Doença da pele dos animais bovinos


Todos os anos, com maior incidência no período compreendido entre Agosto e meados de Outubro, ocorrem diversos casos de fotossensibilização nas nossas explorações agro-pecuárias.

Trata-se, na verdade, de uma patologia que atinge diversas espécies pecuárias, com especial destaque nos bovinos. Caracteriza-se pela sensibilidade da pele mais clara à luz, devido à acção de certas drogas, plantas ou outra substância.

Existem diversas formas de fotossensibilização, sendo a hepatogena a mais comum nos bovinos. Nesta forma da doença, o fígado é lesado por toxinas, que causam um distúrbio hepático, impedindo-o de fazer a desintoxicação do organismo, causada por certas substâncias fotodinâmicas (agentes que são activados pela luz solar), que se vão acumular na circulação periférica (ao nível da pele) e com incidência directa da luz solar, vão provocar na pele clara lesões características.

Esta doença encontra-se disseminada por grande número de países e regiões que possuem condições climatéricas propícias (temperaturas e humidade elevada) ao desenvolvimento do fungo pithomyces chartarum, que se encontra nos vegetais nesta altura e que depois de ingerido devido à acção de uma toxina (Esporodesmina) que provoca lesões graves ao nível do fígado. Para além do fungo citado, várias plantas tóxicas características de fim de Verão aparecem nas pastagens, contribuindo igualmente com a sua toxicidade para o aparecimento da doença. O fígado doente fica impedido de eliminar uma substância chamada filoeritrina, agente fotodinâmico resultante da degradação da clorofila (pigmento existente na erva verde) que, sob a incidência directa dos raios solares, provoca sinais característicos, e posteriormente lesões.

O animal perde o apetite, procura as sombras, apresenta-se muito excitado (escoiceia a barriga, lambe-se, coça-se contra obstáculos, etc.), apresenta grande prurido (comichão), a pele nas zonas mais claras e com incidência directa do sol apresenta hiperemia ou seja avermelhada. As narinas, tetos sobretudo a parte externa, o úbere, a vulva, o perineo e a região do dorso são as que apresentam os primeiros sinais visíveis. A zona da barbela por vezes apresenta um edema prenunciado. Numa fase mais avançada as zonas queimadas ficam escuras com a pele ulcerada, muito dura, desidratada, os animais apresentam-se ictéricos (amarelos) urinam muito (urina muito escura), o aborto ocorre frequentemente, numa fase mais avançada a pele solta-se, surgem úlceras nas camadas mais profundas da pele e por fim pode ocorrer a morte.

O diagnóstico é fácil se o agricultor ou o clínico tiverem em consideração a época do ano, as condições climatéricas e as condições de maneio, dado que os sinais clínicos são bastantes exuberantes. Quanto mais cedo for diagnosticada a doença e os animais tratados, melhores são as possibilidades de cura e de evitar lesões graves.

É preciso ter em atenção que pode ocorrer um surto, sem sinais clínicos evidentes. Neste caso deve considerar-se a existência da doença na forma subclínica (sem apresentar sinais visíveis). Esta caracteriza-se por perdas económicas consideráveis como: baixa na produção de leite e perda de peso dos animais envolvidos.

Verões quentes e húmidos são particularmente favoráveis ao aparecimento de inúmeros casos. Estes factores favorecem, não só, o desenvolvimento do fungo, como também, conduzem a uma exuberante produção de forragem. Esta forragem quando em abundância é fornecida ao gado em grandes quantidades, recorrendo-se menos à suplementação com silagens e/ou concentrados.

No entanto, nos Verões mais secos verifica-se um menor número de casos, dado que as condições de temperatura e humidade são menos propícias ao desenvolvimento do fungo, e a produção de erva, fundamentalmente, nas zonas mais baixas é mais reduzida.

O recurso obrigatório à administração de silagens como se verifica nos anos de maior escassez de forragens conduz obviamente a um menor número de ocorrências. Nestas circunstâncias a maioria dos casos de doença estão circunscritos a pastagens de maior altitude, devido ao facto de a humidade e produção de erva ser, nestas zonas, superior.

Dentro de uma mesma exploração os casos de fotossensibilização verificam-se particularmente mais nas vacas secas e novilhas, dado que estas, normalmente, são separadas do grupo de produção. Quando separadas frequentemente deixam de ser alimentadas com concentrados, sendo em muitos casos alimentadas exclusivamente com pastagens. Nestas circunstâncias, durante os períodos críticos pode surgir, simultaneamente, na mesma exploração, um elevado número de animais com sintomas de doença. Para agravar a situação o diagnóstico raramente é feito precocemente, devido a uma menor atenção prestada a estes animais.

É importante enumerar uma série de conselhos, para cuidados a ter, com o fim de evitar este flagelo anual:

- Evitar aplicar fertilizantes azotados nas pastagens durante os meses de Agosto e Setembro, porque uma pastagem azotada é potencialmente mais tóxica.

- Durante este período crítico fornecer silagem a todos os animais. Isto é fazer a alimentação depender o menos possível do produto potencialmente tóxico, a erva existente na pastagem. É preciso tomar muita atenção às vacas secas, estas para além de possuírem fígados mais susceptíveis, são submetidas a uma brusca mudança da alimentação quando separadas do grupo de lactação. Estes animais devem ser submetidos a um regime alimentar que contemple menos 40 % de erva verde, o restante deve ser silagens e possivelmente concentrado próprio para vacas secas. Além disto, estes animais devem ser mais vigiados porque quanto mais cedo for diagnosticada a doença melhor é o prognóstico.

- Uma das medidas a tomar rapidamente quando o problema for detectado, é retirar todos os animais da pastagem problema ou como já foi dito anteriormente reduzir ao mínimo a dependência alimentar da pastagem.

- Todo o animal afectado deve ser isolado num local escuro ou sombrio.

- As gramíneas (azevéns) são muito susceptíveis à infestação pelo fungo, ao contrário das leguminosas, pelo que se aconselha, aos agricultores, consociações (azevéns mais trevos), para obter pastos menos perigosos.

Para além das recomendações enumeradas os agricultores podem proteger os seus animais de uma eventual contaminação através da administração de zinco nos períodos de maior susceptibilidade. Esta protecção pode efectuar-se através da administração de sulfato de zinco misturado na água da bebida, ou através do óxido de zinco incorporado no concentrado como é o caso das Rações Santana nas épocas adequadas ou nos alimentos misturados nos unifeed ou ainda em forma de bolos ou cápsulas (de libertação lenta), que protegem os animais durante aproximadamente cinco semanas.

De facto, o zinco actua ligando-se à toxina do fungo (esporodesmina) formando quelatos, impedindo assim que provoque lesões no fígado.

Chama-se à atenção dos agricultores para que protejam os seus animais, principalmente os mais susceptíveis, que, como já se disse, são as novilhas e vacas secas que se encontram a pastagem nos períodos de maior risco (fins de Julho até fins de Setembro). Qualquer dúvida no esclarecimento necessário deverá consultar o médico veterinário que regularmente presta assistência na sua exploração.


Dr. João Vidal
médico veterinário