmidas e enlameadas. É fundamental que a vaca permaneça limpa e repouse em camas secas. Deve-se evitar a concentração de vacas em locais húmidos e enlameados, situação que ocorre com frequência em muitas das nossas explorações no Outono e Inverno. O contacto contínuo com o ambiente conspurcado leva a que a pele dos tetos fique muita seca e gretada que é um factor propício há infecção. As deficiências vitamínicas e minerais também aumentam a susceptibilidade. Alguns micro- nutrientes essenciais( Vit. A, Beta-Caroteno, Vit. E, Cobre e Selénio) influenciam a resistência ás Mamites. Devemos dar particular importância ao Selénio visto que as nossas pastagens são muito deficitárias neste mineral. Deve-se assegurar o seu fornecimento nos períodos mais críticos, tais como: o período seco e periparto.

O correcto procedimento na rotina da ordenha é fundamental para evitar o aparecimento de Mamites. Uma ordenha eficaz permite a remoção do leite com o mínimo de riscos para a saúde do úbere e limita a disseminação de Mamites contagiosas pelo efectivo, conseguindo-se uma produção de leite com qualidade e com baixo teor microbiano. O produtor para além de beneficiar com o reduzido número de Mamites aumenta a produção e reduz o tempo despendido por ordenha.

O uso de luvas é muito importante porque a superfície rugosa das mãos e muito difícil de desinfectar o que contribui para a disseminação de Mamites contagiosas. As luvas devem estar sempre limpas, ou seja devem ser mergulhadas em soluções desinfectantes repetidamente quando se passa de vaca para vaca. A limpeza dos tetos é fundamental para a produção de leite de qualidade. A lavagem deve incluir apenas os tetos e nunca o úbere. Se o úbere for lavado, a água da escorrência vai pingar na ponta do teto. Nesta altura como o canal do teto já se encontra aberto, as bactérias presentes na água conspurcada da escorrência penetra no teto, ou ainda pode ficar acumulada no fundo da tetina, contribuindo para infectar as vacas e aumentar o teor microbiano do leite.

Sempre que lavar os tetos deve usar água limpa da corrente, nunca usar em baldes com panos ou esponjas usadas em várias vacas. Quando não existir água corrente e os tetos não se encontrarem muito sujos, é preferível não os lavar. Depois de lavados, os tetos devem ser secos com panos ou toalhetes individuais. Nunca usar um toalhete em mais de uma vaca porque as Mamites são extremamente contagiosas (disseminam-se facilmente pelos toalhetes). Não ligar as tetinas com tetos molhados porque estas facilmente escorregam, dificultando assim a ordenha e magoam o teto. A desinfecção dos tetos antes da ordenha deve ser executada para reduzir o número de bactérias presentes no teto antes da colocação das tetinas. Antes de colocar as tetinas é fundamental remover os primeiros jactos de leite, pois estes ajudam a detectar a presença de Mamites, contribui para o reflexo de descida do leite (apoijar) e retira o leite existente no teto com uma carga bacteriana elevada. Depois dos tetos preparados, as tetinas devem ser colocadas o mais rápido e correctamente possível, devem assentar confortavelmente no úbere e sem torções. Quando torcidas são desconfortáveis para a vaca, podendo originar retenção de leite, possibilitando a entrada de ar e aumenta o risco das tetinas caírem e serem pisadas. Finalizada a ordenha a uma vaca as tetinas devem ser mergulhadas numa solução desinfectante antes de serem ligadas novamente a outra vaca.

A ordenha deve ser efectiva, ou seja, deve-se evitar que o leite residual seja significativo. Quando uma vaca fica com o leite "escondido" a possibilidade de contrair uma Mamite aumenta. Sempre que uma vaca, por qualquer razão, não liberta o leite ( por exemplo por Mamite ou cio) deve-se favorecer a sua libertação através da administração de oxitocina.

