As dificuldades económicas impedem muitas vezes as famílias de irem aos hospitais buscar os seus familiares idosos depois de terem alta médica e só no Hospital de São José estão 27 doentes à espera de serem encaminhados pelos serviços sociais.


O fenómeno do protelamento de alta por motivos sociais não tem aumentado nos últimos anos, mas é uma realidade com a qual os hospitais têm de lidar e que necessita de soluções, havendo casos em que já se "antecipam" na procura de resposta, para evitar o abandono.

Numa ronda feita pela Lusa juntos dos principais hospitais de Lisboa, Porto e Faro constatou-se a existência de vários idosos internados com alta médica, mas cujas famílias não os vão buscar devido aos seus constrangimentos económicos e, por vezes, físicos.

Trata-se maioritariamente de uma população com idade superior a 70 anos, do sexo feminino, portadora de doenças crónicas e incapacitantes, totalmente dependentes ou semi-dependentes, com famílias que apresentam dificuldades em prestar-lhes apoio efetivo, segundo o Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) e o Centro Hospitalar de São João.

O Hospital de Faro traça um perfil semelhante, especificando ainda casos de pessoas que vivem sós, sem retaguarda familiar, em isolamento social ou na qualidade de sem abrigo.

Estas situações são encaminhadas pelos serviços sociais dos hospitais, que procuram resposta para integração em lares, centros de dia ou apoio domiciliário.

De acordo com os dados do CHLC, no final da primeira semana de agosto, encontravam-se dez doentes com protelamentos por motivos sociais e ainda 17 outros protelados que aguardavam já resposta da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI).

Estes números assemelham-se aos registados nos anos 2012 e 2011.

Contactado pela Lusa, o Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN) revelou não ter este tipo de problema, uma vez que não é o centro hospitalar de referência para esta população.

O Hospital de Faro dá conta de que até junho, da totalidade de internados e alvo de intervenção do serviço social do hospital, nove tiveram protelamento de alta com diagnóstico social de abandono familiar.

Até ao fim da primeira semana de agosto, destes nove protelados, três ainda permaneciam no hospital, cinco foram integrados na RNCCI e um morreu.

Nos hospitais centrais do Porto não há registo de abandono de idosos, porque os serviços de ação social se antecipam, procurando a sua integração em lares.

De acordo com Elsa Araújo, coordenadora da Unidade de Ação Social do Centro Hospitalar de São João, a unidade trabalha com as famílias para tentar "minimizar ou eliminar os efeitos negativos das incapacidades do doente, perspetivando a sua reintegração no meio familiar", mas há casos em que a única resposta para dar alta social é a integração num lar.

Entre 2011 e 2012, os pedidos de colocação dos doentes num lar de terceira idade diminuiu, de 53 para 42, revela.

Este ano, ainda não é possível fazer contas certas, mas sabe-se que no "primeiro semestre" do ano "foram efetuadas à Segurança Social 31 propostas", acrescenta.

No Centro Hospitalar do Porto, "não há diferença dos anos anteriores", indicou à Lusa fonte hospitalar, acrescentando que "são poucos casos anuais" registados.

O mesmo se passa no Centro Hospitalar Gaia/Espinho, onde na segunda semana de agosto estavam "seis idosos com alta social protelada", indicou fonte daquela entidade, acrescentando que estes casos se verificam "de uma forma regular ao longo do ano".

No Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) são raros os casos de abandono de doentes pela família, mas estão a aumentar os de idosos, cujas famílias não tem condições para lhes prestarem os cuidados de que necessitam ou que vivem sós e não têm condições para regressarem ao domicílio.

O CHUC, que agrega os hospitais da Universidade e dos Covões, regista "dois/três casos por ano" de idosos em relação aos quais a família se "demite da responsabilidade", abandonando-os, disse à agência Lusa o Serviço Social.

"São frequentes", no entanto, os casos de "idosos que vivem sozinhos, que não têm familiares de primeiro grau e que, após o internamento hospitalar, não reúnem condições" para regressarem ao domicílio.

"É difícil apontar um número", mas aquele serviço adianta que o CHUC terá assinalado em 2012 cinco casos de "idosos que vivem sozinhos" e sem condições para voltarem para casa e que em 2013 já são 12 os casos.

A família "por falta de recursos humanos e financeiros, não reúne condições para levar [consigo] o seu doente", sendo a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) "uma resposta social para muitos destes casos".

Em 2012, "foram referenciados 1226 (quase todos idosos) e nos primeiros seis meses do ano de 2013 já foram referenciados 675 casos".

Fonte: NM