Mórmons: mais um grupo religioso?

por luís pereira


Fundada no século XIX, surgiu dos fundamentos da Igreja Católica mas apoia-se totalmente na figura de Jesus, “motor” do cristianismo. Poderia apenas ser mais um grupo mas é uma igreja- a que mais cresce no mundo ocidental, e em menos tempo. Criação ou recriação?



The Book of Mormon - Another Testament of Jesus Christ.


Um novo início

Jesus e o seu exemplo de pessoa e de crente, comprometido com a causa religiosa, resultou numa das mais influentes e universais criações humanas de sempre: o cristianismo. A base teórica criada, de feição religiosa, e desenvolvida pelos seus seguidores e admiradores mais próximos, teve como consequência a instauração e partilha de práticas que, rotinizadas ao mesmo tempo que a adesão social crescia.



© Frederick Hawkins Piercy (1830-1891), um artista Mormon, (Wikicommons, Mormon's Baptism Circa, cerca de 1850).

Daí resultou um elemento que é basilar para o desenvolvimento da sociedade ocidental (e, porque não, das restantes sociedades) que se denomina de “instituição”. A noção de “instituição” não é mais do que o que o próprio termo quer dizer: o reconhecimento de algo que surgiu e, a partir de um dado momento, já nem damos conta como é que esse “algo” surgiu. Apenas reconhecemos que foi e que ainda se encontra instituído. A noção de “instituição” é uma construção humana natural para facilitar a satisfação de necessidades que entretanto surgem.

Trata-se de um conceito que só se compreende se se ligar a este a dimensão da história, pois a instituição só se forma com tempo, à custa da memória dos gestos e das acções humanas, transmitidas de geração em geração. É o factor “tempo histórico” que consegue adicionar à acção de uma organização uma nova cúpula social: a instituição, claro está. Esta é a espinha dorsal da criação da Igreja Cristã (posteriormente, Católica, com a ascensão das diferentes formas de protestantismo).

A Igreja instituiu-se no imaginário das pessoas, conseguindo chegar até estas através da sua visão inovadora (à época) sobre a vida e a morte. Instituiu uma nova moral e, automaticamente, a aceitação social delegou nela esse poder, que ainda hoje não perdeu. Contudo, é reconhecido até pelo Papa Francisco que a Igreja desviou-se do exemplo de vida que serviu de motivação para a sua própria instauração.



© "A Árvore da Vida, Lehi, (Wikicommons, The Book of Mormon).

© Templo Mormon no Natal, Oakland (Wikicommons).


Séculos depois da sua criação (e ainda mais sobre a morte de Cristo, enquanto vigorava a dominação imperial de Roma), em 1820, Deus, em nome de Jesus Cristo, se terá revelado a Joseph Smith, pedindo-lhe que ouvisse Cristo. Jesus terá incumbido Joseph da tarefa de restaurar a Igreja Cristã (referindo que as outras crenças no mundo não eram verdadeiras), tal como esta se encontrava originalmente, com 12 apóstolos e um profeta. A doutrina da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (ou Mórmon) baseia-se na figura de Joseph Smith e na restauração da igreja que, em nome de Jesus Cristo, foi fundada séculos atrás. De mera seita, virou igreja. De mera organização, passou a instituição.

Ser mais ou menos cristão?

Tentar perceber qual das duas igrejas, por exemplo, é a mais ou a menos "cristã" consiste em entrar num raciocínio de competitividade desprovido de sentido. Contudo, foi o desvio das igrejas cristãs já existentes (não só a católica) face às ideias de Cristo que resultou na necessidade de redireccionar o rumo do cristianismo, restaurando-o. Apesar da intenção clara de voltar às origens, a vida de Jesus ainda apresenta enigmas difíceis de superar, como o de um possível relacionamento deste com Maria Madalena. A falta de informação ou de confirmação de dados acaba por ir legitimando a força das crenças instituídas pelas igrejas (como a revelação de Jesus a Joseph Smith), bem como a sedimentação de uma ideologia específica que desenvolve a crença assumida (como a permanência da proibição do uso do preservativo pela Igreja Católica, mesmo depois de se saber dos riscos potenciais que isso pode acarretar para a saúde pública, em muitas sociedades).

Assim, por mais que se possa desejar, não é fácil regressar às origens - precisamente, por não se ter a certeza de como foram, em diversos aspectos, essas origens. Mais uma vez, podemos constatar que é a incerteza que abre margem à crença (e, a partir desta, ao desvio...) e que o ser humano tem necessidade de preencher “vazios”. É disto que as igrejas sempre tratam, ou não?