Sabe-se que é muito difícil estabelecer uma ordem na ordenha em vacas que estão constantemente em pastoreio. De forma a reduzir a disseminação de Mamites, seria benéfico que estas fossem ordenhadas pela seguinte ordem:

1º - Vacas recém-paridas

(mais susceptíveis a Mamites);

2º - Vacas de alta produção;

3º - Vacas de produção média;

4º - Vacas de baixa produção;

5º - Vacas com células

somáticas altas;

6º - Vacas com Mamites

e/ou em tratamento.

A frequência de ordenha também interfere com ocorrência da doença, quanto maior o número de ordenhas menor será o risco de contrair Mamite.

A máquina de ordenha actua fisicamente como um vector, disseminando as bactérias mamíticas entre vacas, através do leite contaminado que permanece nas tetinas. Durante a ordenha as infecções também podem-se disseminar entre os diversos quartos, se ocorrer refluxo de leite pelos tubos curtos.

As lesões nas extremidades dos tetos provocados pela sobre-ordenha "ordenha em demasia" e por níveis elevados de vácuo aumentam o risco de contrair Mamite. Uma correcta manutenção e frequente inspecção da máquina é fundamental. Sempre que uma vaca estiver ordenhada deve-se desligar as tetinas para evitar a sobre-ordenha. Devem-se evitar as forças de impacto "diferenças de pressão entre a extremidade do teto e o colector do leite". Estas forças podem conduzir á penetração do leite através do canal do teto. Se este leite estiver contaminado com bactérias causadores de Mamite é possível que ocorra uma nova infecção. Estas forças são tanto maiores se houver a ocorrência das seguintes situações:

1º - Ordenhar vacas com

os tetos húmidos;

2º - Uso de tetinas gastas

ou deformadas;

3º - Níveis baixos de vácuo;

4º - Incorrecto desenho

das tetinas;

5º - Elevado peso da unidade

de ordenha (nunca usar pedras

ou força manual para aumentar

o peso das tetinas);

6º - Vacas com os tetos muito

pequenos ou muito grandes;

7º - Grandes flutuações

de vácuo durante a ordenha;
Sempre que é detectada uma Mamite, a vaca deve ser identificada, "sinalizada", retirada da linha de ordenha e ordenhada em último lugar. Desta forma elimina-se o risco de leite mamítico ou com antibiótico entrar no tanque de recolha e também o risco de disseminação da infecção ao resto do efectivo.

Na altura do parto, as defesas do úbere estão diminuídas, tornando assim as vacas mais susceptíveis. É fundamental, assegurar que estas no peri-parto sejam mantidas em lugares limpos e secos e manter uma vigilância contínua ao aparecimento de Mamites agudas.

Deve-se evitar adquirir animais susceptíveis de transportar microrganismos contagiosos de outras explorações leiteiras. Sempre que esta situação ocorra deve-se fazer uma quarentena aos animais recém-adquiridos, até que se conheça o estado sanitário da glândula mamária.

Os tratamentos utilizados devem ser os mais adequados aos microrganismos existentes na exploração, para que não ocorram falhas no controlo. Falhas a este nível podem conduzir ao aparecimento de estirpes multirresistentes, causando inúmeras perdas.

A incorrecta aplicação de intra-mamários pode permitir a entrada de microrganismos, naturalmente resistentes aos antibióticos, causando Mamites crónicas. Daí que a desinfecção da ponta do teto com álcool, iodo (betadine) ou toalhetes seja obrigatória. Nunca usar o mesmo injector em mais do que um teto, nunca contactar com a mão ou outra superfície com a ponta do injector sem tampa. Estes procedimentos são fundamentais para evitar a contaminação no momento de efectuar o tratamento.

Embora apenas 10% da resistência às Mamites sejam de origem genética devem-se usar touros cujas filhas tenham uma baixa concentração de células somáticas. A selecção no melhoramento dos úberes e tetos é fundamental, úberes bem inseridos cujo os tetos tenham extremidades arredondadas têm uma menor incidência de infecções, do que os úberes caídos e com as extremidades dos tetos pontiagudas, invertidas ou em disco.

As vacas mais velhas, normalmente, têm uma maior incidência de Mamites e aumento de células somáticas. Isto apenas porque estão durante mais tempo expostas aos agentes patogénicos e aos restantes elementos agressores e não porque o aumento das células somáticas esteja necessariamente ligado à idade da vaca.

O período de lactação também está directamente ligado á contagem de células somáticas, na altura do parto estas estão consideravelmente elevadas, reduzindo-se depois rapidamente até ao pique de lactação para aumentar novamente de uma forma gradual até ao período de secagem. Este aumento deve-se provavelmente não à fase de lactação mas sim à prevalência crescente de Mamites subclínicas ao longo da mesma.

As Mamites são causadas por vários agentes patogénicos, principalmente por bactérias, mas também por outros microrganismos, incluindo leveduras, micoplasmas e até algas. Os agentes patogénicos mais comuns podem ser divididos em duas categorias, quanto à sua origem e epidemiologia:

Agentes contagiosos - (Streptococcus agalactiae, Staphylococcus aureus, Mycoplama spp., Corynebacterium bovis) penetram na glândula mamária através do canal do teto. O úbere infectado é a principal fonte destes agentes e a sua transmissão às vacas e aos quartos não infectados ocorre principalmente durante a ordenha.

Agentes Ambientais - São muitos, embora os mais frequentes sejam as bactérias Coliformes e o Streptococcus spp. Tal como os agentes contagiosos chegam ao úbere através do canal do teto e residem fundamentalmente no ambiente da vaca leiteira, camas húmidas, sujas etc. A exposição dos quartos não afectados a estes microrganismos pode ocorrer em qualquer momento da vida da vaca, principalmente durante o período seco, em novilhas antes do primeiro parto e em vacas durante a ordenha ou no intervalo entre ordenhas. Uma forma de reduzir a sua incidência é manter as vacas de pé logo após a ordenha, fornecendo-as comida, uma vez que o canal do teto permanece aberto cerca de 30/40 minutos. Evitando deitar as vacas neste período, certamente reduzirá a possibilidade destes agentes presentes no ambiente penetrarem nos tetos. É importante salientar que as camas e os locais onde os animais vão permanecer devem-se encontrar o mais limpo possível.

Embora, o bem tratar as Mamites clínicas seja importante, o fundamental é saber preveni-las e controlá-las. Neste sentido deve ser realizada uma análise dos parâmetros do efectivo, para serem tomadas as medidas correctivas, se necessárias.

No quadro seguinte são apresentados os objectivos pretendidos para cada exploração e os níveis a partir dos quais se devem intervir.

Como base para prevenção e controlo de Mamites, em efectivos leiteiros, deve-se seguir o plano de 5 pontos, amplamente difundido ao longo dos anos na Medicina Veterinária Preventiva:

1. Desinfectar os tetos antes e depois de cada ordenha;

2. Tratamento de secagem em todas as vacas e em todos os quartos. O ideal será anualmente estudar o perfil bacteriológico do efectivo, através do exame de cinco a dez por cento das vacas da exploração, nomeadamente daquelas que apresentarem Mamites durante a lactação, para que se possa fazer a escolha correcta do antibiótico a utilizar. As vacas com Mamites contagiosas ou recorrentes, devem ser secas mais cedo, pois a taxa de cura é mais elevada. A secagem deve ser feita de uma forma abrupta (evitar ordenhar vacas em dias alternados), e a administração dos antibióticos intra-mamários deve ser feita de uma forma asséptica como já anteriormente foi descrito;

3. Tratamento antibiótico adequado de todas as Mamites clínicas;

4. Abate de vacas com Mamites crónicas;

5. Testagem e manutenção regular da máquina de ordenha;

Para finalizar, é importante os produtores terem sempre presente que sai muito mais rentável prevenir do que tratar.




Dr. João Vidal
Extraído em parte do programa Maxi Leite